A incrível geração de mulheres que deixam textos idiotas de internet pautarem as suas vidas
Antigamente, quando a gente queria corroborar algum pensamento, a gente usava Platão, Sócrates, ou bradava que Sartre concordava com a gente. Podia ser também o Bob Dylan, o John Lennon ou o Marlon Brando. Tinha gente que apelava até pra celebridades menores pra encontrar uma opinião igual a sua. Eu admito que já apelei pra um “o Wando concorda comigo!”, em um momento de desespero. Mas isso era comum, geralmente usávamos pessoas abalizadas, inteligentes, que trariam certa autoridade para a nossa teoria ou ideia. Mas os tempos mudaram.
Hoje em dia é comum vermos o texto absolutamente óbvio e chato do Zé do blog “Não pego ninguém mas sei tudo de relacionamentos” ser exaltado, idolatrado e usado como defesa para as mais diversas ideias e teorias. O Zé não fala nenhuma novidade, nada que ninguém fale milhares de vezes todos os dias, mas como é o Zé que sabe tudo sobre amor e mulheres, “aí, tá vendo, até o Zé tá falando isso!”. Mas o texto é a mais perfeita tradução do termo “Profeta do Óbvio” e o Zé não é nenhuma autoridade. Não é um texto do Chico Anysio sobre casamentos ou da Luana Piovani sobre como ser linda, sexy, maravilhosa, perfeita e linda de novo, coisas que essas pessoas entendem. É só o Zé, com um texto chato e óbvio.
É muito triste ver mulheres — homens também, mas mais mulheres — usando textos ruins, óbvios e cheios de polêmicas vazias para corroborar suas ideias. “Tá vendo, o Zé concorda que o parto deve ser feito debaixo d’água, com sais aromáticos, dois Pandas na banheira, um hippie mandando boas vibrações do lado e fora e, claro, com a luz apagada, afinal, o filho deve nascer como antigamente, e antigamente não tinha luz elétrica”. E se você quer fazer ou defender alguma coisa, você não precisa de um texto de um estranho concordando com você para isso! Quer fazer sexo casual? Faça! Quer ter seu filho através de uma cesariana feita com uma faca de peixe enferrujada? Tenha! Quer ser feminista? Seja! Mas pelo amor de Deus, não justifique nada com um texto óbvio e “polemiquinho” qualquer.
Pior é quando o Zé em questão defende algo óbvio, e é visto como um corajoso defensor da humanidade. “Olha só, o Zé também concorda que os homens não devem estuprar as mulheres!”. “Sabia que o Zé não concordava com isso de que as mulheres devem ser submissas ao homem para sempre e servi-lo e adorá-lo”. “Nossa, que coragem do Zé se posicionar no sentido de dizer que as mulheres devem ter liberdade para fazer o que quiserem com seus corpos!”. Alguém em sã consciência discorda disso. Precisa ser um William Wallace ou um Harvey Milk para defender ideias como essas? Por que as mulheres — e os homens também — precisam tanto que um anônimo corrobore suas ideias, mesmo sendo ideias básicas e óbvias como as que eu citei aí em cima?
Eu tenho mais medo dos falsos profetas que a Bíblia nos alertava do que dos profetas idiotas, porque estes arrastam multidões de idiotas ao redor das suas teorias rasas e cheias de polêmica de banheiro feminino. “Eu sou a favor das mulheres poderem ter quantos parceiros sexuais elas quiserem!”. Quem não é? Só quem é idiota. “Abaixo a violência contra as mulheres!”. E alguém é A FAVOR da violência contra as mulheres, excetuando-se quem a pratica? Não. É muito triste isso, ver ideias óbvias sendo idolatradas como revolucionárias, ideias comuns compartilhadas como inovadoras e geniais. Parece que defender o óbvio se tornou mais lucrativo que comprar um curitibano pelo preço que ele vale e vender pelo preço que ele acha que vale. Triste.
p.s.: Zé é um personagem fictício. Qualquer semelhança com a realidade é culpa sua, que anda lendo as pessoas erradas.