Você tem uma nova combinação: Quantos casamentos imaginários vc já teve?

Ele foi o primeiro garoto que falou comigo. Tinha uns dez minutos que eu tinha instalado o aplicativo, colocado minha foto e as informações no perfil. Ele era moreno, o cabelo curto, de óculos. Um perfil meio nerd, mas nada que chegasse ao esquisito. Trocamos meias palavras. Passamos alguns dias conversando e enfim nos encontramos numa quinta.

Eu vou até o ponto de ônibus. Ele veste uma polo com a logo de onde trabalha, jeans, uma mochila preta. Não é nada muito diferente da foto, o reconheço de imediato.

Para onde vamos?, ele pergunta. Não faço ideia, respondo. Não conheço nenhum lugar e você? Também não? Ele passa um ar sério, fala devagar, com uma voz grave. Parece aquelas pessoas que trabalham em escritório o dia todo. Para onde vamos andando? Nenhum dos dois parece saber. Sugiro seguimos para um lado mais escuro. O terreno baldio. Enquanto isso, trocamos as informações de sempre. Faço perguntas da faculdade dele e ele da minha. Chegamos numa rua escura. Tem um terreno ali, digo. Não, aqui tá muito escuro. Ele diz e eu não compreendo. Onde ele pensa em ir? Queremos coisas diferentes? Seguimos andando, não sei muito bem para onde. Na minha mente, vou repassando o papo que tivemos durante a semana. Nós falamos em sexo, beijos… Ficou tudo claro, não?

A conversa está agradável. Ele não parece ter maiores atrativos, mas também nenhum grande defeito. Saímos da avenida principal e vamos nos enfiando pela transversais. Aos poucos, há menos movimento. Achamos uma rua pequena e escura, bem pouco movimentada. Sentamos no meio fio. Há alguns palmos de distância entre nós. Ele continua com um tom sério e fala coisas querendo parecer inteligente. Reclama da faculdade. Me mostra uma prova que o professor deu uma nota que ele considera injusta. Fingo interesse, ele é legal, mas tem um tom de escritório. Eu não gosto de escritórios. Resolvo diminuir nossos palmos de distância. Ele me olha desconfiado. Me pergunto: “o que aquele garoto quer afinal?”

Coloco minha mão na sua coxa. Ele finge naturalidade. Ouvimos vozes. De uma das casas próximas da gente, saem três caras e nos encaram. Eu tiro a mão da coxa dele. Fico com medo. O grupo vai até um carro parado na rua logo após onde estamos sentados. Nossa conversa fica suspensa, ficamos mudos meio tensos. Decido levantar e ele repete o gesto. O grupo começa a conversar mais alto, enquanto pega coisa na mala do carro. Vamos andando em direção a saída ainda mudos. Assim que viramos a rua solto um suspiro aliviado, ele olha também reconfortante. Voltamos aos assuntos triviais. Seguimos andando. Ainda não sabemos para onde ir. Não temos para onde ir. Ninguém busca o comando da situação. Ninguém toma uma atitude. E quando eu tomo de um jeito mais delicado ele recua. Pra onde vamos afinal?

Eu já não sei mais de nada. Ele segue falando uma coisa ou outra e só murmuro fingindo mostrar interesse. Já me perdi entre as ruas. Infelizmente todas movimentadas. Depois de tanto tempo andando, chegamos a um grande terreno. Há uma cômodo no tijolo. É escuro. Não tem mato. Eu olho para ele sugestivo. Algumas pessoas passam na rua. Teríamos que dar um jeito de ser discretos. Ele está falando algo que não presto atenção, aponto para o terreno com a cabeça. Ele espreme as vistas e balança a cabeça. “Tá doido?”.

Chegamos numa estrada movimentada. Traço rotas mentais para entender que caminho doido e sem fim foi esse que fizemos. Ele diz que tem uma sugestão de lugar. Eu comemoro, finalmente alguma resposta. Não. Não que eu achasse que ele tivesse que ter tomado alguma decisão desde o começo, mas é que quando eu tentei fazer também não rolou.

