jogo da vida

Faz tempo que eu quero fugir. Ir para algum lugar bem alto e gritar com todas as forças que tenho dentro de mim. Gritar pelas decepções amorosas, pelo emprego perdido, pelas escolhas erradas e pela incerteza do futuro.

Eu sei que a vida é feita de altos e baixos, mas o que um dia esteve presente como uma fase, hoje já se instaurou e legitimou uma sensação ruim, de desespero e desassossego. Não sei como explicar que perdi a vontade de fazer tudo, de estudar tudo, de conhecer tudo e de tentar tudo.

A família feliz, os amigos do peito e a faculdade dos sonhos já não tem o mesmo valor. Tudo parece ser uma parte massacrante da vida, vestida de punição. O sorriso singelo esconde uma mentira itinerante, que tende a me convencer de que está tudo bem. As piadas diárias se travestem de bom humor matinal, quando na verdade são pedidos de socorro em forma de palavras bobinhas.

Ontem eu te vi no espelho, meu “eu” inteligente e sonhador, e perdi completamente o foco. Sinto sua falta. Mas parece que a angústia tomou uma forma física e não quer mais deixar você voltar. Não sei mais quem sou e menos ainda quem quero ser. Aquela ideia bonita de viver sem entender, sem amarras e com menos tensões se perdeu no meio das notícias ruins, do mal estar físico e mental, e da vontade de sumir. Confesso que não sei mais o que dizer. Também não sei o que fazer.

Não aguento mais acordar no meio da noite com medo. Não aguento mais chorar involuntariamente só de pensar no vazio que carrego comigo. Não aguento mais sentir que não tenho forças pra continuar. Não aguento mais ver o sangue escorrer das minhas mãos depois de socar a parede. Não aguento mais pensar que nada vale a pena e que estou fadado ao fracasso. Não aguento mais fingir que sei o que estou fazendo quando só quero encontrar uma luz. Não aguento mais ter crises de ansiedade e começar a divagar sobre coisas ruins. Não aguento mais ver tudo acontecendo na minha frente e não ter vontade de fazer algo pra mudar.

Não aguento mais jogar.