Uma Solução

Creio ter sido no final de 2009. Meu avô sempre soube nos “ler” como ninguém outra pessoa que conheci, sempre fazendo as perguntas que não gostaríamos de responder. Morava em uma cidade do interior e conversava com minha mãe aos domingos. Certa vez me perguntou se eu estava tocando violão… naquela semana havia deixado cair o próprio, lascando boa parte do verniz.

Ah… sim! 2009, natal. Era manhã, com filhos e netos reunidos disse em alto e bom som:

- A oficina é do Leonardo.

Não houve objeção.

A tal oficina era o lugar onde meu vô permanecia boa parte do final de semana. Lugar onde pendurou, com orgulho, uma placa com seu nome por extenso: doutor, advogado. Suas ferramentas para madeira, inúmeros formões, plainas, brocas e furadeiras manuais. E aquele santuário, pulando uma geração, pertenceria a mim.

Deixou-nos em 2010. Com toda a dor de pensar no assunto havia esquecido dessa declaração. Somente um bom tempo depois essas coisas todas rumariam para o sítio perto de São Paulo. Ficariam fechadas por mais de ano, até que um lugar fosse destinado para esse fim, uma nova oficina. E se a lua, o sol e mais um monte de planetas orbitam tendo a via láctea como fundo, bagunçando nossa vida, quem seria eu para notar que não conseguia pensar em adentrar o recinto?

Decidi que precisava saber o que tinha. Era necessário rever cada pedaço de metal, que estampavam U.S.A., Alemanha e Polônia. Algumas com mais de 50 anos. Os óculos de grau. Esses, sem dúvida, os mais duros. Notei que precisava cuidar daquilo que me havia sido confiado. Um feriado em 2015 e comecei a organizar. “Vou construir um móvel.”

Tarefa hercúlea. Não encaixava, não tinha fim. Terminei e logo deixei a oficina de lado por um tempo. Mais recentemente voltei a cuidar do que estava emperrado, daquilo que não havia sido tocado, tentando deixar as ferramentas em seu esplendor de outrora.

Eu só não sabia que seria o meu novo refúgio. Que toda a dor podia ser esculpida em madeira. Que num pensamento errado martela-se o dedo. E é preciso ter paciência. Mais do que se espera.

Ele sabia o que estava fazendo. Deu-me a guarda de tudo aquilo para que eu pudesse finalmente construir… tudo. Notar que as ideias podiam se tornar concretas, mesmo depois de tanta tristeza e frustração. Um mundo poderia ser construído… de verdade. Mesmo depois de tudo ruído.

Mas, meu vô era sábio.

Principalmente depois de tudo ruído.

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