Bicho-preguiça, avestruz ou só homem mesmo?

Como sou chefe na agência que trabalho — ou melhor — head criativo e líder de um equipe de criação, me empolgo muito pra estudar sobre liderança. Os clássicos textos, vídeos no youtube (alguns clichês, concordo) ou cursos online. A cabeça fica a mil e sem o formato tradicional da sala de aula, ninguém pra compartilhar suas ideias ou suas conclusões. Bom, resolvi escrever por aqui. Nesses momentos, escrever pra mim é um ato de desova solitária, construtiva e quase orgasmática.

A inquietação da vez são as eternas comparações de animal e homem. A águia, soberana ave do imaginário americano, sempre está presente. É um dos animais mais citados: forte, grandioso, abarca tudo o que vê, tem uma visão holística apuradíssima e um foco de dar gosto. Quantos águias já vi passar por mim? Quantos lobos em pele de cordeiro passam no incrível reino da floresta dos nossos escritórios do dia-a-dia? Aí resolvi abrir a arca de Noé e não deixar ninguém de fora.

O pavão é o ardiloso boçal, cheio de si e vazio do resto. Aquele que na entrevista dá um show e quando pega um e-mail não sabe nem digitar o nome. A avestruz, aquele que quando você elogia fica vermelho de vergonha, mas pra falar mal dos outros, mete o bico sem nem ter razão. Desengonçado, quando for pedir desculpas, vai vir chorando dizendo que estão falando mal dele. O pato que é a limitação na vida — você passa um job que é pra nadar no rasinho e ele tem quer pôr a bóia de braço pra não se afogar. Você pergunta se quer ajuda e ele finge que tá tudo certo. Quando falha, diz que tem asa mais não sabe voar. E não avisa antes. O gato, aquele que enfeitiça e mente com as palavras e os bons gestos pra você e pro escritório inteiro até conseguir o que quer. Como demora pra ver o resultado, quando chega não dá valor e joga tudo no chão sem dó. E ainda culpa o cachorro. O cachorro, coitado, é o amado funcionário do mês que todo mundo gosta e que gera uma ciumera danada. Todo mundo sabe que ele faz de tudo pra agradar todo mundo, e forma um grupo de invejosas que alegam que não é de raça. A joaninha, a simpática que enfeita o departamento com a sua alegria, mas no fundo não fede nem cheira e prefere ser pisada do que pisar. O sapo, que é pau pra toda obra, nada, pula, faz o diabo — mas se tentar controlar, desliza fácil. Precisa de muito espaço pra transitar livre. A formiga, o operário braçal e incansável que sempre reclama que precisa de tempo pra dar conta da expectativa do que ele quer fazer. E o que ele quer fazer é sempre grandioso e quase inalcançável. Já a cobra, é a silenciosa da mesa de canto que fala baixinho, trabalha pouco e gasta o resto do tempo pensando em como atacar. É aquela que faz amizade pra mostrar o quanto o emprego é ruim até a outra pessoa sair e ficar no lugar. E ninguém vê. Pra abrasileirar a história, tem o baiacu que é aquele boa gente tranquilo, faz o melhor mas tem senso de justiça. Se é pra se defender o grupo que anda, ele solta um veneno que só atinge quem ataca. O destemido justiceiro, quase um lampião.

Ah, e ainda tem o bicho preguiça que só está extinto da natureza — porque nos escritórios dá mais do que macaco em banana. Bom, deixa os macacos pra uma próxima que eu ainda prefiro o homem sapiens que a versão do bicho primata. Ou pelo menos por enquanto.

*Ah, se você estiver sem tempo e com muito interesse em estudar liderança como eu, os cursos on-line da Escola São Paulo são ótimos. E olha que isso nem é jabá: http://www.escolasaopaulo.org/.