Nós pegamos o viaduto que passa pela estrada, vamos até o outro lado. Há uma escada estreita, que leva para casa pequenas e mais simples. É absolutamente deserto. Nós sentamos nos degraus da escada. Ele pergunta sobre o que eu mais gosto. Conto de algum dos meus sonhos, minhas ambições. Eu adoro esse momento. Acredito tanto no meu futuro, falo dele com prazer. Pergunto os planos dele, mas ele não diz nada de interessante. Falo do cinema, ele diz que compartilha a paixão. Falamos de idos ao cinema juntos. Comentamos sobre o shopping que está em construção, a alguns quilômetros na estrada. “Vamos juntos lá um dia”, ele diz. “Mas falta ao menos um ano para o shopping inaugurar”, respondo. Ele sorri como se fosse óbvio. Eu devolvo um sorriso um amarelo.

Por que ele acha que eu vou estar com ele daqui há tanto tempo? Esses são seus planos afinal? Quando retorno a prestar atenção no que ele diz, ela está contando que vai me apresentar a mãe. Eu fico um pouco surpreso. Quantas vezes eu já quis acelerar as coisas? Sair casando com o primeiro que aparecesse, mas quando é a gente o alvo de tanto idealização a coisa fica um pouco confusa. Como ele chega com esse pacote pronto e me entrega assim, o que eu faço com todas as expectativas e esperanças dele? Não são minhas, muito menos nossas.

Eu tento novamento criar uma proximidade. Ele tenta puxar assuntos interessantes. Mas acho tudo meio tedioso. Ele não quer me beijar. Mas faz planos a longo prazo. Não entendo esse dinâmica. Passo a mão no cabelo dele. Ele devolve um carinho contido. O puxo para um beijo. Ele é duro. Eu levanto, o puxo também. Nossas línguas permanecem rígidas, ele parece não saber muito bem como fazer. Tento forçar um movimento, mas ele permanece estático. Passo a mão na nuca dele, ele permanece apenas me dando um abraço tímido. Tento aumentar o ritmo do beijo, mas ele permanece inerte.

Não sei mais o que fazer. Movimento minha língua por toda a boca dele, ele finalmente começa a entender o ritmo que tento ditar. Ele vai acompanhando e o beijo melhora. Passo as mão pela costas deles. O trago para perto. Vigio pra ver se não tem ninguém vindo. Passo a mão pela bunda dele. Ele me empurra e diz “não”. “Vamos com calma.” Ele me puxa para voltarmos a nos beijar. Será que estou sendo muito apressado? Ouvimos um barulho e interrompendo o beijo. Vemos uma menina descendo e nos afastamos. Ele pega a mochila do chão. Faço um gesto com a cabeça para subirmos. Voltamos à estrada. Cruzo a passarela de volta para o lado, ele fica do outro lado me olhando ir. Ele fica do outro me observando. Solto um aceno tímido.

Desde que me encontrei com ele, a cada nova combinação, eu olho pra pessoa e me pergunto: “o que eu quero?”. Eu posso não saber de imediato, eu posso nunca descobrir a resposta, ou até descobrir e ela mudar. Sabendo ou não, eu sempre digo. Se a pessoa se afastar, se ela ficar, aí não está sobre o meu controle.

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A série “Você tem uma nova combinação!” reflete sobre o universos dos aplicativos de pegação a partir de pequenos textos de ficção, mas coletados na experiência real de quem se relaciona virtualmente há anos.

Leonardo Antan é escritor contemporâneo, ligado às questões da diversidade. Namora há dois anos e meio com alguém que conheceu no Tinder, mas nunca saiu de lá. Seu relacionamento aberto lhe ensinou mais sobre relações que os livros. Em seus textos, busca contar causos refletindo sobre a vida entre likes.

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