A História Universal do After

Leo Felipe
Sep 4, 2018 · 7 min read
11 de março de 2018, Belo Horizonte, 00h49

O Artefato

O cu mais perto do chão / A alma mais próxima do céu

Traduzido a partir da radiografia de um fragmento de pergaminho higiênico (exemplo presumido de escrita coliforme) que teria sido encontrado no banheiro químico do fim do universo, este aforismo permanece como um dos maiores mistérios que ainda hoje desafiam os limites da ciência e do bom gosto. A tradução, cuja autoria é atribuída à prestigiada mitóloga Sandra Dreher, também não está imune a controvérsias. O debate se fundamenta na observação de que, conforme o pensamento pós-espiritista mais avançado, o cu seria o ponto de passagem da alma no momento da transmigração (a semelhança entre as palavras ânus e ânima não é, portanto, uma coincidência). Além disso, estudos da Associação Patafísica de Transastronomia realizados no deserto da Patagônia em maio de 1968 já haviam contestado a noção ultrapassada de chão e céu. Para esses patafísicos, tais conceitos seriam desprovidos de qualquer significação transastronômica válida — levando em consideração que o locus epistemológico neste caso estaria localizado na vacuidade do espaço sideral. A própria autenticidade do banheiro químico (o Artefato que comprovaria a existência de vida inteligente extraterrena) já fora posta em xeque em inúmeras ocasiões ao longo do último século por polemistas das áreas mais remotas do conhecimento. “O Artefato nada comprova, tampouco sua própria legitimidade enquanto tal”. A frase que começou a aparecer escrita nas mais diversas línguas nos muros de algumas das principais metrópoles do planeta logo após a divulgação das primeiras imagens do Artefato é o indício de que para muitas pessoas aquela que é considerada a descoberta inaugural da pós-ciência talvez não tenha passado de uma ação de propaganda geopolítica no âmbito da colonização interplanetária. Especialistas ligados à corrente da Coreografia Crítica chegaram a especular que o suposto achado integrasse uma campanha publicitária malsucedida encomendada por uma megacorporação fabricante, dentre outros, de produtos de limpeza, drogas recreativas, mísseis teleguiados e brinquedos infantis. Autêntico ou não, o pequeno poema radiografado no interior do banheiro químico é um maravilhoso paradoxo dotado de alta concentração significante que fornece pistas (possivelmente falsas) do que possam ser/poderiam ter sido os rituais religiosos praticados por espécimes dotadas de inteligência que viveram/vivem na vasta imensidão do universo. Uma das hipóteses mais aceitas é aquela que atribui ao Artefato a função de dispositivo litúrgico, o equivalente ao confessionário na antiga fé católica. A presumida descoberta simboliza a maior revolução científica desde as detonações da bomba atômica no Japão, no ano 45 do século 20, e foi o estopim para a explosão das primeiras disciplinas pós-científicas, a exemplo da Nova Arqueologia, a Auterologia e a Astropsicologia. Mesmo tendo sob suspeita sua legitimidade, o Artefato é a reafirmação de uma mudança de paradigma est/ético que afetou profundamente as percepções e representações daquilo que foi um dia chamado pelos seres humanos de realidade. O primeiro indício desta transformação recai sobre a derrubada de um monumento: as Torres Gêmeas. O 11 de Setembro desencadeou no mundo ocidental uma organização paranoica contra a ameaça do terrorismo que possibilitou que os meios de controle sociais se tornassem ainda mais sofisticados e agressivos. Se toda a arquitetura é política, expressão material do poder que delimita e organiza os nossos contextos sexuais, quais seriam as transformações provocadas pelo colapso de estruturas materiais dotadas de alto valor simbólico? Não estaria o próprio patriarcado ameaçado diante do colapso destes dois falos gigantescos? Em nosso passado como civilização, a autoridade do pai foi desafiada pelo filho que depois, contaminado de culpa, restauraria a ordem paterna, mas hoje são as filhas a principal causa do temor do parricídio. Se o contratentado assinalou o retorno dos regimes teocráticos e fascistas no Ocidente e suas periferias, por outro lado também possibilitou a ascensão do misandroterrorismo como uma das mais radicais formas de resistência política já conhecidas. A nova ordem antecipada por 11 de Setembro e inaugurada pela descoberta (ou invenção) do Artefato foi chamada por Sandra Dreher de Necromodernidade. A velha estima pelas excreções humanas é revalorizada evidenciando o impulso escatológico que direciona os rumos da cultura pós-Ocidental. A ocorrência de seitas mileranistas em várias localidades da Terra, muito semelhantes às que já haviam se espalhado pela Europa medieval há mais de mil anos, é a marca social mais significativa da Necromodernidade. O milenarismo surgiu como uma doutrina religiosa a partir de interpretações do Livro das Revelações, contido no primeiro exemplo registrado de pós-verdade: o Novo Testamento. O movimento integra o que se chama de escatologia cristã, uma parte da teologia que imagina os últimos eventos da história do mundo, ou seja, o Apocalipse. Ele se refere à segunda vinda do personagem Cristo: o reino do Céu na Terra que duraria mil anos. As principais características do mileranismo nos mostram que ele é: 1) coletivo (implica na salvação de todas as almas); 2) terrestre (a salvação vai acontecer aqui, e não no além); 3) iminente (será agora ou a qualquer momento); 4) total (nada vai ficar de fora); e finalmente 5) sobrenatural (são forças externas que causarão aqui, agora e para todas as almas o fim de tudo e a salvação). Como discurso e prática de transformação social o milenarismo se situa no ponto oposto da utopia. Os