Flexibilização Vocacional

Uma crítica à reforma do Ensino Médio

De uns anos pra cá, quem me conhece sabe que nutri um interesse grande pela área da educação, principalmente a que envolve os ensinos Fundamental e Médio, e depois de algumas leituras sobre o assunto achei que seria bom expressar a minha opinião.

Quando me deparei com esse assunto pela primeira vez foi através dessa notícia: Ministro promete reforma do ensino médio até o fim do ano; que estampa como subtítulo a seguinte frase:

“Mendonça Filho afirma que jovens não se identificam com modelo atual de educação.”

Por um momento confesso que fiquei positivamente surpreso, visto que sou um dos que critica (e muito) o atual modelo de ensino médio do país. Não me identifico com o modelo, assim como cita a matéria. Não acho certo que os últimos três anos de um jovem na escola, momento em que está entrando na vida adulta, sejam resumidos em estudar para o vestibular e estudar para o vestibular (a repetição foi proposital). Logo, achei que poderia se tratar de algo que me agradaria.

Mas foi lendo o seguinte parágrafo que essa “surpresa” virou de cabeça pra baixo.

“O projeto, de autoria do deputado Reginaldo Muniz, do PT de Minas Gerais, prevê flexibilizar o currículo do ensino médio, fazendo com que o aluno tenha opção de escolher as disciplinas de acordo com sua vocação ou especificidade da região onde mora.”

E foi daí que duas palavras saíram e ficam piscando até agora na minha cabeça. A primeira foi “Flexibilizar”.

Vou direto ao ponto. Nesse caso flexibilizar pode ser substituído por baratear.

O professor no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) Dante Henrique Moura afirmou que flexibilização está relacionada ao objetivo de baratear o ensino público, comprometendo a educação das classes mais empobrecidas do país. “Os que ocupam posição mais privilegiada na hierarquia socioeconômica nunca se submeteram nem se submeterão aos limites das reformas educacionais, como foi no caso da reforma promovida pela Lei n. 5.692/1971.”

Segundo o próprio site do governo federal, “a proposta estabelece que os currículos do ensino médio sejam organizados por áreas do conhecimento: linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas” (te lembra um certo Exame?).

E logo depois afirma:

Se aprovado o PL, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) se tornaria obrigatório para os alunos

Eles não querem formar cidadãos. Eles querem formar mão de obra alienada.


A outra palavra que me chocou foi “Vocação”.

Indo mais uma vez direto ao ponto. Vocação não é parâmetro para direcionar o ensino.

Conheci e estudei com muitas pessoas que eram excepcionais em matemática, biologia, física e química, e que hoje fazem cursos de história, direito, administração e etc. Assim como pessoas que eram nota 10 em português, filosofia, história e sociologia, e que hoje fazem engenharia mecânica, computação, arquitetura e etc. Dificilmente elas seriam o que são hoje se não tivessem essa base completa de ensino que tiveram, e essa proposta abre brecha para a fusão de diversas disciplinas essenciais.

Essa reforma quer fazer com que você escolha, no seu último ano, o seu caminho. Exatas ou humanas. De um jeito que parece até guerrinha de Facebook. E acredite, isso será um peso gigantesco nas costas do aluno (eu mesmo levei muito tempo para decidir o que faria na faculdade).

“Ah, mas e se eu estiver em dúvida?” Desculpe. Isso não será opção.

Segundo o site do governo, “no futuro, caso decida mudar de área, ele (o estudante) pode retornar à escola e fazer uma nova opção formativa.” Ou seja: teve dúvida e escolheu o que não queria? Não tem problema. Volte pra escola novamente e aprenda.

O que essa reforma propõe não é nem perto de uma solução. na verdade parece mais uma proposta de 50 anos atrás (você deve saber a qual período estou me referindo) quando o currículo das escolas tornou-se extremamente técnico, voltando o jovem exclusivamente para o mercado de trabalho e dessa forma diminuindo a preocupação desse jovem em questionar o regime da época.

Coincidência ou não, já sabemos o final dessa história.

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