A História Universal do After

27 de novembro de 2016, Cidade Baixa, 15h50

Antes

Antes era tudo bem mais simples e eu me comportava como um cãozinho suplicante que pula, senta e dá a pata para escapar dos eletrochoques e ganhar biscoito. Depois do condicionamento, vieram os trocadilhos e os jogos de linguagem da Padeologia, dispositivos antiquados se comparados aos memes da cultura contemporânea em sua relação dinâmica entre imagem e texto. O humor como um exercício temporário da crítica. Denominei a esta primeira fase de After Psicanalítico. As regressões induzidas pela cocaína e o espelhamento pelo olhar do outro (neste caso, o múltiplo olhar do grupo) de meus próprios sintomas me levaram a rompimentos que executei com a frieza de um cirurgião (ainda guardo o bisturi na carne como um souvenir do procedimento). A chave de leitura foi desde o princípio a paranoia, que deve ser compreendida, conforme Sedgwick, como uma estratégia mimética e antecipatória menos preocupada em realizar o prazer do que evitar a dor. Com a atenção sintonizada às manifestações (in)conscientes do(s) outro(s), quaisquer que fossem: a escolha de uma determinada peça de roupa, um olhar enviesado na pista, o movimento corporal que afasta ou aproxima, a entonação da voz durante o comentário, supria-me de suposições que tão logo e de modo algum para a minha surpresa acabariam por se confirmar. Mantinha o futuro sob constante vigilância em busca de uma má notícia que jamais poderia chegar (a informação é uma arma psíquica de efeitos aniquiladores) e era capaz de relacionar eventos que poderiam carecer de uma conexão aparente, mas que logo se revelariam elos distantes de uma mesma e longa corrente (se fosse enumerá-los agora esta narrativa se perderia em digressões (em parênteses dentro de parênteses) já que cada um destes eventos se ramificava em outros e assim de forma múltipla e sucessiva). A consciência de que minha própria ambição teórica se configurava uma empreitada paranoica apenas reforçava a certeza de que com as referências bibliográficas certas, um bom supervisor e duas cartas de recomendação eu poderia passar facilmente de pirado a doutor. Toda teoria tende a fixar os processos ágeis que atravessam o seu objeto. Teorizar é, portanto, objetificar. REIFICAR, conforme a fabulosa imaginação marxista em seu enorme talento para dar nome aos processos socioeconômicos. Com a entrada em cena de Lady K, os trocadilhos iniciados com a Padeologia se tornariam ainda mais complexos, como se mais camadas significantes fossem acrescidas ao texto verbal. Depois de Goma no estacionamento, vivendo uma postopia de contabilidade & criação enquanto cheirávamos CK[1] rabiscando as ideias que iriam dar mais tarde na coleção de aforismos & piadas internas de A Manifesta Gomunista, Ana apareceu não sei de onde com um par de carimbos que compunham o seu sobrenome POS/ADA. Carimbou no próprio baço POS e talvez tenha sido ali, naquele flagrante biossemântico proporcionado pelo acaso, que percebi que poderia construir minha teoria tendo como princípio o prefixo mais festejado da contemporaneidade. Pequeno elemento gramatical que é inserido antes de uma coisa para designar o que vem depois dela. Afixo ambíguo que antecede os conceitos derivando-os a um ponto além. Este ponto é um espaço indeterminado onde a diferença salta da repetição e aponta para um futuro que será o passado de novo, eterno presente que promete a superação das próximas promessas, distância que aproxima para de onde nunca se saiu. Conhecíamos bem esse lugar. Ele era alcançado após a festa toda vez que os corpos carentes de nutrientes, privados de sono e exauridos pelo trabalho de pista desafiavam o esgotamento físico adiando com outra dose de droga o fim que jamais deveria chegar, na reiteração de gestos mínimos e assunto, o único, sempre o mesmo, com o superego superanestesiado, a língua solta e as presas gotejando veneno no tempo dilatado de depois de depois de depois de depois de. E assim éramos mobilizados rumo a um destino o qual não tínhamos o propósito de alcançar. Longo o caminho, mas grande é a meta e ela deve ser aumentada a cada passo postergado. Em uma semana atípica, com a cozinha em pleno funcionamento para a cocção da droga, me indispus com dois terços da lista de amigos devido a uma série de “posts polêmicos” que geraram um processo entrópico que se fosse conduzido com maior determinação tenho certeza que se alastraria para fora da Rede, decorrendo em resultados catastróficos. Trata-se de uma droga muito séria. Por um breve momento chegamos a cogitar que nos comunicássemos por telepatia. Mas logo entendi que as conexões dependem muito de como cada qual lida com as maquinações do próprio inconsciente, tornando a comunicação telepática uma ferramenta recomendável apenas para os sujeitos desreprimidos. Também um fenômeno da ordem paracientífica, a ubiquidade já se fizera possível através da Rede e, após uma temporada de festas