Toda criança devia ter um caderninho de poesia

Um monte de nomes de música, trechos de música. Alguns errados, como Night by Night, que provavelmente queria dizer Fly by Night, do Rush. Big Mouth Strikes Again, Cocaine, Proud Mary, Paranoid, I Wanna Rock, Rock You Like a Hurricane, The Passenger, Listen to the Music, Sweet Dreams, Painkiller, American Jesus, House of the Rising Sun.

I left my babe and it feels so bad. Where did you come from, baby? I don’t wanna lose your love tonight.

Die, motherfucker, die. Like a madman laughing at the rain.

Trechos que eu ia ouvindo no carro da minha mãe e anotava pra baixar depois. Às vezes achava, às vezes não, e a música se perdia em algum lugar, pra aparecer meses ou anos mais tarde. Ou não.

Depois vêm as receitas. Nem eu sei explicar muito bem essa parte. Alguém me ensinando a fazer omelete, panqueca com recheio de carne moída, bolo de chocolate. Tem também uns desenhos pra ilustrar. Umas mãos saindo do nada, com sete dedos, quebrando ovo, botando óleo, mexendo. Tudo passo a passo e enumerado.

Certamente com algum propósito. Só não lembro qual era. Não sei fazer nenhuma dessas coisas, mas sei fazer arroz. Nunca consigo controlar quando vai ficar soltinho e quando vira papa, mas tudo bem, eu gosto dos dois jeitos. Também adoro panqueca e bolo de chocolate. Queria que as receitas tivessem me ajudado um pouquinho mais nisso.

Meu caderninho de poemas começa assim. Com músicas que eu escrevia pra baixar mais tarde e com três receitas ilustradas. Eu podia dizer que era engraçado começar com uma receita, porque era uma chave pra minha escrita. Uma receita de bolo, coloca a farinha, o fermento, o chocolate em tal e tal ordem, tal temperatura, tanto tempo no forno. Diria que sempre monto uma fórmula na cabeça antes de começar a escrever, como nas receitas. Seria fácil porque eu faria uma conexão entre as duas coisas.

O problema é que também seria uma mentira. A receita não tem nada a ver com nada. Só está aí porque eu não tinha nenhum papel por perto ou coisa assim. Estou cansado de ficar tentando fazer essas relações sem sentido só pras coisas fluírem melhor. Veja só, nem tudo flui, nem tudo se encaixa. A escrita não tem nada a ver com receita nenhuma. E pior que eu sei fazer panqueca.

Depois das receitas vem um poema que compara o amor com a guerra e que deve ter parecido o máximo naquela época. Não aguento mais que duas linhas, passo pra esquerda uma página inexplicavelmente em branco e chego em mais um de amor. Amor de corno. Doído, porque começo a ofender meu amor lá pra quarta estrofe. Esse até que dá pra ler mais que o anterior. Tem uns versos meio engraçados ali no meio.

Sua mãe deve ter gritado 
Depois de todo o esforço que fez 
E ver em que coisa feia tinha dado
Ela jamais engravidou outra vez

Não faço ideia de onde saiu isso, mas é curioso, não parece algo que eu escreveria.

Passo rápido um depoimento de Orkut em forma de poema, que é horrível demais pra conseguir olhar mais que um ou dois segundos. E aí a joia da coroa. O mais perto que cheguei de ser um astro de rock. Ou seja, bem longe.

Chamava Eu não sei.

O pessoal cantou no festival de música da escola. O refrão era assim:

Eu não sei o que está acontecendo
Eu não sei por que ninguém se aventura
Eu não sei por que estamos perdendo
Mas pra isso temos que achar a cura.

Ainda dá pra sentir a dificuldade que foi pra rimar aventura com cura.

Lembro que um cara qualquer chegou em mim e disse: “Crítica social, né? Muito bom, parece Legião.” Eu achei uma maravilha, porque crítica social era uma maravilha, Legião era uma maravilha. Dá pra notar a influência desse momento bizarro da minha vida nas páginas seguintes. Tinha começado a escrever músicas, e não poemas. Ainda dá pra escutar algumas delas enquanto vou lendo os versos. Achava que hoje já teria esquecido tudo.

O melhor de vidas inteiras não passa
Anos dourados são tingidos de vermelho
Desperdício e o mundo em ameaça
Transformam tudo em morte e desespero

Você não consegue ouvir o ritmo, mas eu consigo. É um rockzinho meio safado, meio Biquíni Cavadão. Meio aquele Carta aos Missionários, que nem é deles, mas ficou melhor com eles mesmo. Ninguém mais se deu ao trabalho de cantar essa, só eu. Depois daquele dia, a banda de amigos não musicou mais nenhum dos meus poemas. Mas não guardo ressentimentos, que fique claro.