utópicos imaginavam um mundo perfeito que ainda não tem lugar neste plano, mas que um dia poderá existir. Já os heréticos mileranistas, diante do fim iminente, agem agora no intuito de transformar a sociedade de maneira radical, através da subversão dos valores e da inversão completa da ordem das coisas. É necessário ter em mente que a determinação das heresias e a perseguição aos hereges sempre foi uma empreitada de natureza política. Ideias mileranistas tiveram grande influência através dos séculos. O Punk, por exemplo, talvez seja o exemplo mais conhecido do milenarismo no campo das Belas Artes, assim como o Marxismo o é no campo da Teologia. A constatação acerca da recorrência de seitas de orientação milenarista em diversas coletividades de cantos distantes do mundo globalizado representa o fracasso (e a negação) da utopia como possibilidade política e o estabelecimento da moral escatológica como referência para uma nova educação est/ética. Segundo Dreher, as consequências das mutações advindas de influências infraestruturais (extrema poluição nos centros urbanos, consumo de alimentos reciclados e medicamentos de longevidade) e da zumbificação completa das classes consumidoras são os fatores biodeológicos que levaram a espécie humana à Necromodernidade. Com a trilogia Shit Happens: No fim do universo tinha um banheiro químico; Capitalixo e, especialmente, Eat Your Trash: Em direção a uma Ética Escatológica, Dreher mostrou como o grande fenômeno de imbecilização coletiva por qual a maioria das sociedades que ela chamou de retro-avançadas (a exceção daquelas pertencentes à extinta Escandinávia) passou ao longo do século (e que tem na “anunciação” do Artefato um de seus turning points) acabou por trazer resultados inesperados para as grandes corporações que provavelmente o engendraram, sendo a chamada “epidemia” de congregações anticoncepcionalistas o exemplo mais contundente desta reviravolta. Dreher insiste que a zumbificação de todos os setores produtivos da sociedade tem como finalidade a preservação do estado de trabalho e consumo perpétuo. Somos os senhores de nossa própria escravidão. O processo de zumbificação culminou com a negação de conhecimentos científicos elementares, o antiintelectualismo, a inépcia para atividades físicas além do Esporte e no que a renomada mitóloga chamou de “iPatia”, a incapacidade absoluta de compreender emocionalmente um objeto. Apesar de tantos revezes Dreher vê a chegada da Necromodernidade como positiva, ela é o início de um processo que aponta para a superação do conceito de humanidade tendo como ponto de partida o fim da própria espécie. A autodestruição é a única forma possível de resistência. A construção das novas metrópoles subterrâneas, os velórios em Marte (que Dreher chamou de turismo fúnebre), as deformações protéticas, as novas tendências comportamentais que privilegiam o intercurso anal e a coprofilia, a proliferação dos Templos do Tekno, a fúria homicida das Novas Milenaristas ou a ingenuidade das Milícias das Artes Perfomáticas são todos fenômenos consequentes de um mesmo acontecimento: a massiva divulgação de um boato. A reeducação est/ética pela qual passa a humanidade enquanto talvez esteja dando aqueles que sejam os seus derradeiros passos tem na escatologia o seu principal fundamento. Dreher executa uma mixagem que descontextualiza ideias da ciência do século 20, transportando-as para o contexto mitológico da Antiguidade. Ela resgata Enrico Fermi, o cientista que emprestou seu sobrenome para designar o famoso paradoxo que ainda não podemos afirmar se foi ou não superado. Fermi se consagrou por sua participação no Projeto Manhattan, a iniciativa que desenvolveu a primeira bomba atômica. Suas considerações sobre quantidades impossíveis de calcular levaram a uma estimativa acerca do número de civilizações que deveriam existir na Via Láctea. A grande probabilidade de haver vida inteligente em nossa galáxia nos leva à pergunta: por que ainda não fizemos contato? Uma das respostas a esta pergunta é a hipótese de que a vida inteligente tende à destruição de outras inteligências, incluindo a si própria. Diante desta afirmação, como pensarmos a existência de um banheiro químico no fim do universo cognoscível, o Artefato que resume todas as implicações filosóficas da escatologia? Talvez estejamos diante da obra de uma civilização que percebeu as vantagens em reconhecer e dignificar aquilo que todos nós insistimos em negar. O segredo que ocultamos embora cada um de nós saiba que o outro também esconde, tesouro que é uma parte inerente a nosso ser. A mixagem de Dreher recorre ao mito de Pandora, a primeira mulher criada por Hefesto e Atenas a mando de Zeus. Pandora é considerada mãe de todas as mulheres, a representação da feminidade destrutiva e o equivalente à Eva do mito bíblico. Seus infortúnios foram contados na Antiguidade pelo poeta Hesíodo. À Pandora foi entregue um objeto que nunca foi uma caixa — e também nunca pertenceu a ela (um erro de leitura cometido por Erasmo de Roterdã quando o filósofo traduzia o mito para o latim provocou o equívoco). Ao receber o vaso, Pandora foi advertida que não deveria abri-lo para que o conteúdo jamais escapasse de seu interior. O epicurista Filodemo de Gádara atribui ao marido, o titã Epimeteu, a culpa pela abertura da falsa caixa que libertou todos os males do mundo. E assim a humanidade foi acometida de desastres múltiplos ocasionados por doença e trabalho. Somente a esperança restou dentro do vaso, o que lança a suspeita de que na Era de Ouro ela fosse considerada também um mal. Dreher reivindica o papel de última ocupante do Artefato à esta primeira mulher mitológica.

    Leo Felipe

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