Ansiedade não é uma escolha

Eu vou tentar explicar como é a vida e a cabeça de um ansioso. Não alguém que “se acha” ansioso, nem alguém que “minha mãe sempre disse que eu sou ansioso”. Mas alguém REALMENTE ansioso, 24h por dia, alguém com transtorno de ansiedade de verdade. Funciona assim: imagina que é sexta-feira. Você acorda e recebe uma ligação da empresa que você fez entrevista ontem, para o emprego dos seus sonhos. Eles dizem que você foi bem e dizem que na segunda irão de ligar para dar a resposta. Horas depois, a mulher que você sempre deu em cima, sempre foi apaixonado, te manda uma mensagem te chamando pra sair, mas ela só pode na segunda-feira. Você fica esfuziante. No fim do dia seu pai liga, dizendo que um tio distante faleceu e deixou uma grana pra você, mas ele só vai saber quanto foi na segunda. Quase na hora de dormir você recebe um email do seu orientador do mestrado dizendo que tem boas notícias sobre a sua tese de final de curso, e que quer conversar com você na segunda. Imagina como você vai ficar no fim de semana, se você não for um monge budista. Pois bem, multiplique isso por mil. É assim que nós somos vinte e quatro horas por dia, inclusive dormindo.

A gente não precisa de motivo pra ficar ansioso, simplesmente porque “ficar ansioso” não existe. Para nós, “ficar” ansioso é como “ficar” vivo, ou “ficar” respirando. É inerente, não é uma opção. E é aí que entra, na minha opinião, o maior problema de um ansioso crônico: as pessoas acham que nós damos muita importância para tudo. Não damos, é só ansiedade. Você puxa assunto com uma garota e a chama para sair hoje. Ela não pode e diz que pode na sexta. Hoje é segunda, como bom ansioso, você sabe que esses cinco dias demorariam catorze anos para passar. Então você a chama para sair amanhã. Ela não pode. “Depois de amanhã?”. Não. “De madrugada”. Não e ela cansou de você. Mas ela acha que você é grudento, que você quer demais ficar com ela. Mas você não quer, você só está ansioso. Faria o mesmo com uma entrevista de emprego, reunião de negócios ou jantar com amigos.

Para um ansioso, qualquer evento que não aconteça hoje já vai demorar uma eternidade para chegar. Por mesmo uma noite é uma eternidade. E o dia vai se arrastar. E você ainda tem que almoçar, jantar, lanchar, dormir! Vai demorar séculos! Então você tenta desesperadamente adiantar aquilo, fazendo as pessoas acharem que você está dando muita importância para aquilo. Mas não está. É comum comigo, e faço aqui um mea culpa, as mulheres acharem que eu estou muito interessado. Mas geralmente eu não estou, é só a ansiedade de não marcar um encontro para dias depois, porque na minha cabeça, cada dia que antecede um evento posterior dura exatos treze meses. Não tem a ver com a importância daquilo, tem a ver com o fato de que a minha cabeça simplesmente não consegue conviver com a ideia que algo que eu quero não vai acontecer nos próximos minutos.

Isso se reflete também na impulsividade: se eu quero comprar alguma coisa, eu saio de casa a hora que for e compro, como se a minha vida dependesse daquilo. E geralmente, depois de comprado, fica aqui na minha casa fechado, até eu resolver abrir. Porque o importante não era TER aquele produto ou objeto, mas sanar a minha VONTADE de ter, e, como a ansiedade fala mais alto, essa vontade tem que ser sanada agora. Mesmo que eu compre um livro que eu só vou ler meses depois. Mesmo que a minha sala pareça um almoxarifado de bordel, cheia de caixas e caixas. Mesmo que eu tenha que dirigir por 40 quilômetros e atravessar a cidade para comprar aquela revista que eu vi em algum lugar, e que provavelmente, depois de comprar, eu vou enrolar e levar semanas para ler.

E aí as pessoas nos acusam de “perder o interesse” repentinamente. Nós não perdemos, nós só não tínhamos tanto assim. Não era muita vontade, era ansiedade. Às vezes é muita vontade, mas nem sempre. Até para nós é difícil entender e separar isso. Mas dificulta bastante o fato de ninguém entender e o fato de muitas pessoas tentarem “acalmar” a gente na marra. “Léo, vamos sair só semana que vem. Você precisa se acalmar”. Preciso, e não é você que vai conseguir isso na marra depois de 34 anos que eu sou assim.

Tentar acalmar um ansioso na marra é tão eficiente quanto trancar um cavalo agressivo na sua sala de estar e esperar que ele se acalme. Quando você abrir a porta, vai estar tudo quebrado: o cavalo e a sala. E provavelmente vai sobrar um coisa pra você. A pior maneira de lidar com um ansioso é minimizando a ansiedade dele. “Ah, tenta, não se entrega”. A gente não se entrega, a gente só luta contra isso há anos e sabemos que não é fácil assim. Ninguém tem a obrigação de entender isso, lógico, muito menos de aceitar. Mas é algo muito mais sério e difícil de lidar do que parece. E as pessoas tendem a subestimar a ansiedade, achar que temos alguma responsabilidade ou culpa nisso. É como dizer que alguém com dengue ou pneumonia tem culpa de estar assim. Você pode se cuidar, se medicar, tentar prevenir. Mas se curar não é tão simples assim. E acredite, ninguém mais do que nós mesmos queria que nós fôssemos assim. Nós perdemos amigos, mulheres, empregos, perdemos muita coisa por conta da ansiedade. Acredite de novo: se dependesse só de nós, a última coisa no mundo que nós íamos querer é ser assim. Acredite.

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