Mitopoética e preguiças gigantes

Literatura, fantasia e ciência com o tradutor da nova edição brasileira do Silmarillion

*entrevista de abril de 2018, produzida para a revista laboratório da minha turma de jornalismo na UEL*

Reinaldo J. Lopes em foto de Jorge Hynd

Uma estrela brilhava sobre a hora do encontro entre Reinaldo J. Lopes e J.R.R. Tolkien. Reinaldo já tinha alguns anos de estrada jogando RPGs, um fenômeno cultural que deve muito a Tolkien — um dos pais fundadores da literatura de fantasia, e o mais influente considerando as convenções atuais do “gênero” –, e foi este interesse que eventualmente o levou a tomar O Silmarillion emprestado de um de seus veteranos do curso de jornalismo na USP, já em inglês. O livro conta a história da Terra Média desde sua criação até período em que se passa O Senhor dos Anéis. É, em suma, uma cosmogonia acompanhada das sagas (com o perdão do uso de um termo nórdico medieval apropriado para fins de analogia) dos povos dos elfos, homens e anões.

Foi amor nas primeiras páginas. Pouco depois Reinaldo pegou emprestado de sua namorada da época um volume único da trilogia O Senhor dos Anéis, que é por onde a maioria das pessoas começa, também em inglês. Leu tudo em duas semanas, “completamente alucinado” em termos do próprio. Nunca parou. Fã dedicado, veio a participar da fundação de uma sociedade de Tolkien brasileira, o Conselho Branco, e Valinor — considerado por muitos o melhor site de assuntos tolkienianos do Brasil –, em cujo fórum Reinaldo também é conhecido como Imrahil.

Perguntei quantos livros de Tolkien ele tem em sua casa. Olhando para a estante, ele estimou, entre várias edições, de trinta a cinquenta. Imediatamente reforçou o trinta como número mais realista. Uma estimativa conservadora. Talvez um reflexo adquirido na carreira de jornalista científico?

Atualmente, Reinaldo trabalha na Folha de S. Paulo, onde mantém o blog Darwin e Deus sobre “teoria da evolução, ciência, religião, e a terra de ninguém entre elas”. Em seu canal no Youtube, também explora estes temas e fala do universo tolkieniano. Lá, ele cumprimenta sua audiência em Quenya, um dos idiomas falados pelos elfos de Tolkien. “Elen síla lúmenn’omentielvo!”: Uma estrela brilha sobre a hora de nosso encontro.

Além disso, Reinaldo escreveu os livros Deus, Como Ele Nasceu; Além de Darwin; Os Onze Maiores Mistérios do Universo e 1499: O Brasil Antes de Cabral. Este último foi lançado no ano passado pela editora Harper Collins, que recentemente adquiriu da Martins Fontes os direitos de publicação da obra de J.R.R. Tolkien no Brasil. Reinaldo foi escolhido para fazer a tradução da nova edição brasileira do Silmarillion. Convidei-o para uma conversa sobre isto e mais. No decorrer de nossa troca de e-mails, aprendi a ortografia mais adequada de uma despedida em Quenya e ele, gentilmente, aceitou minha proposta. Segue o resultado, ligeiramente editado para maior clareza e polvilhado com hiperlinks para explicar algumas referências.

ESPAÇOS E FRONTEIRAS — Por que você acha que Tolkien ainda é tão lido nos dias atuais, em contraste a vários outros escritores que exerceram um papel semelhantes em seus nichos e “gêneros”?

REINALDO J. LOPES — Se for comparar com Robert E. Howard ou Edgar Rice Burroughs… Eu acho que, no fundo, Tolkien envelheceu bem, apesar de a visão de gênero e raça que ele tem ser problemática pros nossos tempos em muitos aspectos. Ele tem outras coisas, como a visão dele sobre a questão do poder, sobre questões ecológicas e ambientais, a relação do homem com o ambiente e com os outros seres vivos. Essas coisas ainda são muito poderosas e muto relevantes hoje. Mais do que eram nos anos 50, provavelmente. Isso rejuvenesce Tolkien. Além da qualidade literária que é fantástica. Dessa geração que redescobriu a fantasia em meados do século XX, em qualidade literária talvez só a Ursula K. Leguin se equipare a ele. C.S. Lewis também tem coisas fantásticas.

