“Você tem uma nova combinação!”: Já deu uma chance ao desconhecido hoje?

Leonardo Antan
Aug 24, 2017 · 4 min read

Eu tenho um vício. Um escape. Uma compulsão. Preciso de atenção, de um bate papo que eu sei que não vai chegar a lugar nenhum. Nada melhor que criar uma expectativa que eu sei que não vai se cumprir. Um casamento, um encontro, um amor por vi. Eu poderia viver minha vida inteira de amores que eu não tive, só idealizei. De romances que eu não vivi, mas que eu conheço tão bem o sabor que foram reais. De pessoas que nem me lembro o rosto, mas que foram a esperança de um amor que mudaria a minha vida, mas que nunca aconteceu.

Alguns eu nem sei o nome. E nem sei se idealizei em algum momento um relacionamento de verdade, mas que me tiraram dos problemas momentâneos e me jogaram numa outra realidade. Seja por isso, talvez, meu vício por aplicativos de relacionamento. Se eu estou mal numa noite, se eu me sinto sobrecarregado, eu os abro, sem pensar duas vezes. Mando várias mensagens para as conversas, passo dando like sem nem visitar o perfil antes. Eu preciso de um olá, um aceno, um sorriso… Como alguém que diz: “olha só, notei sua existência no mundo.” Afinal, quantas vezes na vida a gente passa desapercebida né?

Uma troca de perguntas que não dizem nada, minutos de papo que não levam a lugar nenhum. Algumas nudes que vão me aliviar logo na sequência. O gozo intenso que faz minha adrenalina baixar e me recoloca na vida real. Pra onde eu iria falando com esses caras estranhos que nunca vi na vida? O que eu queria, afinal?

Nas noites solitárias, onde preciso resgatar do meu HD interno imagens para me excitar, eu sempre me lembro de um caso de uma noite. Eu nem lembro o nome dele. E talvez, tenha sido o encontro que eu menos tenha criado expectativa na vida e por isso tenha dado tão certo.

Era um sábado chuvoso e frio, eu estava desesperado no aplicativo procurando alguém para encontrar, transar e ter um minuto de atenção. Eu não sei de onde ele surgiu, sua foto era só seu abdômen. Nós trocamos algumas palavras, ele era afobado, com pressa. Como eu. Pedi algumas fotos de rostos e não achei nada de se jogar fora. Eu não lembro mais o que conversamos, só sei que minutos depois eu estava no ônibus, em direção a um bairro distante do meu, que eu demoraria pelo menos uma hora pra chegar. Mas fui.

Demorei bem mais para chegar do que o previsto. Já era de noite, quando desci em frente a um shopping e ele me esperava no estacionamento. Tinha um carro popular antigo, conversamos sobre amenidades, ele disse que trabalhava com Televisão e ajudava a família no escritório. Ele era bonito, alto, malhadinho, tinha a cara e o ar de fútil. Parecia um pastel de vento. Só falava frases feitas e tentava se gabar do seu emprego na TV.

Ele parecia assustado, enquanto conversamos, ele olhava para fora do carro como se alguém pudesse nos ver a qualquer momento. Quando chegamos no lugar eu fiquei levemente espantado, era o escritório da família dele aparentemente. Ele era meio afobado, derrubou umas coisas que estavam em cima da mesa quando entramos. Eu senti vontade de rir. Ele se aproximou e apertou minha calça. Puxei para um beijo, mas ele se afastou. “Tô com um problema de garganta, é melhor não”. Ele mentia tão mal e de maneira tão canastrona que nem tinha o que rebater.

O cara não queria me beijar, eu estava num escritório a horas de distância da minha casa. E ele tinha claros problemas com a sua sexualidade, com medo de que fosse pego a qualquer momento. Que furada eu tinha me metido, socorro.

Tinha tudo para ser uma noite horrível. Mas não foi. Ele tinha delicadeza, calma, e de alguma maneira uma pegada afetuosa. Foi uma das poucas vezes que fui só o passivo da relação, e eu não fiquei tenso, nem com medo. Tudo foi tão precioso naquele encontro. Apesar da futilidade, da clara não aceitação de ser gay, enfim, o mais importante foi o toque. Um toque que eu não senti nem de longe com pessoas com quem eu compartilhava afinidades, ou julgava inteligente ou interessante. Mas que ali, naquela situação tão adversa eu tive. Com o tempo, ele passou a aceitar os beijos. Ele se entregou ao agora naquela intimidade, e eu o acompanhei.

Bonito ou feio, novo ou mais velho, interessante ou não. São muitas decisões a se tomar, muitas possibilidades de pessoas. E você ali, sendo uma delas. Na maioria das vezes, tudo te surpreende. E tudo que você idealizou escorre pelo ralo. E então, de onde menos se espera, surge um toque afetuoso de quem parece ter sido muito machucado pela vida. Uma delicadeza de quem parecia tão bruto e vazio. Dentre tantos encontros, conversas, transas, carícias, fica apenas uma sensação. Uma impressão geral. E só importa como ela te afetou.

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A série “Você tem uma nova combinação!” reflete sobre o universos dos aplicativos de pegação a partir de pequenos textos de ficção, mas coletados na experiência real de quem se relaciona virtualmente há anos.

Leonardo Antan é escritor contemporâneo, ligado às questões da diversidade. Namora há dois anos e meio com alguém que conheceu no Tinder, mas nunca saiu de lá. Seu relacionamento aberto lhe ensinou mais sobre relações que os livros. Em seus textos, busca contar causos refletindo sobre a vida entre likes.

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Leonardo Antan

Escritor contemporâneo. Folião e historiador da arte.

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