Futebol e cultura: por que viramos as costas para a América Latina?

LDU, do Equador, é campeã da Libertadores de 2008 sobre o Fluminense no Maracanã.

Futebol, em todos os sentidos, é um reflexo da cultura de uma sociedade ou de parte dela. Neste mês de fevereiro vamos começar a acompanhar o maior torneio de clubes do continente: a Libertadores da América. Ela, por si só, já é um resumo da geografia, história, cultura, política e economia das Américas. Temos equipes que jogam nas cordilheiras dos Andes e até no deserto do Atacama, temos times com nomes de poetas e até o próprio nome do torneio é uma homenagem histórica a todos os líderes que comandaram a luta pela independência dos países sul-americanos contra suas metrópoles europeias e colonizadoras. Vencer a Libertadores é como sobreviver às adversidades do continente sul-americano, com sua falta de estrutura e variações climáticas. E no meio de tudo isto está a paixão de seu povo pelo esporte. Além de todos estes pontos que interferem diretamente no futebol da região, há mais uma característica cultural que vemos ano após ano na Libertadores da América: o modo como o Brasil ignora e vira as costas para a América Latina.

Ao longo da história da Libertadores da América, não foram poucas as ocasiões em que times brasileiros — inquestionavelmente os mais ricos do continente — sofreram nas mãos de times mais modestos, foram eliminados, perderam títulos ou até venceram, mas a duras penas. Houve até o “trágico” dia 5 de maio de 2011, quando nada menos que quatro clubes brasileiros foram eliminados numa só noite de quarta-feira nas oitavas-de-final daquele ano. Cruzeiro, Fluminense, Internacional e Grêmio foram eliminados por Once Caldas, Libertad, Peñarol e Universidad Católica, respectivamente, deixando apenas o Santos como único representante brasileiro no torneio. E mesmo com Neymar, o clube paulista viria a ser campeão eliminando todos os seus adversários por apenas um gol de diferença.

River Plate vence o Cruzeiro por 3 a 0 no Mineirão e elimina os brasileiros da Libertadores 2015.

Mesmo com todo este histórico já citado, ano após ano a imprensa “especializada”, torcedores e muitas vezes até os próprios clubes se dizem favoritos ao título, apostando em goleadas jogo após jogo e demonstrando dificuldades para indicar outros favoritos. Até surgem frequentemente os “preconceitos” geográficos, quando o único tipo de análise que se ouve trata da “força dos times argentinos”, “a catimba uruguaia” e que a única dificuldade que times equatorianos e bolivianos podem gerar é a altitude de suas cidades - tudo isso sem citar um único jogador, técnico, histórico de partidas ou mesmo estilo de jogo que valeria a pena prestar atenção nos rivais destes países. Nas últimas 3 edições da Libertadores, por duas vezes tivemos uma equipe paraguaia na final e até a fatídica eliminação do Corinthians contra o Guarani, time mediano do país vizinho. Mas acredite: você sempre ouvirá alguém dizer que somos favoritos contra times paraguaios.

Internacional é eliminado pelo Tigres, do México, nas semifinais da Libertadores 2015.

Essa ilusão baseada em puro achismo, preconceito, preguiça e desinformação da imprensa já pôde ser visto nesta Libertadores de 2016. O São Paulo sabia desde dezembro que jogaria contra o Cesar Vallejo, do Peru, e mesmo depois de todo esse tempo e duas partidas contra a equipe adversária, alguns jogadores são-paulinos ainda saíram de campo justificando o placar apertado por desconhecerem o Cesar Vallejo. Todo ano é sempre a mesma coisa, todo ano surge alguma surpresa e nos perguntamos porque fomos eliminados por times teoricamente (e preconceituosamente avaliados como) mais fracos.

Tal ignorância sobre a cultura e o esporte latino faz com que o mercado brasileiro, mesmo sendo mais forte, perca grandes negócios e deixe de revelar ao mundo futuros astros do futebol mundial. O Brasil, que deveria ser uma ponte para atletas colombianos, chilenos, argentinos e cia para a Europa, se surpreende quando estes têm bons desempenhos em Copas do Mundo ou até diretamente na Champions League europeia. Por que James Rodrigues foi direto do Banfield para a Europa? Por que Falcao Garcia foi direto do River Plate para a Europa? E isso acontece com muitos outros!

Após diretor do clube dizer que era “uma benção de Deus enfrentar o Guarani”, Corinthians é eliminado pelo time paraguaio.

Por que sabemos como o Leicester e o Southampton jogam e não sabemos como os nossos adversários da Libertadores jogam? Por que grande parte da imprensa já fez uma devassa na biografia de origem humilde de Vardy, revelação do Leicester nesta temporada, enquanto Centurión foi contratado pelo São Paulo sem que o próprio clube tivesse certeza de ao menos em qual posição o ex-ponteiro do Racing jogava? Por que emissoras de televisão compram direitos de transmissão de campeonatos russos, ucranianos e até cogitam comprar o chinesão, mas ninguém nem menciona a possibilidade de transmitir o campeonato chileno, colombiano ou ao menos dar uma atenção justa ao argentino?

A resposta para todas estas perguntas é apenas uma: a imprensa. Nada mudará enquanto a imprensa não mudar seu foco de cobertura. Se ela encontra gancho jornalístico para gerar interesse em sua audiência para transmitir campeonatos como o ucraniano, holandês, russo e até outros esportes com número de praticantes ínfimos no Brasil, ela também tem capacidade (e motivos de sobra) para encontrar estes mesmos atrativos em jogos de clubes que enfrentamos todos os anos nos torneios sul-americanos.

Enquanto uma reunião entre chefes de Israel e Palestina merecer mais tempo no noticiário do que a crise humanitária na Venezuela; enquanto soubermos tudo sobre Dostoiévski e não conseguirmos citar um único livro de Mário Vargas Llosa; enquanto conseguirmos escalar de cabeça o Manchester City e não soubermos o nome do goleiro do Boca Juniors; enquanto continuarmos a pronunciar nomes como “Cesar Vallejo” com tom de desdém sem saber que é o nome de um poeta, continuaremos nos perguntando: “Por que fomos eliminados?”. A resposta é simples: porque viramos as costas para a América Latina.