O espantalho

Photo by Alex Blăjan on Unsplash

Numa terra ao oeste viviam milhares de pássaros. Diversas espécies em comunidade, contribuindo para o bem de todos. Um ambiente completo, calmo e equilibrado.

Depois de milhares de anos habitando aquele local, os pássaros desenvolveram uma comunidade quase perfeita. Havia boa hierarquia, divisão de tarefas e contribuição de todos.

Para que tudo funcionasse de verdade, os pássaros aprenderam a ter uma boa relação com a natureza. Aprenderam a fazer parte dela, retirando o que precisavam e devolvendo o que era de direito do ambiente.

Eles também cantavam bonitas canções que traziam paz àquela terra. Paz como nunca mais houve por essas bandas.


Um homem, vagando sem saber pra onde ia, apenas em busca de algo que lhe valesse a existência, chegou à terra onde viviam os pássaros.

Desacostumado a conviver com a harmonia, não viu valor no que havia ali. Mas viu que aquela terra poderia suprir às suas necessidades.

Soberbo e pouco compreensível, enxergou fragilidade. Decidiu que aquele lugar merecia um futuro mais afortunado.

Foi quando expulsou os pássaros de lá. Disse que aquela era uma terra prometida e deveria ser usada conforme seus desejos. Os poucos pássaros que ficaram, foram mortos ou escravizados.


A terra era realmente fértil e por bastante tempo rendeu muitos frutos. Ali brotou a fortuna do homem.

Enquanto isso, os pássaros viviam às margens daquele lugar, com muito pouco e em desarmonia. Tudo o que outrora havia sido construído por eles foi destruído por um lugar que não podiam chamar de lar.

Entretanto, haviam ainda as velhas histórias daqueles tempos cheios de glórias e felicidade.


Certo dia, os pássaros decidiram que iriam voltar ao seu lugar de origem. No meio de um povo falido, uma faísca de organização deu esperança aos jovens pássaros. E há muito tempo não cantavam como estavam cantando naquele dia.

Reconstruir um ambiente harmonioso era o desejo de cada um daqueles que sonhavam com uma vida melhor como antigamente.


Os pássaros atacaram as plantações, arrastaram o que puderam e destruíram o que havia de valor. Mas logo o homem apareceu e novamente conseguiu expulsar os pássaros de lá.

E sempre que os pássaros voltavam, o homem resistia e utilizava todos os seus recursos para defender a sua propriedade. Não media esforços para mandar embora os pássaros que ainda insistiam.

Depois de muitos ataques, o homem decidiu fazer um espantalho minimamente parecido com a sua imagem. Juntou palha, uma camiseta velha e o seu chapéu mais antigo.

Só assim os ataques cessaram e nenhum outro pássaro foi visto nas plantações. O homem finalmente pode viver em paz naquela terra.


Hoje, na terra cansada já não brota mais nada. A casa do homem já não serve mais de habitação. Só resta lá o espantalho em meio à destruição.

Amedrontados e distantes, os pássaros ainda esperam que aquele homem imóvel no meio da plantação vá embora para atacarem novamente. Enquanto isso, as canções vão sendo esquecidas e o canto é cada vez mais baixo.

E as memórias de antigamente são cada vez menos coloridas.