O que é preciso acontecer no dia para que ele seja um dos bons?

Ter que acordar cedo para ir pra faculdade, ver o pior professor da humanidade defecar numa matéria tão interessante, não parece um bom começo.

Daí, você se dá conta de que lavou todas as suas calças bacanas e suas camisas de banda e percebe que não existe outra opção além de camisa social e bermuda. O que não é nenhum absurdo, mas definitivamente, não é a primeira opção.

Engraçado.

Lembro de quando entrei pela primeira vez no universo acadêmico. Só usava camisas e calças sociais, pulôver e até gravata. Já ia me esquecendo dos sapatos, sociais também, claro. Mas como na música do Judas Priest, I’m a Victim of Changes.

E que bom!

Não que eu não ame mais me vestir socialmente, a diferença é que hoje sinto que transmito mais quem eu sou e meus gostos pessoais pelas novidades do guarda roupa. Enfim.

Como não consegui acordar cedo, tenho tempo apenas pro meu longo, tão longo banho. Escolho um álbum pra tocar no celular, coloco ele pendurado na janela, dentro do box, acima da prateleira de shampoos. Hoje escolhi um álbum do Sinatra. Não me recordo exatamente o nome (maldita memória de texugo morto), mas é algo como You all, or nothing at all. Também não sou muito manjador da grafia inglesa. Leio, falo, mas escrever é algo que ainda não sou fera.

Fera.

Que palavra tão ridícula. E sim, coloquei ela ai intencionalmente, para que pudesse julgá-la.

Um álbum muito bom, apesar de não conseguir chegar ao fim. O que pra mim não é nenhum absurdo. Não consigo nem chegar ao fim dessa história porque toda hora me perco num emaranhado de pensamentos e notas que podem ser interessantes, que na verdade desfocam quem lê, da pergunta inicial.

O que é preciso acontecer no dia para que ele seja um dos bons?

Já na rua, acendo um cigarro e caminho até a faculdade. Não tenho fome, mas acho que seria adequado comer alguma coisa. Paro no posto do caminho, entro e começo a olhar.

Eles tem rum! Saquê!

Não foi isso que vim buscar. Ajusto meu foco. Comida, comida, comida. Tem bolachas doces. Não gosto de doce e não sei onde vai a porra do acento circunflexo na palavra doce. Dôce? Docê? É no o que vai. Ok. Ou nem vai mais? Outra coisa da qual não manjo — nova reforma ortográfica.

Foda-se

Não me incomoda esse pequeno detalhe, afinal de contas sou um escritor que produz suas obras apenas para o meu bel prazer e para o meu público fiel de uns poucos amigos de tão, tão distante. Onde costumava ser minha casa e onde costumava ter um bilhão quinhentos milhões novecentos e setenta e três outros amigos, agora já tão distantes não apenas territorialmente, mas de mente também.

Mentes tão bem confortáveis em suas rotinas, em sua normalidade regrada e regada a álcool.

Não me sinto apenas distante espacialmente.

Transgredi as regras da normalidade do coletivo. Fugi da rotina, do comodismo, da cidade, dos amigos, do meu velho eu.

Senso comum.

Eu entrei na aula só fazem, no máximo, cinco minutos e já quero me matar. Meu foco já se desfocou mais e mais e eu quero vomitar. O professor defeca pela boca e o silencio reina entre nós.

Alguém se pronuncie!

Não? Ninguém?

Vocês estão anotando essa baboseira desconexa e imbecil?

Certa vez me falaram uma frase que é algo como Quem com burros convive, emburrece. Quem com inteligentes vive, engrandece. Não que eu concorde plenamente, mas ouvir o inconsequente rapaz sem talento que não sei porque devo chama-lo de professor, me causa angustia de viver, além de desestruturar meu equilíbrio já a tempos, perdido.

Você se lembra onde eu estava?

Focando. Na conveniência do posto. Em busca de alimento para o meu corpo. Além das bolachas doces (yay!) tinham Pringles. Dez reais. Puta que me pariu! Vou me intoxicar, não me alimentar verdadeiramente e ainda gastar dez contos de reis com isso?! Nunca. Foi para os freezers. Heineken long neck por quatro e vinte. Caro também, mas é cerveja. E é Heineken. Pego uma e me dirijo ao caixa. Tem uns salgados com cara de moradores antigos daquele expositor. Decido seguir com meu jejum alimentício e levo somente a cerveja. Abro ela, acendo o segundo cigarro do dia e sigo meu caminho. Até agora estou tendo um certo controle tabagístico.

Paro pra esperar o ônibus ir pra faculdade. Bebo minha cerveja, fumo 1, 2, 3, 4 cigarros. Subo pra aula que já sabia, antes mesmo de vivencia-la, que seria um lixo.

Entro no ônibus.

Antes do ônibus parar já estou com um cigarro numa mão e o isqueiro na outra. Coloco o cigarro na boca e o acendo assim que boto o pé para fora do automóvel.

Gotas de agua caem do céu. O dia começa a ser um bom dia.

Sou convidado a matar aula por uma belíssima colega. Ouso chama-la de amiga. Além disso é imaginação. Livre pra você que lê pensar o que se passa na minha cabeça.

Tenho um salve. Que realmente merece esse nome, afinal, me salvou de uma aula lixo.

Yasmin também é merecedora desse título.

Salve.

Uma carioca de dois dificulta o diálogo, mas não resisto a situação em que estou envolto e lanço perguntas. Ela, aos poucos, se abre. Um ser de brilho raro que, no seu próprio ritmo, se revela.

Som de chuva ao fundo, Luck Strikes brancos e azuis perfumando o ar. O conceito de sobriedade não se aplica mais a mim, pelo menos, não completamente. Já não ligo para o controle de consumo de tabaco. Ela acha que devemos voltar para a aula.

Devemos mesmo?

Preferia mesmo era ficar. Até o fim da aula. Do dia.

Mas tudo bem, voltemos!

Caminho até o hall de entrada da faculdade, ela, se dirige para sala, eu, peço uma moeda emprestada e compro um preto café de máquina. Dois quilos de açúcar. O que é que vou fazer com o tempo ocioso, já que não pretendo entrar na aula?

Tiro minha prancheta com vários a4’s branquinhos. Vazios de tinta. Apenas existindo. A me esperar. Decido então começar com uma pergunta que não sei a resposta e procurar uma, enquanto a tinta flui no papel e minha mente joga lentamente, um caminho.

A pergunta era O que é preciso acontecer no dia para que ele seja um dos bons?

Enfim, chego à conclusão de que observar os detalhes, cada mínima ação que normalmente não tem valor é um fator para reconhecer a grandiosidade de cada dia.

Reflita.

Pense.

Um dia que se pensa, já é um dia dos bons.