E.F. — Qual é a sua história favorita do Silmarillion?

REINALDO — Tem várias passagens que mexem muito comigo. Hoje mesmo eu coloquei no Twitter a traduçãozinha que fiz da passagem do Turgon recuando na Batalha das Lágrimas Incontáveis e Húrin e Huor o salvando. Mas é uma passagem pontual. Se for pensar em um texto completo único, acho que o Ainulindalë (A Canção dos Ainur) ainda é o que eu mais gosto, pelo trabalho poético mesmo. A linguagem, o refinamento na construção de frases e ritmo… Lembra muito o Gênesis bíblico, é uma releitura única que só Tolkien conseguiu fazer. Outros autores de fantasia e ficção científica tentaram fazer mitos de criação, alguns muito bonitos, como a Ursula K. Leguin tem na obra dela. Mas como mito de criação moderno, acho que nada supera o Ainulindalë atualmente.

E.F. — Qual é a sua adaptação favorita da obra ou do universo de Tolkien?

REINALDO — Por incrível que pareça, é uma adaptação do Senhor dos Anéis para rádio, da BBC. É muita boa. O Ian Holm faz o papel do Frodo, não do Bilbo (como nos filmes). Os outros atores, salvo engano, são menos conhecidos, mas a adaptação é muito fiel e deu uma atenção muito bonita para o aspecto musical e poético. As adaptações das músicas com melodia são, para mim, muito superiores às que a gente vê nos filmes. Eu sei cantar, de cabeça, várias dessas melodias.

E.F. — E a que você gosta menos?

REINALDO — Aí é fácil. Os dois últimos filmes do Hobbit. E tem as versões dos anos 70–80 que caem na categoria do trash. É tão ruim que as vezes fica bom. Aquelas feitas com rotascope (risos). Realmente não funcionou, mas era o que tinha. O Aragorn parece um chefe apache, os nazgûls parecem que tem algum problema na coluna, porque eles andam dum jeito esquisito, e o Sam parece o Zacarias… Enfim, não funcionou (risos e improviso vocal da musiquinha dos Trapalhões).

The Lord of The Rings (1978)

E.F. — Conte como você se tornou o tradutor da nova edição brasileira do Silmarillion. Você foi atrás? Te chamaram?

REINALDO — A história foi a seguinte: Eu tinha publicado o 1499 pela Harper e estava com a minha editora, a Renata Sturm, na Bienal do Rio. Nós estávamos no taxi conversando e me deu o estalo: A Harper é a editora do Tolkien fora do Brasil. Eu não estava muito satisfeito com o trabalho da Martins Fontes com o Tolkien. Eu virei pra ela e “Renata, será que não dá pra falar com o pessoal lá da Harper inglesa e ver se a gente consegue ‘roubar pra nós’ o Tolkien, e fazer umas traduções novas?”. Ela disse: “O Samuel Couto, que é meu colega da Thomas Nelson (outro ramo da Harper Collins) também é um grande fã e já estava vendo uma coisa desse tipo. Acho que você vai ter boas notícias em breve”. Isso foi, salvo engano, em setembro do ano passado. Depois o Samuel me escreveu para pedir o contato do Ronald Kyrmse, um dos grandes estudiosos de Tolkien no Brasil, e eu disse “olha, te passo o contato, mas se vocês forem fazer alguma coisa de Tolkien no Brasil e não me incluírem, eu juro que mudo de editora” (risos). Em janeiro o Samuel me ligou, contou que eles tinham conseguido os direitos da obra inteira, e perguntou o que eu poderia contribuir. Eu falei que estava à disposição para qualquer coisa, mas, como disse o Tolkien, quem não mira alto não acerta nem no meio, então eu disse que quero traduzir O Silmarillion. Continuamos conversando e: “então tá bom, O Silmarillion é seu”.

