Saudade

A saudade talvez seja o sentimento mais democrático do mundo. Talvez não, com certeza é. O amor ainda nos deixa um pouco de escolha, podemos fugir enquanto a paixão não se transforma em amor e, assim, de certa maneira, escolhemos quem não vamos amar. O ódio, idem. Mas a saudade não, a saudade não depende de você. Ela bate e faz você sentir falta de uma pessoa, quer você queira ou não, o que quer que ela tenha te feito — ou você tenha feito a ela, vocês estando se falando ou não. A saudade vem e ignora todo o resto e vem, pé na porta.

Mas há saudades e saudades. Sentir saudade da pessoa que você ama sabendo que ela vai voltar é um alento. A saudade é mais leve porque sabe que uma hora ela vai ter fim. Sentir saudades de alguém que você não vai ver nunca mais, idem, porque não tem solução, e a saudade só pode fenecer. Mas o pior tipo de saudade é a saudade de alguém que você gosta mas que você não sabe o que vai acontecer. Você tá com saudade, provavelmente ela também, mas não existe aquela certeza da corrida na direção do outro, com pulo no colo e beijo. Você não sabe se ela vai bater na sua porta só de casaco, sem nada por baixo, e dizer que sentiu a sua falta. Não há nada que garanta que, depois de um tempo sem se ver e sem se falar, você possa bater na casa dela e avisar que ela tem meia hora pra arrumas as malas, e dizer que ela vai precisar de roupas de frio, porque vocês vão passar um fim de semana na serra, só vocês dois, e que, ah!, não é pra levar nem celular. Você não sabe se ela vai gostar ou não de receber duzentas rosas vermelhas com um diário onde cada dia desde que vocês não se falam tem escrito algo que o fez pensar nela, e um singelo bilhete escrito: “A gente ficou tempo demais longe um do outro antes de nos conhecermos. Chega, não?”

Essa incerteza mata. Ela pode, ao final, nem estar com saudade. Ela pode falar que te ama. Pode falar que sentiu falta mas que não quer um relacionamento. Você não sabe se ela já arrumou um cafuné melhor que o seu, uma massagem nos pés mais relaxante que a sua ou — que hipótese horrenda — um beijo mais cheio de carinho, tesão e paixão que o seu. Ela pode nem estar pensando em você, ou estar pensando em você o tempo todo. Você lembra dela a cada música, a cada filme, a cada respiração. Seus gatos a esperam na porta quando você entra sozinho. O lado dela na cama é frio e sem graça. Sem o TOC de arrumação dela a sua casa está mais bagunçada que lasanha na marmita. Mas e se a vida dela estiver melhor se você? E se ela estiver adorando viver sem o pelo dos seus gatos, sem a zona na sua casa e com uma cama inteira só pra ela? Bom, só te resta torcer para que ela perceba que a vida tem que imitar os filmes, e que depois de um longo e penoso distanciamento como esse, a única solução é ela correr na sua direção, pular no seu colo e te beijar. Depois, o resto se acerta.

“Quem vai te abraçar?
Me fala quem vai te socorrer
Quando chover e acabar a luz
Pra quem você vai correr?
E quem vai me levar
Entre as estrelas, quem vai fazer
Toda manhã me cobrir de luz?
Quem, além de você?

Ninguém tem razão, tenta me entender
E a gente é maior que qualquer razão”

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