Os três pecados capitais do Brasil (Segundo um estrangeiro)

Aonde foi que erramos?

Parece haver um consenso de que existe algo errado com o Brasil e suas centenas de milhões de filhos, os ilustres brasileiros. Mas o que exatamente está errado e o que pode ser feito para corrigir isso? Não sou qualificado para responder essa pergunta pois, vejam bem, eu sou brasileiro também. Faço parte do problema, assim como qualquer um nascido e criado entre o Oiapoque e o Chuí. É necessário um olhar externo para chegar ao “x” da questão. 
 
Certo dia, já tendo como utópica qualquer possibilidade de a pátria escapar de seu destino sombrio, eu caminhava pela Praça Osório e vi um sujeito que me chamou muito a atenção. Sentado em um dos bancos, ele tinha cabelos longos, pele e olhos claros, quase albinos. Trajava vestes militares. O mais chamativo, porém, é que ele estava berrando a plenos pulmões com os pombos da praça. Seu português era tão decente quanto o da média de nossa população, mas seu sotaque, que tinha um que de Dr. Rey, indicava a possibilidade de que ele não fosse um nativo da terrinha. Fiquei observando por um tempo, achando que ele não ia me notar. Pois ele não só me notou, como puxou assunto, agora em um tom um pouco mais sereno: “Eles chamam pombos de ratos com asa, mas pelo menos os roedores têm um paladar mais refinado”. Reparei que o sujeito segurava um pacote de petiscos cujo o nome estava escrito em um alfabeto que eu desconhecia. Não que eu seja um grande conhecedor de alfabetos exóticos, mas o que impressionaria qualquer um era a coloração verde fosforescente dos pedaços do alimento que foram jogados no chão e os pássaros, aparentemente, recusaram.

Sou uma pessoa tímida por natureza, mas acreditei que aquela era uma oportunidade única de vencer a minha desconfiança de desconhecidos e conhecer uma figura realmente notável. Dei conversa e logo descobri que meu novo amigo era um militar aposentado de um país extinto do Leste Europeu chamado República da Bulgônia. O país tinha uma dívida com a União Soviética e para saná-la cedeu seu pequeno território para que os russos o usassem como um depósito de lixo atômico. “Tudo informação classificada”, ele me confidenciou, “mantenha a discrição”. Mas naturalmente posso postar isso aqui sem maiores consequências, pois a quantidade de pessoas que vai ler esse texto certamente é ainda menor que a modesta população bulgonesa.

Após a posse soviética, seus habitantes se espalharam pelos quatro cantos do planeta, tentando reconstruir suas vidas. O nosso personagem escolheu o Brasil impressionado com uma apresentação que Rita Cadillac fez na Bulgônia nos anos 80. O nome do senhor é Zhrknvskyc e sargento era seu posto no exército antes de ser obrigado a se aposentar. Hoje ele vive na capital paranaense, aonde fundou um instituto de caridade com fins lucrativos. A associação funciona da seguinte maneira: Em troca de um valor mensal que chega a três dígitos, os beneficiários recebem o direito a uma dieta à base de Zhrknvskyctos (Um aperitivo desenvolvido pelo próprio sargento, aquele mesmo que os pombos recusaram) e palestras motivacionais diárias dadas por ele mesmo: “O valor simbólico estando em dia, eu vou dar caridade para essas pessoas quer elas queiram, quer não! Vou enfiar caridade goela abaixo delas se for preciso!”, ele me disse se exaltando novamente. 
 
 A pouco usual chance que eu dei ao desconhecido foi recompensada, enfim. Criando esse contato com um estrangeiro radicado em terras tupiniquins, finalmente tive a oportunidade tão esperada de perguntar a alguém qualificado a decifrar esse enigma: O que deu errado com o nosso menino Brasil, afinal de contas? Segue abaixo o questionário que fiz a ele e suas respectivas respostas:
 
 Como um cidadão do velho mundo, que vive no Brasil já há um bom tempo, quais são os principais problemas que você identifica em nossa nação?