entre Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte, à qual alguns integrantes do coletivo se engajaram com o entusiasmo dos suicidados, a sensação de multiplicidade e des/reterritorialização tornou-se ainda mais intensa. Em um destes deslocamentos, quando participei de uma incubadora de curadores promovida pela 32ª Bienal, tive a oportunidade de discutir alguns aspectos da pesquisa com valiosos interlocutores. Era evidente que qualquer teoria que tentasse dar conta da festa precisava ser construída desde dentro, de forma participativa, uma teoria-enquanto-prática-ou-vice-versa, uma teoria performativa. A pesquisa sobre o gesto da curadora e historiadora da arte Olivia Ardui me interessou imediatamente, pois ela incluía o vogue — a mais apolínea das técnicas da dança urbana — junto aos mármores, pinceladas, cortes e demais gestos (mínimos ou não) da história da arte. Olivia também trabalhava em uma publicação sobre personagens típicas do campo da arte inspiradas nos arcanos do tarô. O uso de arquétipos e do humor como ferramenta crítica era algo a qual eu podia me conectar com entusiasmo. Com a artista Michal Helfman (contou-me de sua atuação como cenógrafa nas raves de Tel Aviv nos anos 1990) dividi a necessidade de produzir um pensamento teórico que fosse comparável à movimentação dos corpos. O meu objetivo era pensar e escrever como quem dança — e dançar como quem pensa e escreve. “You must write your party manifesto”, ela diria mais tarde, enquanto nos balançávamos ao som de Rihanna na pequena pista improvisada durante a festa de encerramento da oficina. O curador Lars Bang Larsen, um especialista em psicodelia, indicou-me um texto que parecia descrever com precisão certas práticas que vínhamos testando no coletivo. O conceito de intimate bureaucracies integrava o que seu autor dj readies (pseudônimo de Craig Saper) definiu como sociopoética. A sociopoética situa-se nos limites do campo artístico, referindo-se a projetos que fazem uso tanto de situações quanto de redes sociais como “canvas” (entendendo, suponho, a tela como metáfora para uma superfície de expressão, ou seja: um meio). Já as burocracias íntimas designariam trabalhos de arte performática e conceitual que imitam e zombam de procedimentos do universo empresarial e administrativo, operando em uma escala diferente da promovida pelos grandes sistemas que determinam as ideologias (?). Burocracias íntimas sugerem modos de participação descentralizada, manipulam e orquestram situações, assinalando a emergência de políticas alternativas — quanta pretensão! Também se afirmariam por uma série de regras e preceitos, cujo objetivo seria o de organizar um sistema que, no caso de Goma, eu defendia que deveria explorar outros meios de participação que não o da democracia representativa. Conforme costumávamos discutir naqueles primeiros afters, tendo como estudo de caso a operacionalidade horizontal do coletivo Arruaça: a representação deveria ser superada pela presença. Por isso a dança tinha um papel tão importante no processo de mudança dos modos de apresentação dos sujeitos. O corpo como limite e fronteira. O corpo como constituição. O preceito que eu mais gostava porque propunha um modo humorado de intervir na caretice da realidade era o de tornar a piada interna uma forma de organização social. O conceito de burocracia íntima definia o modus operandi de nosso grupo, baseado em uma coleção de normas auto-impostas que em minha opinião muitas vezes acabavam por paralisar o funcionamento do coletivo. A fascinante ambivalência do termo também evocava nossas próprias perguntas sobre como encarar as contradições que se apresentavam diante de nós o tempo inteiro, as contradições de possuir privilégios em uma sociedade estruturalmente desigual, e de ter escolhido a festa — ter escolhido a busca do prazer — como gesto político dentro desta sociedade perversa. Uma escolha fundada no poder, afinal tratava-se de um tipo de luxo ao qual nos dávamos. O próprio uso da droga, item que era o alfa e o ômega de nossa busca hedonista e epistemológica, continha uma alta dose de ambivalência. A droga é o instrumento da mediação do imediato. Ela é tanto medicina quanto veneno: o veneno contra veneno do ditado samurai (sumo paranoico). O remédio encontrado pelo ser humano em seu passado longínquo para apaziguar a angústia causada pelo processo civilizatório. Goma se via como um coletivo de DJs que promovia festas, mas eu enxergava uma potência muito mais subversiva em nosso ajuntamento. Entendia o grupo como uma espécie de laboratório de micropolítica e plataforma para acionar algumas ideias que não eram necessariamente novas, pois já haviam sido postas em circulação por toda uma tradição de antiartistas, guerrilheiros culturais e terroristas sociais. Escolher este caminho seria seguir um percurso de pretensões e perigos que talvez nem todos estivessem dispostos e/ou preparados a enfrentar.

[1] Lê-se Calvin Klein. Designa a mistura de cocaína e ketamina (N. do A.)