Antônio

Antônio era consultor contábil de uma empresa que não suportava. Odiava sua aparência, odiava seus móveis padronizados, odiava o cinza de seu entorno. Odiava principalmente o cargo de consultor contábil. Se sentia como um quadrado, um solido sem emoções, e de preferência cinza. Era casado com Maria Claudia. Mulher que não suportava. Não suportava a sua voz estridente, seu perfume de kiwi e principalmente seu péssimo hábito de manter diálogos focados só e apenas em seu “eu”. Transavam quinzenalmente por puro costume. Maria Claudia dizia que aquilo era coisa que os casados deviam fazer, tal como dizia a revista. Antônio não contestava. Assim era a rotina de Antônio, um revezamento eterno entre o cubículo de seu escritório apertado, e a presença insuportável de Maria Claudia, a mulher do perfume de kiwi.

O casamento já durava dez anos, e a vida de consultor já passava dos quinze. Apesar do desgosto, Antônio pouco refletia sobre a sua vida. Não cogitava grandes mudanças. Era um sujeito conformado com a sua condição. Analista contábil casado com Maria Claudia.

Este era Antônio por definição.

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