“como disse o Tolkien, quem não mira alto não acerta nem no meio, então eu disse que quero traduzir O Silmarillion

E.F. — O que você considera mais desafiador em traduzir O Silmarillion?

REINALDO — A questão social é uma, a do texto é outra. Falando do texto, a dificuldade é fazer um trabalho fiel ao texto original deliberadamente arcaico que quer recuperar um estágio mítico da língua e do pensamento humano, equivalente ao Gênesis bíblico como eu já falei, ou aos Eddas escandinavos, ao Enuma Elish da Babilônia. Como fazer isso sendo fiel ao texto e sem que as pessoas sintam que é falso arcaísmo? É uma acusação que o próprio Tolkien enfrentou, com um pessoal dizendo que “isso é falso arcaísmo, é pedantismo”. Era bizarro, porque a pessoa que entendia mais profundamente a história da língua inglesa — no MUNDO — era, talvez, o Tolkien. Se ele não sabia fazer arcaísmo verdadeiro, quem era esse pessoal para falar? Enfim, é um risco. Tem gente que vai achar pedante, chato e bobo, e vai perguntar por que não fiz uma coisa mais fluente.

No aspecto social a questão mais candente é a questão da raça, porque infelizmente, em alguns pontos do Silmarillion, assim como em alguns pontos do Senhor dos Anéis, pessoas com características não-européias acabam sendo vilanizadas. Tem alguma associação entre essas características raciais e o fato de elas serem vilãs. Ao mesmo tempo o Tolkien é mais complexo que isso. Ele mostra, mesmo neste contexto com toques de racismo, que o aspecto individual pesava muito e a questão racial não era determinante para um cara fazer bosta ou não. Mas no contexto atual é importante tomar algum cuidado com isso. Obviamente sem interferir diretamente no texto. É importante criar até um arcabouço teórico, ou explicar isso em outras mídias, nos lançamentos, nos nossos próprios blogs.

E.F. — Recentemente você comentou no Twitter que foi contatado por uma pessoa dizendo esperar que você não “MANIPULE A TRADUÇÃO do Tolkien para adequá-lo à sua ‘pena canhota’ e anticonservadora” (sic). Houve outros contatos semelhantes ou foi só este? O que você acredita que leva alguém a ver ameaça ideológica em todo canto e esquina?

REINALDO — (suspiros exasperados) Por enquanto foi só essa pessoa. Eu respondi, educadamente, ainda que um pouco irônico, no site da Valinor e ela deu uma réplica dizendo que “não, isso acontece mesmo” e não sei o que mais. Eu disse que sou católico igual ao Tolkien e ela: “Não, igual ao Tolkien não, porque suas referências são pós-conciliares”. Essa pessoa no mínimo deve ser tradicionalista, se não for sedevacantista. Sedevacantistas acham que todos os últimos papas são papas de mentira, falsos. Que a sede do Vaticano, a sede apostólica está vacante, vazia. Eles acham que o último papa de verdade foi Pio XII e depois dele não teve nenhum.

As pessoas estão enlouquecendo. A maneira como a gente passou, talvez, a consumir e reproduzir informação, e a criar grupos de pessoas que pensam de maneira parecida de forma muito fácil na internet, está criando uma mentalidade de cerco. Em todos os contextos, não só de direita. É uma mentalidade em que o mundo é feito de gente malévola que quer destruir tudo, e só Eu e meu grupinho fechado detemos o monopólio do Bem e da Verdade Suprema. Isso sempre existiu, mas o nosso ambiente atual facilitou que esse tipo de mentalidade de cerco exacerbada surja. O que dá mais raiva é que é um negócio completamente descolado das evidências. Eu sou um católico de centro-esquerda, social-democrata. Agora, para os grupos extremistas, eu dizer isso que dizer que eu sou um comunista disfarçado. O nível da maluquice, de descolamento com a realidade, é tamanho que a pessoa começa a enxergar o capeta em tudo quanto é canto. O Torquemada seria um cara moderado, do ponto de vista da abertura a evidências, perto desse pessoal.

“As pessoas estão enlouquecendo. A maneira como a gente passou, talvez, a consumir e reproduzir informação, e a criar grupos de pessoas que pensam de maneira parecida de forma muito fácil na internet, está criando uma mentalidade de cerco.”

