O que eles querem?

Alerta: este texto não tem respostas. Apenas dúvidas. Muitas dúvidas.

Um dos principais filmes de 2016 - e indicado ao Oscar 2017 - conta a história de alienígenas que chegam à Terra e tentam se comunicar com os seres humanos. O que fazemos? Parte da humanidade quer explodir eles. Uma minoria, representada por uma linguista, quer entender suas mensagens, aprender sua língua e se comunicar com os ETs pare resolver aquela situação. De qual lado você estaria? Como você lidaria com esta situação? Como você lida com os seus problemas?

Parece um raciocínio básico, mas nem sempre é tão simples coloca-lo em prática. Para solucionar um problema, precisamos entende-lo. Para procurar entender algo, o primeiro passo é reconhecermos que não temos este conhecimento. Por fim, para reconhecer que não se conhece algo, é preciso ter um pouco de humildade.

Pare e pense por alguns segundos: dentro da sua (alerta de termos da moda) bolha social, quantas pessoas você conhece que gostam, entendem ou até fazem pichações? Poucas, né? Mesmo se tratando de uma cultura supostamente periférica, originária e presente principalmente em grandes centros urbanos, a pichação não é algo simples de se compreender. É esteticamente complexa, intencionalmente transgressora e, por isso, gera pouca ou nenhuma empatia/interesse da grande maioria da sociedade. Resumindo: a pichação é um “problema” das grandes cidades e nem entendemos por quê ela existe.

Eu, sinceramente, não entendo e não me atraio por pichações. E se você chegou até aqui e ainda não pensou “porque pichador é tudo vagabundo”, “por que você não dá o muro da sua casa para o pichador rabiscar?”, “tá com dó, leva pra casa” ou coisa parecida, já temos uma grande vitória. Siga em frente. Vamos retomar o raciocínio: Como vamos solucionar um problema que nem entendemos por quê ele ocorre?

O prefeito de São Paulo, João Dória Jr, trouxe uma solução: vamos pintar tudo de cinza e dar a opção aos pichadores para que virem grafiteiros. É notório que muitos dos grafiteiros começaram como pichadores ou até o praticam mesmo seguindo o caminho do grafite. Mas será mesmo que o pichador é só um “estagiário” ou “trainee” de grafiteiro? Como bem debatido no podcast Mamilos de nº 97, o picho poderia ser usado como alerta e índice de desenvolvimento social, como referencial de ausência/ineficiência do Estado. Afinal, é um dos primeiros sinais de degradação de uma região urbana. Se há pichação, temos um problema social ali que é infinitamente maior do que uma parede rabiscada.

Dória afirmou que o tipo de arte urbana que gostaria de ver nas ruas de São Paulo seria algo como a de Wynwood, bairro de Miami, na Flórida. Quais os tipos de problemas sociais que a cidade de Miami possui e que se refletem no picho e nos seus grafites? Quais os tipos de problemas sociais que a cidade de São Paulo possui e que se refletem no picho e nos seus grafites? As duas cidades, suas culturas, suas periferias e seus dilemas sociais são parecidos?

Dória declarou publicamente que “Todos os pichadores são bandidos” e saiu pintando parte da cidade (a que atrai mais os olhares da imprensa e da classe média) de cinza. Esta é a solução? Para muitos parece óbvio que não. E mesmo para quem apoia totalmente estas medidas, sabe que o mínimo que se precisa para “acabar” com a pichação é uma palavrinha que só tem efeito a longo prazo: Educação. Ou seja, gostando ou não, concordando ou não, todos nós podemos concluir que jogar tinta sobre um muro para cobrir uns rabiscos não vai mudar as atitudes, os anseios e a visão de mundo de um pichador. É o famoso(alerta de termos da moda) “enxugar gelo”.

Como vamos acabar - ou ao menos diminuir - as pichações em grandes cidades como São Paulo se não entendermos por quê elas existem e o quê seus autores querem dizer? Acredito que podemos concluir que: pintar o muro de cinza is the new jogar para debaixo do tapete.

Dória não levantou apenas o debate sobre “o que é arte?” ou “qual a diferença entre pichação e grafite?”. As atitudes de João Dória levantam uma questão bem mais profunda: como você lida com os seus problemas? Você explodiria as naves dos alienígenas ou tentaria entender o que eles querem?