São 22:43

Espero sua chegada para poder me ir. Espero o momento do encontro para o desencontro. Parece nunca chegar. E não chega. Celular. São vinte e uma horas. São cinquenta e nove minutos. São indícios da proximidade, do momento esperado. Uma colher de cabo azul. A encho. Descarrego. Repito mais uma vez. Açúcar. Copo plástico laranjado. Dez uvas verdes. As dilacero com uma faca de cabo branco dentro do copo. Sake barato. Segunda vez que faço o ritual de enche-lo de bebida e glicose. As frutas permaneceram. Permanecem. O tempo passa mas parece ir para trás quando deveria ir para frente.

Estou no quarto que não é meu com uma espátula que não é minha raspando uma tinta que não é de ninguém. Raspo. Raspo. Raspo. Raspo. Meus dedos se chocam contra a parede. Meu braço vira máquina e vai e vem e vem e vai num constante ritmo até que se canse outra vez. Paro, respiro, estico a coluna e começa de novo. E outra vez. E de novo. Novamente. O processo é eterno e por mais tempo que eu dispenda, parece que nunca se chega a lugar nenhum. Uma homenagem às avessas ao Kubitschek. 5 anos em 50. Isso na melhor das hipóteses. Quem sabe 500. Who knows? Not me.

Porque faço isso? Porque sou um falido, fudido que tem trezentos contos de réis para viver até o fim do mês e um “profissional” (com aspa mesmo, porque duvido muito que mais alguém no mundo teria toda essa paciência e dedicação pra tirar uma casca de parede velha do quarto de não sei quem) cobraria pelo menos o dobro. Fora o material. Que opção tenho eu? Continuo. São vinte e uma horas e nada. Espero. Mas agora deixo a espátula de lado.

Música desconhecida e instrumental ecoa na minha cabeça. Fones de ouvido. Celular. Internet. Divago pelo meu mundo interno. Minha única ligação com o mundo real está na lei da inércia. As coisas continuam. Olhos. Mãos. Braços. Espátula. Eu mesmo mudo, mudo. Córtex. Foco. Rumo. Pensamentos difusos e desconexos enquanto a parede fica menos azul, mais amarela. Penso na vida. Cada vida que cabe num dia. Cada dia que cabe numa vida. Cada arranjo de sentimentos jamais repetidos na mesma ordem. Nada é imutável na realidade. Formulas tem a mesma resposta, mas não as mesmas perguntas. E mesmo que as mesmas perguntas, não a mesma situação. Não os mesmos questionadores. Não o mesmo interesse ou intensidade. A vida é uma só e só se vive por um dia ela. Somos fênix que não precisamos queimar. Mas precisamos nos manter aquecidos enquanto nos transformamos em outro. Enquanto o dia se transforma em outro. É por isso que se precisa dormir por um bom tempo. Para dar tempo do renascimento ser completo. Ser repleto. Recarregar as configurações do eu antigo e se preparar para o novo. Mesmo que tudo pareça igual. Mesmo que o nada seja diferente. Mesmo que nada. Não sei que horas são. Só sei que o álbum acabou e com ele o momento. A vivencia. A experiência que ficou no passado e que nunca mais estará no presente ou futuro. Foi-se. Findou-se a existência de um momento de divagação mental. Começou-se a desconexão do cérebro com os seus pensamentos e a volta para a realidade. Chata, monótona, vazia e cansativa realidade. Ouço a lamina e seus golpes certeiros. As vezes não. Contra a parede. A mente deixou de voar. O braço continua maquina. Raspo. Raspo. Raspo até que cansei. Pausa para o cigarro.

Volto do mercado em direção a casa. A nova casa. Que na verdade é mais velha do que eu. Mas é nova. Pra mim, é nova. Na verdade, é a primeira casa minha. Que na verdade, não é minha. Minha primeira fase casa sozinho. Com sozinho digo sem os pais. Tem um israelense e judeu no quarto ao lado. Tem uma casa na frente, onde tenho que passar pela garagem pra chegar na minha casa nova. Que não é minha. Que não é nova. Nessa casa da frente tem um alemão, filho de pai e mãe alemães. Quarenta e poucos anos? Não sei. Parece uma daquelas pessoas que reage de forma alegre e demonstra estar feliz mesmo com a vida sendo uma desgraça. Parece usar uma mascara, mas não apenas para os outros. Principalmente, para si. Pode até ser verdadeira a alegria, mas duvido muito. Não me importa. O que importa é que eu tenho que passar por ele pra chegar em casa. E tem uma outra casinha bem do lado da minha. Nossa. Minha e do judeu. Que não é nossa. Nem minha, nem dele. O judeu, eu digo. É do cara da casa da frente. Na casa do lado mora um rapaz.

São 02:09 o dia é outro. A vida é outra. Cobertor pra aquecer o corpo. O ninho da fênix se mantem quente. Enquanto minha mente. Mente. Mente. Mente. O tempo todo mente. O que é a verdade? O que na verdade é real? O que realmente importa? Quero ir embora daqui. Embora da casa. Embora da casa em que vivo. Não da casa nova, que na verdade é velha. Mas da casa velha, que na verdade é nova. Quero sair da casa corpo. Quero sair de mim. Quero sair da vida. Quero descansar.

Quero o fim.