E.F. — Quais obras e autores contemporâneos de fantasia você indica?

REINALDO — Tem muita coisa legal. Um cara que é pouco lido no Brasil, e deveria ser muito mais lido, é o Michael Chabon. Ele é fantástico. Não é escritor só de fantasia, mas construiu uma carreira bem-sucedida como escritor de ficção mimética, moderna tradicional e pós-moderna. Ele é judeu e cresceu com base nesta mesma dieta de Tokien e quadrinhos da Marvel e tudo mais. Ele tem três livros muito bons, cada um com um viés um pouco diferente.

Tem As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, que é uma reimaginação do Jack Kirby e do Stan Lee, e de como a Segunda Guerra Mundial moldou a história dos quadrinhos de super-heróis. Tem o livro que se chama Summerland, que é fantasia pra jovens adultos, muito bem-feita e bonitinha, misturando mitologia indígena e nórdica com baseball. Bem legal, muito lírico e muito emocionante. E tem um que se chama Gentleman of The Road, que ele apelidou de “judeus com espadas”. São dois aventureiros judeus medievais, um deles alemão loiro, o outro etíope negão, no reino dos Khazares — que era quase um império judaico da Ásia central naquela época. Século X, se não me engano.

Já não é um cara tão recente, já é um cara consagrado, mas eu também gosto do Orson Scott Card bastante, apesar das tretas que ele andou tendo com questões de gênero e sexualidade. Eu descobri recentemente a Robin Hobb. Dela eu li O Navio Arcano, e achei muito diferente de tudo de fantasia até hoje. Ela já é mais senhora, mas está produzindo muito agora. E eu gosto do George R.R. Martin, mas acho essa coisa de dizer que ele é “um Tokien novo e melhorado” uma bobeira. Do ponto de vista literário o Tolkien é muito superior, mas o Martin é um grande contador de histórias, sem dúvida.

E.F. — Como é um dia de trabalho normal para você?

REINALDO — Em geral eu não trabalho em casa. Eu vou pro campus da USP aqui (em São Carlos) e me enfio na biblioteca. Eu pego um monte de encadernação de revista científica antiga que ninguém usa mais, empilho, e coloco meu laptop em cima, com o teclado externo embaixo. Fica uma coisa meio tosca.

Battlestation! (em casa)

Normalmente eu acordo as 6h, deixo meus filhos na escola por volta das 7h30, então minha mulher me deixa na USP. Eu faço meia hora a quarenta minutos de caminhada e aproveito para gravar algum vídeo se precisar, porque eu prefiro gravar com luz natural. Aí eu sento para mexer em livro. Eu tento fazer isso até o meio dia porque a manhã é a hora do meu pico de energia e ideias. Então almoço, e depois faço as coisas do jornal — pode ser matéria, entrevista, reportagem ou post no blog –até as cinco e meia da tarde mais ou menos. Minha mulher passa pra me buscar e buscarmos as crianças. Chegamos em casa umas 18h15, 18h30, cuido da criançada, dou atenção e eles pegam no sono umas 21h30 a 22h. Aí eu já não consigo fazer mais nada. Eu tento ler um pouco na cama, estou tentando ler em papel porque luz da tela de celular é uma coisa meio merda, e capoto às 22h30. É isso. Bem vida de “nine to five. Pra quem trabalhou em jornal por muito tempo, isso alivia um pouco.

E.F. — Quais são os seus planos atuais na que tange à escrita de novos livros?

REINALDO — Eu estou acabando agora a minha parte do livro sobre evolução com o Pirula. É, eu consegui capturar o Pirula para fazer um livro comigo. Tenho mais um capítulo para escrever, só. Vai sair pela Super Interessante.

