THIRTEEN REASONS WHY E BALEIA AZUL: entre fatos e argumentos

Há pouco mais de duas semanas, uma amiga me indicou a leitura do livro Thirteen Reasons Why, no qual, a série derivada do livro estava se tornando um viral desde o seu lançamento no início de abril. Um pequeno detalhe disso, é que desde 2009, eu não conseguia ler um livro até o final e, após dois dias, eu tinha lido toda a história, inclusive a entrevista com o autor no final do livro. Para se ter uma ideia da dimensão disso, eu que sou fã de Harry Potter — desde que me entendo por gente — acabei comprando, no início do ano, o livro A Criança Amaldiçoada e, até hoje, não “consegui” concluir a leitura. Obrigado, Rayssa!

Após conhecer a história do livro, resolvi assistir a série devido à sua grande repercussão nas redes sociais. Ao término disso, fiquei pensando em muita coisa que nós, às vezes, deixamos passar por despercebido. Em 2011, quando eu ainda no ensino médio, um amigo — que foi um dos responsáveis por me ajudar na “minha carreira como DJ” — acabou se suicidando um dia antes de realizarmos uma festa, no qual, ele estava participando da organização. Naquela época, eu ficava pensando em quais motivos o levaram a cometer tal ato, sendo que nunca percebi qualquer problema com ele. Hoje em dia, ao relembrar de alguns fatos contados por pessoas próximas a ele, chego à conclusão que era apenas uma questão de tempo para que aquele trágico final viesse acontecer. Além disso, esse tipo de acontecimento me fez ver o quanto nós falhamos ao “ignorar”, no dia a dia, os problemas que algumas pessoas estão passando.

Mas por que mencionei esse acontecimento? A resposta é simples: os motivos retratados no best-seller e o que acontecimento com o meu amigo são mais frequentes do que imaginamos. Quando terminei de ler o livro, os dois primeiros aprendizados que eu tirei foram: (1) devemos entender que a vida das outras pessoas não é composta apenas pelos atos delas e, (2) não espere perder algo ou alguém para enxergar o que poderia ter sido feito antes. Infelizmente, nunca conseguiremos acertar todas, mas podemos tentar mudar a visão de como enxergamos a vida e os problemas vividos pelas pessoas.

E hoje, ainda refletindo sobre tudo isso, acabei assistindo o vídeo do youtuber Felipe Neto sobre a Baleia Azul, o jogo do suicídio. Esse vídeo em questão, é talvez, na minha opinião, o melhor vídeo que ele produziu até o momento e não é pelo o que ele aborda, mas sim pela repercussão e o impacto que ele vem causando até agora.

Baleia Azul — Jogo do Suicídio.

Para isso, basta analisar os comentários que o vídeo possui. Várias pessoas descreveram um pouco de sua história de vida, no qual, muitas das vezes, os pais, parentes e amigos jamais imaginam que elas estejam passando por aquilo. Alguns relatos talvez nem chegarão a ser lidos devido aos novos comentários que surgem diariamente. Abaixo, estão alguns desses relatos:

Alguns dos comentários de pessoas que assistiram o vídeo da Baleia Azul produzido pelo youtuber Felipe Neto.

Assim, o livro, a série e esse vídeo, juntamente com o seus comentários, nos possibilita fazer algumas reflexões das coisas que estão acontecendo conosco e no nosso convívio social.

A primeira reflexão a ser debatida, é se de fato, as pessoas estão preparadas para dialogar umas com as outras sobre todo o assunto citado até aqui. O livro, a série e os comentários do vídeo dão a entender que esse assunto ainda é um tema, onde, as pessoas possuem dificuldades tanto para se expressarem sobre o que elas estão passando, quanto para compreenderem o que as outras pessoas estão sentindo. Por exemplo, se a Hannah tivesse se expressado de uma maneira diferente acerca de tudo que ela vinha passando, será que a conversa com o Sr. Porter teria seguido o mesmo rumo? E se o Sr. Porter estivesse realmente preparado para lidar com o que ela estava lhe contando, ele teria realmente dito o que disse? E se o meu amigo em algum momento tivesse conversado abertamente com alguém sobre o que ele estava sentindo, será que teria feito o que fez?

A segunda reflexão é uma extensão da primeira e, também, do primeiro aprendizado: na série é possível ver a dor dos pais de Hannah por eles não terem notado que ela estava vivendo vários momentos difíceis. No decorrer da série, percebe-se que os pais dela estavam passando por um momento financeiro difícil, o que ocasionou em um “distanciamento” entre eles, mesmo com convivendo diariamente um com os outros. Já nos comentários do vídeo é possível ver relatos de pessoas que contaram o que elas estavam sentindo para os pais e/ou amigos, onde, eles simplesmente disseram que era uma “mera frescura”. Nesse caso, se Hannah tivesse contado aos pais dela o que estava acontecendo, será que eles iriam ignorar devido aos problemas que eles estavam passando? É possível dizer que faltou atenção do senhor e da senhora Baker por eles não terem percebido os sinais de comportamento de Hannah, uma vez que eles conviviam diariamente com ela?

Por fim, a terceira reflexão é em torno do livro, e consequentemente, da série. É fato que a história em Thirteen Reasons Why foi escrita mais para que as pessoas possam refletir sobre os “porquês” que levaram Hannah se suicidar, do que para ajudar pessoas com transtornos psicológicos depressivos. Os “porquês” nos fazem pensar sobre o nosso modo de agir para com as pessoas. Além disso, a série mostrou o quão intenso e difícil pode ser a fase da adolescência, independente da classe social no qual a pessoa está inserida. Entretanto, será que nós realmente temos conhecimento das consequências dos nossos atos? E por que geralmente, tendemos a ignorar o que fizemos mesmo sabendo que magoamos uma determinada pessoa?

Existem inúmeras possibilidades de resposta para os questionamentos de cada reflexão. De um modo geral, as perguntas e respostas levam a crer que não basta tentar perceber o que está acontecendo com as pessoas ao nosso redor. É preciso melhorar o nosso modo de expressar, seja se estamos passando por um momento difícil — onde achamos que os outros não irão entender — ou se estamos presenciando os problemas de alguém. Infelizmente, isso não é algo trivial que pode ser solucionado da noite para o dia, e, muitas das vezes, é quase impossível de apontar o melhor desfecho para ambos os lados. E, por mais que Thirteen Reasons Why seja uma história fictícia, é possível encontrar relações entre vários casos de suicídios reais, onde, muitos deles poderiam ter tido destinos diferentes, pois, a essência narrada no best-seller e na série, mostra uma realidade que ainda é ignorada por muitos de nós, pelo simples fato de “acharmos” que os transtornos depressivos não passam de uma “mera besteira”. Até quando iremos fechar os nossos olhos para esse tipo problema?

Texto produzido com a colaboração de Rayssa Leão.