Sobre Cortar Cebolas

Tornou-se uma tradição. Meu rei abria as portas de seu apartamento para celebrar seu aniversário e o início do ano letivo, a volta às aulas. Dogada. A lembrança não permite inferir a qualidade das salsichas que os primeiro-anistas eram capazes de escolher. Mas não havia problema qualquer nisso.

O molho de tomate tinha bastante pepino e cebola. Por ser uma turma de engenharia havia sido consenso que mulher alguma poderia pisar na cozinha. Ficou sob responsabilidade minha e do Giuliano lidar com as muitas cebolas.

A quantidade e sua inerente característica permitiram uma encenação jocosa da lamúria das tristezas recentes. Sentir o amor platônico da atraente monitora de disciplina, das notas de cálculo numérico, o desastre da primeira semana de provas e falta de qualquer contato com pessoas diferentes. Assim seguiu. Era muito mais fácil brincar com isso do que revelar o que realmente se passava.

Não nos era permitida qualquer insatisfação. Nosso andar cabisbaixo não refletia os dizeres de parabéns que ouvíamos durante o ano inteiro fora da bolha universitária. Éramos tidos como brilhantes. Sequer sabíamos como nos sentir bem frente àquilo tudo.

Sim! Era o lugar que queríamos estar. E que muitos também gostariam. É claro que sabíamos disso e dávamos o devido valor. E não, foram poucos os forçados a tomar tal escolha. Não era indecisão. Ainda sim, todas essas coisas não impediam o fato de o que conhecemos como satisfação ou felicidade andavam bem longe dali. E, pior, longe daqueles que por ali andavam.

Havia alguma sombria alegria em alertar, em forma de terror, aos recém-chegados que aquele lugar era agradável… “nas férias”. Que era muito mais difícil e que no terceiro ano a coisa sim iria pegar. “Vocês não viram nada!” É normal levar 6 anos! Isso deveria ser algum motivo de orgulho?

Éramos privilegiados e assim fizeram questão de reforçar com a ênfase daqueles que acreditam que estão auxiliando no processo, mas que se esqueceram de que poderia existir algum outro efeito. Era mais uma pressão. Não bastaria a transição para viver essa nova escolha. Ainda sim tínhamos que esboçar sorrisos e agradecer todo dia, sem sequer permitir deixar sentir outra coisa senão gratidão. Especialmente à sociedade por confiar recursos ao ensino superior.

Há quem fosse de fora e torcesse o nariz exatamente por essa razão. Certamente não ajudava, mas criava um senso de comunidade. Muito mais fraco do que se fazia necessário para enfrentar a transição e todas essas cobranças do que se dizia ser o melhor momento da vida de um estudante. Mas não era permitido sentir outra coisa. Não se podia estar triste, abatido ou desanimado. Era necessário ser responsável, respirar fundo e aguardar algum tipo de revelação, ainda que tardia.

Ao menos já sabia, bem lá atrás, que usar esperança como amuleto ajuda a prosseguir. A vida adulta não permite essa ingenuidade, de uma divina providência proporcionar subitamente percepções distintas, repentinas, a partir do mesmo entorno. Para algum tipo de satisfação, alegria ou sentir-se pleno era e ainda é preciso muito, muito mais. Pode-se começar com que se deseja, intimamente, ao fechar da porta, ao apagar a luz. Talvez seja capaz de existir alguma voz real e não o eco de tantas afirmações externas. Não é uma questão de se adaptar. É de, enfim, ser.