Pela Harper tem dois para esse ano: Um para entregar em junho que vai se chamar Homo Ferox, sobre a violência humana e como a gente se transformou nesse bicho violento lazarento. É meio que um anti-Pinker, respondendo ao livro dele Os Anjos Bons da Nossa Natureza, onde ele fala que a violência está diminuindo, o mundo está ficando maravilhoso e tudo mais. Não é bem um “anti”, concordo com boa parte do argumento dele, mas é para enxergar o outro lado e ver o que dá para fazer. É inspirado no The Once And Future King (O Único e Eterno Rei) — outro clássico de fantasia da época do Tolkien, sobre o Rei Arthur. E em novembro é um que o título tentativo é “A História Genômica — ou Genética — do Brasil”. Que é para olhar para a história do Brasil pelo ponto de vista da genética. Pegar estudos sobre socialidade, miscigenação e ver como isso se encaixa na história do Brasil. Por enquanto é isso.

E.F. — Tem algum momento ou aspecto da sua carreira que te marcou de forma especial e você gostaria de compartilhar?

REINALDO — Tem muita coisa legal. Vou falar uma positiva e uma negativa. A positiva, — inclusive falei no 1499, no primeiro capítulo ou no segundo — é que participei de uma escavação arqueológica em Lagoa Santa, interior de Minas Gerais, que é um dos grandes complexos arqueológicos do Brasil. Ajudei a carregar para fora da gruta um fêmur de preguiça gigante. Um negócio fantástico pegar aquele negócio na mão, daquele bicho que viveu faz dois mil anos e sumiu da terra. Inclusive eu reencontrei ele quando fui fazer uma entrevista num laboratório na USP e estava lá justamente o fêmur que eu carreguei. Muito bacana. Eu já era fã de pré-história, mas isso me prendeu emocionalmente à ideia da pré-história brasileira.

A negativa foi participar da conferência da ONU sobre biodiversidade lá em Curitiba. Tem todo ano a do clima e a da biodiversidade. Na do clima eu nunca tive o desprazer de ir. Na de biodiversidade foi um negócio horrível, por ver como o sistema internacional funciona. Não é um negócio bonito. Eu certamente não daria para ser diplomata. O tipo de autointeresse mesquinho e a forma como a cabeça das pessoas funciona dá vontade de sair dando cadeirada na cabeça de um por um. Foi péssimo, não sei se eu gostaria de ir a outra conferência dessas. Não tenho cabeça para o sarumanismo da diplomacia. Escrevi até um artigo dizendo que a conferência foi um triunfo do sarumanismo.

A preguiça gigante foi em 2002 e a conferência foi em 2006. Faz tempo. Estou velho, cara.

“Não tenho cabeça para o sarumanismo da diplomacia”
“Não vou assinar essa merda enquanto houver uma menção sequer a ‘derivativos’.”

E.F. — O que faz um bom livro de divulgação científica para você? Quais livros você acha que atendem estes critérios?

REINALDO — Não tem receita única, do meu ponto de vista. O que eu vou falar é considerando o que eu gosto de ler, o que me dá fruição. Eu tomei muita porrada no 1499 por causa do humor, mas eu acho que dar risada é um bom jeito de desmistificar alguma coisa e quando você consegue fazer piada de um assunto, é porque você realmente entende como a coisa funciona. Por isso eu gosto tanto do Robert Sapolsky. Outro que é pouco lido no Brasil, o que eu acho um pecado. Ele é um primatólogo e neurocientista. Acho que saíram dois livros dele aqui no Brasil: Por que zebras não tem úlceras? e Memórias de um primata. E ele lançou no final do ano passado um que se chama Behave (Comporte-se), sobre a biologia do bem e do mal, que também está me ajudando muito. Vou ter que me esforçar para o meu não virar um “semiplágio”. O dele é muito bom e muito completo. É um catatau, mas você não sente o tempo passar.

Outra coisa que faz muita diferença é ter conexões multidisciplinares, enxergar o assunto de maneira multilateral. Pegar um fenômeno complexo e, em vez de dizer que “só a cultura explica”, usar o input das ciências humanas e também das naturais para ver a coisa de forma ampla. Acho que é por isso que eu gosto tanto até hoje do Armas, Germes e Aço, do Jared Diamond.

E.F. — Como jornalista de ciência observando os cortes recentes no orçamento federal do setor de Ciência, Tecnologia&Inovação, que soluções você imagina para a crise da ciência brasileira?

