Por que eu abandonei o Jornalismo?

Leo Morato
Sep 3, 2015 · 4 min read

A Europa vive uma das maiores crises migratórias das últimas décadas. Para noticiar tal fato o UOL publicou - com destaque em sua home — a foto de uma criança refugiada morta, após se afogar tentando atravessar o mar Mediterrâneo indo em direção à Grécia. As acusações de sensacionalismo e de práticas “caça-clique” foram tantas nas redes sociais que o portal emitiu uma nota se explicando.

Intitulada “Por que publicamos a imagem do menino sírio afogado?”, o texto compara o ato dos editores do UOL a uma das imagens mais famosas da história do Jornalismo: a foto de uma menina vietnamita correndo nua, fugindo da explosão de uma bomba americana, durante a Guerra do Vietnã. “Imagens influenciam o curso da história. A foto (…) fortaleceu o movimento antiguerra”, diz a nota.

Desde criança eu lia jornais diariamente e sonhava ser Jornalista. Fiz jornalismo no Mackenzie até os 14 minutos do segundo tempo da prorrogação. Eu sou Jornalista, mas sem o famigerado e desvalorizado diploma. Fiz todo o curso e não apresentei meu TCC por ter entrado numa grande crise existencial após ter entrado no mercado jornalístico.

Um mercado absurdamente concorrido, com condições de trabalho péssimas e salários ridículos. Tudo isso num mar de egos inflados e com não raros casos de desrespeito profissional e falta de ética. Passei por diversas redações de jornais impressos, como o Valor Econômico, e portais de esporte e tecnologia. O tempo foi me mostrando que aquilo não era pra mim, aquele ambiente não tinha nada a ver comigo.

As oportunidades que me foram aparecendo me levaram a trabalhar como Redator e com Marketing Digital. Hoje, longe de ter me consolidado financeira e profissionalmente, sou MUITO feliz com o que faço e com os ambientes profissionais que frequento. E não tenho a mínima vontade de voltar a trabalhar na imprensa.

Dia desses me surgiu uma oportunidade. Graças a uma indicação (que sou muito grato), fui chamado para participar de um processo seletivo para trabalhar na área de Social Media do UOL. “Sensacional!”, pensei. Juntaria duas coisas que amo: Jornalismo e redes sociais. Após 4 anos sem pisar numa redação e 8 anos após a crise existencial, que me fez reconsiderar a decisão de levar o Jornalismo como carreira para o resto da vida, lá estava eu de novo numa grande redação.

A sensação foi terrível. Com um ambiente que lembrava uma redação antiga (no melhor estilo “Todos Os Homens do Presidente”) e lotada de jovens jornalistas (provavelmente por questões financeiras comuns às empresas de comunicação), respondi a uma longa prova escrita e de múltipla escolha.

A grande maioria das perguntas se concentravam num único objetivo: saber se você é um bom caça-cliques. Me eram apresentadas uma série de manchetes reais publicadas no UOL, boa parte delas bastante apelativas, e eu teria que advinhar qual delas rendeu mais cliques ao portal. O mesmo exercício “intelectual” se repetiu por diversas vezes. Ao final do teste, uma última atividade peculiar: acessar o Twitter do boxeador Floyd Mayweather e do Senador e ex-jogador de futebol Romário e extrair dalí duas notícias - de dois parágrafos cada uma - utilizando como fonte única e exclusiva os tuítes dos dois esportistas.

Como um portal pode negar ter como único objetivo angariar cliques em suas páginas se seleciona um profissional aplicando um longo teste - de pouco mais de 2 horas de duração - focado apenas em saber se o sujeito alí é um bom caçador de cliques e pageviews? Como pode negar isso e ainda se comparar a um dos maiores trabalhos de foto-jornalismo da história?

Jornalismo não é uma profissão, é um estado de espírito. É uma filosofia baseada num conjunto de regras, processos e boas práticas que devem resultar em informação. A audiência é a consequência da credibilidade que se constrói baseado nesta filosofia.

Trabalhando com Marketing Digital, já produzi textos e conteúdos para bancos, políticos e marcas de diversos ramos. Nestas ocasiões, eu nunca precisei mentir. Pelo contrário. As equipes pelas quais passei sempre utilizaram da filosofia de não fugir da verdade e de explicar possíveis falhas e erros de seus clientes com a maior sinceridade possível, sempre buscando transmitir… credibilidade. Sim, ela.

Veja bem que em nenhum momento deste (longo) texto eu critico a publicação da foto do garotinho afogado. Mas o UOL — e praticamente toda a imprensa — lutam tanto pela salvação da população síria quanto veganos lutam por um lugar na fila do Outback. Utilizar o nome da filosofia jornalística para acobertar seu real modelo de negócio é o que vem matando a relação da sociedade com a imprensa.

Sem credibilidade não há Jornalismo. E não há credibilidade sem trabalho árduo e jogo limpo com a sociedade. Essa credibilidade é construída tijolo por tijolo e um desses pequenos tijolos podem ser simples frases e posicionamentos como “há imagens muito mais chocantes no dia a dia das nossas periferias”. Omitir seu real posicionamento ou disfarça-lo de “prestação de serviço à sociedade” é jogar uma grande bola de ferro contra sua parede de tijolos.

Graças a atitudes como estas que as massas se viram contra a imprensa. E isto se reflete em estudos como este, publicado pelo próprio UOL, que mostram que a população confia muito mais nas Igrejas e nas Forças Armadas do que na imprensa.

Eu não quero fazer parte deste tipo de prática que domina cada dia mais os veículos do Brasil e do mundo. Eu não sou da imprensa, não tenho diploma e não quero trabalhar para empresas que matam pouco a pouco o ofício que sonhei desde criança em exercer.

Dizer isso pode me fechar algumas portas no futuro. Mas fechar portas para o que vai contra a sua ética é um dos preceitos do Jornalismo. Eu não abandonei o Jornalismo. Não se abandona uma filosofia de vida. Apenas não tenho interesse por esta imprensa. Assim como esta imprensa não tem interesse pelo garotinho sírio. Apenas por seu cadáver, que pode resultar em alguns bons cliques...

Leo Morato

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