terça
fiquei um tempo vendo a rua pela janela do quarto, aquelas pessoas lá embaixo, era tarde ensolarada e uma garota atravessava a rua com os passos alertas, o celular na mão, ela andava como se tivesse diante de si a certeza de que nada mais poderia alterar a ordem das coisas, tudo tão inevitável, e o peso disso pairando sobre sua cabeça, capitulando a ocasião para sucumbir talvez num tropeço em si mesma, buracos no caminho à espreita, apenas a um passo diante de perceber que o caminho a se fazer então era outro, além do horizonte das coisas já conformadas dentro da gente, mas tão envolvidas entre cuidados com a própria forma cotidiana, e mapas de revistas astrológicas ou manuais psiquiátricos que abalizam figuras daquilo que até acreditamos ser autoconhecimento, uma imagem de nós mesmos traçada com a precisão de uma grande mentira capaz de suplantar a forma traumática dos adeuses, a promessa do paraíso astral, alinhamento de planetas, ou ainda convencer-se durante a sessão de análise que há uma saída para todas as coisas, porque no fundo talvez todos sintam essa mesma perplexidade diante da realidade em volta. não sei. eu vou considerando isso um pouco mais toda vez que encontro alguém, embora eu nunca tenha certeza do que fazer depois. era tarde e a garota atravessava a rua e tudo o que eu via nisso era mais uma presunção minha — quando as coisas chegam a esse ponto só me resta calar um pouco, num silêncio cúmplice, porque às vezes não há uma resposta nem palavras adequadas, mas apenas abarcar o mistério das coisas mesmo. o assombro que é a nossa presença diante do outro. essa imagem que projetamos de nós para o outro. aquilo que pensamos ser o outro. eu vou ficando um pouco só dentro dos limites do meu quarto. [mas talvez a solidão não seja calar-se apenas. você já viu como é uma conversa no whatsapp? ninguém se ouve de verdade, e despedir-se se tornou tão constrangedor. que droga. mas também ninguém se ouve de verdade em lugar algum, tem sempre um ruido anterior, uma fofoca na mesa ao lado, uma tv ligada, barulho de criança pedindo colo. filhos. amantes. déficit de atenção. outra notificação no celular. as palavras sobrepondo todos os nossos deslizes. as palavras movendo a roda do tempo. as palavras se confundindo na minha cabeça me levam a dizer coisas irreconhecíveis. erro a sintaxe. mordo a língua. perco os sentidos. essa exigência quase imanente do sobressalto, e qualquer desatenção pode ser levar um tombo no meio da rua tão somente pela experiência contida no instante anterior à queda que se lança, para enfim ver essa forma estranha de nós mesmos ruir, entrar em perspectiva com o real, aí quem sabe então praticar a terapia das nuvens, deixar-me levar por elas, a uma visita guiada por essa instalação de lembranças irreparáveis em que o artista recompõe com suas peças a atmosfera de uma adolescência autodestrutiva, assim elas deixariam de ser apenas lembranças para se tornarem portanto a experiência através do olhar do espectador? pode ser bastante catártico. algumas coisas são tão circulares na minha vida.]
“begged the thunderbolts to strike and mark me as aliiiiiiive”