Com o passar do tempo fui deixando de botar ritmo, o que não quer dizer que a coisa tenha melhorado. Tem poema sobre filosofia, tem apologia às drogas, tem poema que diz que o amor é uma merda, tem crítica social sobre como os homens maus estão acabando com o mundo.

Liberte as correntes 
Que me prendem a este chão tão imundo
De melancolia profunda
Salve-me desta paz indesejada
Que entra sem ser chamada
Dentro de tudo o que se passa

Desde criança, uma drama queen de primeira.

Lembro que costumava esconder esse caderninho de todo mundo. As pessoas achavam que eu fazia isso porque era tímido. Fazia charme pra menina de quem eu estava gostando, era nosso segredinho besta. Uma vez eu quis até mostrar o caderno e vi que era ela quem não queria ler. Só depois entendi que mostrar ia estragar a coisa toda.

Talvez eu já soubesse mesmo naquela época que o caderninho era uma merda. Tenho quase certeza que sabia. Mesmo assim guardei ele durante todos esses anos, no fundo de uma gaveta que quase nunca abro. Aliás, nem sei porque hoje, de todos os dias, decidi abrir.

A coisa toda me ajudou a entender de verdade porque tenho fugido de escrever poesia. É que eu sou muito ruim. A única vez que abri uma exceção foi na aula de escrita criativa uns meses atrás. Escrevi sobre como uma prostituta pegou meu pau por cima da calça no meio da rua e me chamou pra transar gostoso. Eu não quis, e ela falou que eu era bonitinho. Nada como um material promissor pra começar.

Agora, no meio de todas as páginas reviradas, acho um único poema que me parece mais ou menos interessante. Não lembrava nada dele. Chama Menino para a janta.

O menino cai no rio
E eu não sei o que fazer
Pois que nem a caipora
Pois que nem o curupira
Pois ninguém tem dó de mim

E foi tanta impaciência
Que tomei a providência
Pois que não é tão difícil
Pois que não é nenhum vício
Fui ali fumar capim

Quando estava bem chapado
Voltei logo lá pro lago
Onde tudo teve fim
Jacaré lambia a boca
E o chão era carmim

Nas duas últimas estrofes, o homem mata o jacaré e leva o bicho pra casa, com a criança que ele acaba de engolir no bucho. Considerando que acaba de fumar capim, dá pra pensar que não é um narrador assim tão confiável. Achei uma ideia divertida, que não consigo imaginar como sendo minha, ainda mais naquela época. Aliás, é engraçado, toda vez que eu gosto de alguma coisa que escrevi tenho dificuldade de me enxergar como autor dela. Não que o poema seja tão grande coisa também.

Vendo agora a dor que foi virar as páginas desse caderno e me forçar a ler cada linha, fico pensando que bom seria pra toda criança ter um caderninho de poesia. Pra vinte anos depois ela poder ler a coisa toda e sentir vergonha de si mesma. Porque o adulto precisa ter a oportunidade de visualizar, visualizar mesmo o quanto era idiota.

Isso ajuda a colocar tudo em perspectiva. Você vê que nunca foi tão bom quanto pensava que era, então não adianta ficar choramingando pelos cantos sobre o passado. No fim das contas, se hoje você se vendeu, foi uma mixaria, porque tinha bem pouco a oferecer.

Me veio à cabeça agora uma conversa recente com um amigo. Falei do quanto já escrevi porcarias e ele me disse que tudo que a gente escreve quando criança é ruim. Claro que ele está certo, a não ser, é claro, que você seja o Rimbaud. Enfim, por sorte não sou só eu. Essas companhias que encontro em meio à minha mediocridade sempre me consolam um pouquinho.

O negócio é que, mesmo sabendo que escrevia mal, e que talvez ainda escreva mal, você só tem consciência de verdade do quanto era ruim quando pega na folha de papel e vai entendendo pouco a pouco, linha por linha, palavra por palavra, o tamanho da merda que fez. E aí você começa a imaginar que talvez, dali a 15 anos, vai ler o que escreve agora e achar que é uma bela duma bosta.

Por um lado, talvez isso signifique que você está evoluindo com o passar do tempo. Mas não, é improvável. Na pior das hipóteses, você foi abençoado com a capacidade de reconhecer um trabalho medíocre, mas não com a de produzir algo que não o seja. A tortura mais desumana que consigo imaginar pra alguém que se acha escritor.

Enfim, a coisa toda de reencontrar a infância é um baque terrível. Alguns sobrevivem. Outros não. Eu ainda estou pra me decidir.

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