REINALDO — (retorno do suspiro exasperado) Acho que tem duas coisas. Uma é a óbvia: Enquanto a economia não melhorar, a pindaíba vai continuar. Infelizmente, não tem como. Da maneira como o sistema de CTI do Brasil funciona, com participação grande do governo — que é o que deve ser, na verdade — se você não tiver arrecadação, a ciência brasileira vai continuar na pindaíba. Acho que temos que continuar lutando por melhorias, mas pelos próximos um ou dois anos vai continuar sendo uma batalha bem inglória.

Agora, reforçando que financiamento governamental é o que move a ciência básica no mundo todo, o que eu acho fundamental é reformar de alguma maneira os incentivos para produzir ciência no Brasil. Pode ser gradual, não precisa ser terra arrasada, mas tem que acontecer em algum momento. É preciso tirar o pé do produtivismo e pensar mais em impacto e qualidade, criar incentivos fortes para quem faz ciência boa e de impacto, talvez evitar que as pessoas fiquem acomodadas como acontece às vezes em instituições públicas. Tem que melhorar a interação com o setor produtivo, também.

E a gente tem um problema de imagem muito sério. Com alguma frequência o Ministério de Ciência e Tecnologia faz pesquisas sobre percepção pública. Aí perguntam “você se interessa por ciência?” e 70–80% das pessoas diz que sim. “Então fale o nome de um cientista ou uma instituição de pesquisa brasileira”, e 90% das pessoas não sabe. A ciência brasileira se vende muito mal. Tem muita coisa boa e gente competente, mas não chega no público. Óbvio que a mídia poderia fazer mais esse trabalho, mas mesmo com a gente ajudando fica difícil às vezes. Essas coisas precisam ser repensadas, ou vamos ficar reféns do ciclos econômicos e políticos. E é péssimo ficar refém dessas coisas.

JANELA: “A ciência brasileira se vende muito mal. Tem muita coisa boa e gente competente, mas não chega no público. (…) Essas coisas precisam ser repensadas, ou vamos ficar reféns do ciclos econômicos e políticos. E é péssimo ficar refém dessas coisas.”

E.F. — Ano passando houve bastante conversa sobre os cientistas tentando se organizar e até pessoas aventando a possibilidade de um Partido da Ciência. O que você acha das tentativas de organização politica dos cientistas brasileiros até o momento?

REINALDO — Difícil calibrar qual direção a seguir para ter impacto, mas antes tarde do que nunca. Já deveriam ter feito isso muito antes. Precisou a água bater muito na bunda com a crise econômica, mas que bom que começaram. Não sei se um partido político é a melhor solução, provavelmente não é, mas já estava na hora de ter organização e, principalmente, visibilidade na comunidade. Para mostrar que a ciência pode prestar serviço para a comunidade nacional. Tem que intensificar isso cada vez mais.

E.F. — Agora que estamos no final da entrevista, vem a pergunta extremamente nerd e de nicho que ficou guardada para depois de tirar o principal do caminho. Qual é a maior dificuldade de estudar o Quenya?

REINALDO — Difícil por si só não é, porque o tamanho do vocabulário e a quantidade de coisas que tem para aprender, é restrito. O Tolkien não conseguiu chegar no nível de uma língua com dezenas de milhares de palavras. Mas aí vem duas coisas: Tolkien mudou de ideia o tempo todo, já que diversão para ele era criar a língua, mas não manter ela parada. Era continuar a evolução e “ah, não gostei desse fonema, vou mudar um pouquinho”, ou a maneira como a subordinação é expressa, ou o acusativo em alguma frase. Era uma coisa o tempo todo em mutação. Como você vai saber qual foi a decisão final? Você vai ter que fazer escolhas. Isso que é punk. E lógico, se você quiser “usar” a língua, vai ter que inventar um monte de neologismos, porque ela foi feita para ser a língua poética de um mundo arcaico. Você não vai ter equivalente para “vai malandra” (risos). Do ponto de vista de estudar, se você já estudou latim, grego, até alemão, você não vai ter problema nenhum.