Nunca dei tchau pra minha vó

Subi ao terceiro andar da livraria, de onde tinha uma boa vista da loja toda. Fiquei vasculhando os muitos rostos que passavam, observavam as lombadas dos livros acumulados sobre as estantes ou mantinham os narizes colados sobre as páginas brancas.

Estava procurando por alguém. Talvez um grande amigo com quem tivesse perdido o contato ou uma ex-namorada que ainda topasse trocar uma palavrinha ou duas ou mesmo uma mulher que eu gostaria que tivesse sido uma ex, mas que nunca foi, provavelmente por falta de coragem da minha parte. Nesse último caso, a lista é longa.

Procurava alguém que pudesse me distrair um pouco do buraco em que estava, mas não tinha ninguém. Os rostos desconhecidos faziam aumentar ainda mais minha consciência do vazio em volta e, ainda que não fosse uma experiência exatamente ruim, estava bem longe de ser boa. Depois de um tempo, notei que estava em busca de um rosto específico. Procurava o rosto da minha vó.

Sempre me sinto meio mal de pensar na minha vó, porque nunca me despedi propriamente dela. Aliás, não sei de ninguém que tenha.

Lembro que ela foi definhando muito lentamente e, sem que eu percebesse, migrou de um estado em que nunca ia morrer pra um em que esteve sempre à beira da morte.

É triste que as pessoas não morram como nos filmes. Pelo certo, elas deviam estar lá, bem e conversando em um momento, e de repente caídas no chão com uma bala alojada no peito. Tudo que eu queria era ter esse instante, em que tudo esteve perfeito segundos antes, igual num comercial de margarina, e a pessoa prestes a morrer ainda era exatamente aquela da qual eu me lembrava, pra que ao menos eu pudesse dizer adeus, chorar, gritar, babar se fosse o caso. A perda como a dor de um soco na virilha, toda de uma vez. Não daquele jeitão anestesiado da vida, aos pouquinhos, a ponto de você nem perceber.

A única razão porque consigo me sentir tão mal enquanto vejo filmes ou leio livros é porque, sei lá, uma hora um cachorro está brincando e comendo objetos da casa e, dentro de vinte minutos, já aparece deitado numa sala de veterinário esperando a injeção letal. Essa é a beleza da coisa. Não aceito que tirem isso de mim.

Claro que tudo que se intromete entre a saúde plena e a morte é incrivelmente inútil. A perda de forças, a dor, a falta de memória, o avanço lento da inconsciência, ninguém precisa dessa porra. Quando entrei no quarto de hospital e minha vó disse que não sabia quem eu era, essa não foi a pior parte. Eu é que não reconhecia aquele rosto caído, idiotizado, os olhos perdidos, o corpo jogado indefeso em uma cama anônima. Justo minha vó, que era tão cheia de vida e preenchia cada canto de qualquer lugar onde estivesse.

Sabia que era ela porque tinham me contado, mas ao mesmo tempo estava certo de que tinha algum engano ali. Na hora, tudo em que eu conseguia pensar era que queria voltar pra casa pra jogar umas horinhas a mais de Mario Kart, e aquilo parecia que não acabava nunca. Pois é, as doenças lentas e prolongadas são isso mesmo, uma forma cruel de tirar de você até o prazer de se sentir na merda por causa de uma perda.

No velório da minha vó, precisei me esforçar pra extrair umas lágrimas ralas do fundo de uns olhos poeirentos, só pra que minha tia pudesse vir e dizer, sempre muito perspicaz: “tadinho, ele amava a vozinha”. Na hora, me pareceu um esforço terrível e incrivelmente desnecessário, com um único objetivo em mente: não passar pela vergonha de ser o único que não estava chorando no velório da vó. Devia mais era ter mandado aquele povo todo à merda.

Eu amava minha vó sim. Muito. Só que ninguém nunca te conta as coisas realmente importantes quando você é pequeno. Te ensinam a respeitar os mais velhos e falam que você tem que amar uma certa mulher porque um dia, uns 60 anos atrás, ela bebeu demais com o namorado, achou que seria legal transar na traseira de uma picape e pariu sua mãe nove meses depois. O tesão de alguns minutos transformou essa pessoa numa espécie de autoridade máxima na sua vida.

E aí você passa a amar essa mulher, em parte porque te disseram que tinha que amar, em parte por hábito. Porque é mais fácil amar logo de uma vez do que ficar se fazendo de difícil. Aliás, quando você é pequeno ainda nem tem muito bem essa opção, porque senão acaba dormindo de bunda quente.

Mas ninguém nunca te disse que essa mesma mulher pra quem você deu oi um dia, e que acabou amando meio na marra, vai se tornar outra totalmente desconhecida na hora de dizer tchau. Ninguém te contou que o rosto da sua vó nunca vai estar lá embaixo, não importa quanto tempo você olhe, mas nem por isso você vai deixar de procurar. Não, esse tipo de coisa ninguém nunca te diz, mas você acaba descobrindo por bem ou por mal. Quase sempre por mal.

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