O Julgamento de N.

O tribunal da cidade estava agitado naquela tarde. Todos aguardavam ansiosamente o julgamento do poderoso político N., 45 anos, gordo, acusado de lavagem de dinheiro, tráfico de influência e corrupção ativa.

Na plateia era perceptível um ar de desprezo em relação a N. Cochichos e olhares estavam por todos os lados. Uma velha senhora na primeira fileira, de voz anasalada, parecia furiosa e despejava insultos ao réu.

O juiz da sessão, um senhor curvado de sobrancelhas espessas, esboçava um ar de satisfação e ajeitava-se em sua confortável cadeira de couro com ansiedade. Finalmente mandaria aquele ladrão, mal caráter, corrupto para a cadeia, finalmente!

Rapidamente demonstrou que N era culpado, as provas eram claras e inquestionáveis. “Hora da defesa se posicionar…” disse o juiz, beirando o deboche. O advogado do político então levantou-se, o sujeito logo chamou a atenção do público pela sua elegância; cabelos negros bem penteados e um belo terno. Suas primeiras palavras foram estarrecedoras… Havia algo de especial em sua fala que envolvia a plateia como em um concerto, mal pronunciou quatro frases e já se escutavam suspiros! Passados alguns minutos uma senhora pálida teve de ser retirada da sessão, estava tomada de emoção.

- Parafraseando o grande Baudelaire “Existem manhãs em que abrimos a janela, e temos a impressão de que o dia está nos esperando.” Quando acordei nesta bela manhã de primavera… sabia que tinha a missão de salvar esse homem ao meu lado, um verdadeiro pai de família, vítima de acusações pífias! Oh, senhores do júri, pessoas de bem, um homem honesto não merece tal lastima!

Soluços foram ouvidos. Um jovem na segunda fileira tentava conter o pranto. O advogado falava de poesia, de amor, do sentido da vida! Nenhum fato real era dito…

O juiz da sessão, um senhor frio, duro como pedra, estava inquieto. Seus olhos estavam avermelhados e se sentia péssimo. “Que tipo de pessoa sou, capaz de julgar um homem de bem, um homem de família! Sou um fiasco…”, refletia, enquanto buscava um lenço em seu traje.

- A grande quintessência da vida, a honestidade, sempre foi um grande valor para esse homem de áurea mediocritas... como político, sempre foi um grande representante do povo, um sujeito extraordinário...
Nesse momento N. não aguentou, se remexeu na cadeira e chorou.... Levantou-se afoito e gritou:
-Sou culpado! Um ladrão, um corrupto, não sou um homem de bem! Levem-me, levem-me!
N. foi condenado.
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