SARGENTO — Veja bem, eu gosto muito do Brasil, essa terra me acolheu muito bem. Mas existem três pontos cruciais que impedem o Brasil de virar uma grande potência. O primeiro deles: O brasileiro não é patriota! E digo mais: O brasileiro nem sequer entende o conceito de patriotismo. Não basta simplesmente achar o país em que você nasceu ou vive “bacaninha”. Você tem que achar o seu país colossalmente superior a todas as outras nações da face da Terra. Em todos os aspectos. Humanos, culturais, esportivos e até gastronômicos! Por exemplo, se você for em um restaurante e em vez de alimentos tipicamente brasileiros como o inhame e a mandioca te servirem comidas estrangeiras como uma pizza ou uma lasanha, você tem todo o direito de se aproximar sutilmente do proprietário do estabelecimento e dizer: “Meu senhor, com todo o respeito, mas você acha que meu aparelho digestivo é uma caçamba para eu colocar esse lixo na minha boca? Essa comida é de um país que apanhou até dizer chega para os meus ancestrais em Monte Castelo! Você acha que eu quero fazer uma dieta de perdedores? Me poupe!” (Nota do Autor: Evitei o uso do Caps Lock para poupar os olhos de vocês, meus caros leitores, mas nessa hora o sargento não apenas berrava a plenos pulmões como espumava tal qual uma vítima de overdose de narcóticos.) Como o meu país já não existe mais e eu moro aqui há décadas, posso dizer com propriedade que já sou mais patriota que a maioria esmagadora dos brasileiros.
 
Tá certo, chega de lasanha para mim também. Mas vem cá, qual seria o segundo problema do brasileiro?

SARGENTO — O segundo problema está ligado ao infame “jeitinho brasileiro”. A tal da malandragem.
 
Você acha que é falta de ética se aproveitar das pessoas? Compreendo…

SARGENTO — Não, não, não! Não foi isso que eu quis dizer! Não coloque palavras na minha boca! Não tem nada errado em se aproveitar do mais fraco ou do menos inteligente. Eu não teria ascendido no exército e chegado ao posto de sargento se não tivesse explorado as fraquezas dos meus inimigos até seus extremos. O problema é que o brasileiro dá muita bobeira, dá muita chance para a pessoa em que ele passou a perna reagir. Por exemplo: Se você tem uma conta pendurada em algum boteco e não pretende pagar, não basta você simplesmente nunca mais dar as caras no estabelecimento. Você tem que se certificar de que nunca mais será cobrado em hipótese nenhuma!
 
E como isso seria possível?
 
SARGENTO — Bom, uma cirurgia plástica alterando completamente a sua fisionomia é um bom começo. Mudar de nome e de endereço por precaução também não faz mal a ninguém. Além disso, nada o impede de sorrateiramente invadir o bar quando ele estiver fechado, ter acesso ao arquivo em que suas dívidas estão anotadas e trocar o seu nome pelo de algum inimigo mortal. Não confio em quem não tenha inimigos mortais, se você não tiver pelo menos um você não é digno dos meus conselhos. Uma outra possibilidade é apagar a memória da vítima do calote com um aparelho de alta tecnologia.
 
Eu achei que esse tipo de aparelho só existisse naquele filme M.I.B.

SARGENTO — Que nada! Esses roteiristas tiram tudo da vida real, a criatividade desses picaretas não faz nem cócegas na imaginação da indústria bélica. Todo exército no mundo tem um aparato desses, e não é de hoje!

Mas imagino que eles não sejam muito acessíveis para a população civil.
 
SARGENTO — Problemas dos civis, não meus. (Depois disso um longo período de silêncio se deu, até que o Sargento pareceu iniciar o que seria uma soneca. A essa altura do campeonato, achei que já tinha intimidade o suficiente para interrompe-lo.)

Sargento!
 
SARGENTO — Pois não…
 
Você falou que o brasileiro tem três grandes problemas. Qual é o terceiro, afinal?
 
SARGENTO — O terceiro problema do brasileiro é… Bom… Eu esqueci… Mas ah! Eu falei sobre isso na minha última palestra, tenho o discurso escrito comigo aqui. Um momento… (O sargento tira um papel amassado do bolso, começa a ler, até que finalmente encontra a reposta.) Ah, sim! O Brasil é um país sem memória!

Alguma solução viável para isso a curto ou longo prazo?
 
SARGENTO — Ah… Sei lá… Comam mais peixe… Os peixes brasileiros também contêm fósforo que faz bem ao cérebro. Evitem a Cannabis, não legalizem isso de jeito nenhum, será um tiro no pé! Anotem as coisas que vocês precisam lembrar depois. Não faltam ferramentas para isso hoje em dia. Lápis, canetas, lapiseiras, post its, cadernos, laptops, desktops, tablets… É só escolher.

Obrigado pela conversa, sargento. Foi muito esclarecedora.
 
SARGENTO — Poupe os agradecimentos. Você não tem interesse em ser beneficiário do meu instituto de caridade?…