Neymar, a F1 e a construção de público fiel a um torneio esportivo

Leo Morato
Aug 25, 2017 · 4 min read
Repórter in loco para a cobertura da estreia de Neymar, contra o Guimgamp.

Neymar trocou de clube e de campeonato na maior transação da história do futebol mundial (até agora). Isso todos já sabemos. Mas quem acompanha mais de perto o futebol, tanto o europeu quanto o brasileiro, já reparou que todos os veículos de comunicação ligados à Rede Globo — e seu quadro de jornalistas em seus perfis pessoais nas redes sociais — não param de falar de Neymar. Desde a bolinha pulando na tela anunciando gol do PSG no meio de uma transmissão do Brasileirão, até um “abre o jogo” de 1 hora no SporTV para um jogo de 4ª rodada do campeonato francês entre o novo clube do atacante brasileiro contra o mediano (para os padrões da França) Saint-Etienne.

Basta dar uma leve olhada em páginas de futebol pelas redes sociais e você perceberá que esse exagero já virou piada. A linguagem usada chega a dar a entender que Neymar entra em campo sozinho. Não importa que o PSG tenha Lucas Moura, Cavani, Daniel Alves, Di Maria ou Thiago Silva, chamado por muitos de “o melhor zagueiro do mundo” . Neymar, segundo a divulgação feita para o campeonato francês, é o único assunto que interessa e o resto… é o resto.

Neymar vai jogar sozinho? Quem é o adversário? Qual o contexto do jogo?

Quem sou eu para “ensinar” a Globo ou o SporTV a vender um produto deles. Mas já vimos este erro anteriormente. Em outra modalidade. O discurso utilizado para promover a Fórmula 1 no Brasil teve como “único” atrativo para o público a presença de brasileiros. Isso aconteceu durante décadas! Desde a estreia da categoria na Rede Globo, em 1972, até a derrocada de audiência das corridas transmitidas pela emissora, que culminou na transmissão de VTs e repasse de transmissões ao vivo para o SporTV, em meados da década de 2010. O público médio de Fórmula 1 no Brasil foi “educado” a torcer para os pilotos brasileiros e não a conhecer e se interessar pela disputa em geral.

Falta de construção de relação do público com o torneio em geral afundou audiência da F1 no Brasil.

Não vamos entrar na discussão se a Ligue 1 é boa ou não, se é melhor ou pior que outros campeonatos europeus ou o próprio Brasileirão. Qualquer produto é vendável. Atratividade se cria com discurso e interesse se constrói ao longo do tempo. Isso vale para qualquer torneio. Qualquer MESMO. É só valorizar o produto e ter estratégia de médio/longo prazo. É isso que a ESPN fez ao longo das últimas quase 2 décadas com o futebol europeu e com a NBA. Não importa quem esteja em campo ou em quadra, o público tem relação estabelecida com o torneio e não com personagens individuais.

Se você já passou dos 30 anos, como eu, responda rápido: quem no Brasil “torcia” para um clube europeu ou dizia “meu Barça” nos anos 90? Isso é resultado não só da construção de esquadrões, mas também da transmissão massiva de jogos de clubes europeus para o Brasil. E sempre com um discurso promotor, gerando emoção e valorização do evento. Fator, inclusive, que falta muito às transmissões e promoção do futebol no Brasil e América do Sul.

Quem sou eu para supôr algo ou apontar dedos. Mas que é estranho o excesso de promoção da imagem de Neymar e até dos seus canais de comunicação (o site do atacante tem um link destacado no menu principal da home do GloboEsporte.com), isso é. Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho, Rivaldo, Roberto Carlos, Romário, Kaká e nenhum outro jogador brasileiro que teve destaque ou chegou a concorrer ao prêmio de melhor do mundo nos últimos 20 anos teve o espaço que Neymar tem hoje. E ainda é questionável apontar que ele é melhor que todos os nomes desta lista.

Quem se importa com Cavani, Daniel Alves, Thiago Silva, Lucas Moura, Di Maria…?

É uma parceria comercial entre o staff do atleta e os veículos de comunicação? Pode ser. Se é, está levando estes veículos a cometerem um erro de médio/longo prazo: quando ele desfalcar o PSG por qualquer motivo que seja, qual será o atrativo construído na cabeça da audiência para continuar acompanhando os jogos? Quando ele deixar o clube para jogar em outro país, mesmo que isso ocorra apenas daqui 4 ou 5 anos, o que restará do produto campeonato francês nas mãos das emissoras que detém os direitos de transmissão?

Por mais que este foco excessivo em Neymar resulte numa audiência imediata para o campeonato francês, em breve isso pode virar um problema. A Ligue 1 pode ser a nova Fórmula 1 da televisão brasileira.

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    Jornalista de formação, Social Media por forças do destino… O @oleomoratoc no Twitter

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