E se for só um jogo?

É bem provável que você já tenha visto alguém vociferar a frase “Não é só um jogo!”.

Mesmo quem não gosta ou não acompanha futebol não está imune ao grito afirmativo que precisa ser vomitado para justificar as mais diversas situações relacionadas ao futebol: das superações que são inerentes ao esporte (completamente louváveis) aos marmanjos chorando copiosamente por outros 11 marmanjos muito bem pagos que ganharam um campeonato.

A essa altura já deve ter gente querendo me xingar, eu sei. Vão me dizer que futebol é paixão. Principalmente, no Brasil. Eu concordo. Futebol é só paixão. E esse é o problema. Será que não chegou a hora de colocar um pouco de razão, pelo bem do esporte?

Quando encontramos um amigo apaixonado, algumas situações podem irritar aos que estão ao redor daquele coração palpitante. Isso porque o assunto é sempre o mesmo: como foi bom passar a noite ao lado da pessoa amada assistindo aquela comédia romântica horrível, mas que o apaixonado considera um marco do relacionamento pois foi o primeiro filme que assistiram juntos. Sem falar na infinita lista de qualidades que a pessoa amada possui, em contraposição a uma lista nula de defeitos (mesmo que secretamente todos sabemos quais são).

Assim é um apaixonado por futebol que,como o seu amigo apaixonado, não está nem um pouco interessado em ter uma relação saudável com o sentimento de amor. O torcedor fanático também não mantém uma relação saudável com o futebol. Não é possível enxergar os defeitos daquele time. Não existem outras possibilidades além de amar o time que ele escolheu quase que aleatoriamente e mantém aquela paixão quase que por nostalgia. Não existe razão. Esse é o problema.

Assim como provavelmente aquele seu amigo apaixonado levaria uma dura dizendo que ele precisa colocar os pés no chão, também parece ser necessário fazê-lo com o cara das arquibancadas. Veja bem: em nenhuma das situações o conselho seria para deixar de amar, o conselho dado é que a paixão não pode ser o único sentimento existente.

Curiosamente, essa ideia surgiu na minha cabeça enquanto ouvia um podcast cujo assunto era o Rugby. Nele, haviam alguns jogadores e treinadores desse esporte que o tempo todo falavam sobre a filosofia dele. Eu, torcedor com a moral torta do futebol, pensei: “Dane-se a filosofia do Rugby. O negócio é jogar”. O problema foi o golpe que recebi poucos minutos depois quando um dos participantes soltou a frase que foi um carrinho na bola, mas que me deixou no chão sem nenhuma vontade de levantar:

“No Rugby, a gente valoriza o adversário. Afinal, sem o outro time não é possível jogar. Só existe jogo quando existe um adversário. E, se a gente gosta do jogo, temos que respeitar quem está lá com a gente pra fazer o jogo acontecer”

Pois é. Eu continuei no chão. Pedi substituição. Tive que ir pra ducha e repensar tudo sobre o esporte que eu mais amo (futebol, não rugby).

Foi nessa hora que eu entendi o que havia de errado com o futebol. Porque os estádios estão cada vez mais vazios, os times cada vez menos expressivos e as torcidas cada vez menos diversas.

O futebol brasileiro se entregou à paixão cega e não quer enxergar o abismo.

Futebol é, sim, só um jogo. Isso não diminui a importância do esporte. Como todas as competições esportivas, vai existir superação, emoção, choro, riso, derrotas e glórias. Mas só quando as arquibancadas estiverem unidas para assistir futebol. Enquanto cada torcida torcer pelo próprio time, o esporte fica em segundo plano e continua morrendo.

Enquanto o adversário for alvo de pedras, o jogo vai ficando pra depois.

Eu sei que esse é um apelo para o vento. É óbvio que o torcedor cego-apaixonado vai querer me xingar e gritar coisas como “morte ao futebol moderno!”.

Achando que estão salvando o futebol da morte, estão apenas sufocando-o. Não são estádios padrão FIFA ou as novas regras do jogo que vão matar o esporte. É o comportamento que vem das arquibancadas e fora delas.

Querem acabar com adversários achando que o último a sobrar será o grande vencedor. O problema é que se no final só existir escombros, não há vitória.

Que tal se for só um jogo?