Blade Runner e as lágrimas na chuva: o cyberpunk como metáfora do presente
Los Angeles, November 2019. É esta frase em destaque na tela que ambienta e dá início ao clássico filme de ficção científica “Blade Runner”, de 1982. E aqui finalmente estamos, em novembro do ano de 2019. Talvez ainda não tenhamos carros voadores, Replicantes ou um cenário tão pessimista como o do filme. Mas não pode-se negar que as características ideológicas que o filme representa, com muito pioneirismo para sua época, já estão claros nos dias de hoje, como a consolidação de um capitalismo corporativista pós-moderno, o uso das tecnologias como meio de opressão e acúmulo de capital, e até mesmo a crescente miscigenação asiática no mundo ocidental. Como forma de marcar este período da história e promover uma reflexão sobre o tema, decidimos disponibilizar um capítulo do artigo que produzimos há quase dois anos sobre o papel deste filme como uma metáfora do presente — para que não se perca no tempo como lágrimas na chuva.

Por Leonardo Azzi Martins, Lucas dos Santos Vieira e Pedro Goularte Lara. Orientação de Prof. Dr. Charles Sidarta Machado Domingos. Janeiro de 2018, IFSul Câmpus Charqueadas. Esta é uma prévia de artigo ainda não publicado.
Contém spoilers.
O retrato da humanidade distópica em “Blade Runner — o caçador de andróides”
“Blade Runner” inicia-se em um estrondoso silêncio. A composição melancólica, realizada por Vangelis soa como uma ópera eletrônica futurista. Essa melancolia, ao passo em que são exibidos os créditos iniciais, cai lentamente, até uma explosão que se manifesta ao rufarem-se os tambores. Isto transmite a sensação de que estes gritos melancólicos caem e se transformam em bombas — uma excepcional metáfora à retórica da Guerra Fria. Este é o clima que Blade Runner propõe em seus símbolos visuais e sonoros ao longo de toda sua narrativa, sendo composto por elementos que trouxeram uma forte assinatura à produção e que influenciam o cinema de ficção científica até os dias de hoje.
Com os avanços na exploração espacial, a Terra é contaminada pela poluição, degradação social e um desenfreado crescimento industrial a fim de financiar o projeto de sua burguesia em rumo à colonização de novos planetas. A Terra foi deixada para sua escória, os pobres e incapacitados, tornando-se um grande terreno industrial que sustenta o projeto de ‘limpeza étnico-social’ da classe dominante. A Los Angeles de novembro de 2019, imaginada no filme de 1982, é visualmente muito diferente da ‘Cidade dos Anjos’ que conhecemos hoje. Porém, suas semelhanças político-sociais são tão contemporâneas quanto se pode imaginar. Envolvida por uma superurbanização, a cidade é composta por prédios e indústrias monocromáticos, uma marcante miscigenação cultural américo-asiática e fortes propagandas consumistas, elementos estes que populam o horizonte nas primeiras cenas aéreas. Seu cenário urbano vive uma eterna noite após ter sido completamente contaminado pela poluição, ditando um clima depressivo ao filme por meio da composição de luz, tendo o azul como o filtro de sua ‘frieza’. O sistema capitalista-corporativista desta distopia tem no consumismo uma ferramenta de alienação social que mantém este sistema de exploração de minorias étnico-sociais pelo “mundo superior”, elemento este que evidencia-se nos colossais outdoors com propagandas nas quais promovem o consumo como um caminho para a felicidade. Zeppelins sobrevoam os entre os prédios anunciando, em meio a tragédia civilizatória que aquele ambiente representa, uma salvação anunciada: as colônias extraterrestres.
Uma nova vida espera por você nas colônias extraterrestres. A chance de começar de novo numa terra dourada de oportunidades e aventuras. […] O Replicante humanóide feito sob medida e projetado geneticamente para atender às suas necessidades. Então vamos, América, colocar nossas equipes lá em cima! […] (Blade Runner; SCOTT, 1982).
A música do filme é um elemento indispensável logo de início. Particularmente, a trilha sonora de “Blade Runner” não serve como um simples guia visual que dita o ritmo do roteiro, mas sim como um elemento que compõe o perfil sonoro da cidade, dos prédios, das naves e dos próprios personagens — ou mais especificamente, como seu ‘choro interno’. Esta música, composta pelo músico grego Vangelis (“Main Titles”, Blade Runner OST), por muitas vezes transmite a sensação de que todo este mundo não se passa de um mero sonho. Isto se deu por meio da aplicação diversas técnicas e influências na composição e mixagem, tanto com os inovadores sons extraterrestres de “O Planeta Proibido” (1956), quanto a ópera espacial de “Guerra nas Estrelas” (1977). Nesta, um elemento essencial é a reverberação, por meio de técnicas inovadoras para a época. Esta reverberação pesada implica na criação de um ambiente grave e fechado, gerando um tom de mistério, paranoia e distância, sentimentos estes que combinam com o peso emocional do filme.
O que este cenário e personagens representam, em sua linguagem fílmica, faz parte de uma conjuntura histórica inerente à pós-modernidade, representada pela crise do pensamento iluminista e do projeto civilizatório moderno. Podem ser observados no filme elementos de desengate à razão e colonização social-cultural. A humanidade é submetida às leis do mercado e do estado burocrático, impondo-se à sistematização de seu cotidiano diante esta lógica capitalista e gerando uma ruptura através do descontentamento social ao longo do processo de modernização e crescimento econômico, favorecendo então o retrocesso social em função das condições de vida e da própria condição humana. Assim, a distopia que “Blade Runner” representa está intrinsecamente ligada a estes fatores históricos e sociais pós-modernos.
Um dos elementos principais da discussão são os Replicantes, seres desenvolvidos geneticamente — e não clonados ou robotizados — pela poderosa Tyrell Corporation para trabalharem como escravos nas colônias interplanetárias. Os Replicantes NEXUS 6, nos quais o filme aborda, é um modelo superior ao próprio ser humano em força, agilidade e inteligência. Contudo, para que estes não absorvam experiências emocionais suficientes para criarem consciência crítica, foram desenvolvidos com uma validade de 4 anos. Um grupo de replicantes de combate realiza um motim e parte para a Terra sob ilegalidade, pois revolta-se sobre sua condição e busca uma solução que possa aumentar seu tempo de vida. A fim de controlar esta rebelião, os Blade Runners são agentes de um esquadrão policial dedicado à caça e ‘aposentadoria’ de Replicantes, termo este que significa, na verdade, executá-los para conter sua ‘ameaça’. Rick Deckard (Harrison Ford) é um experiente Blade Runner que é chamado de volta para a missão de investigar e deter os Replicantes rebeldes que vieram à Terra. Assim, esta abordagem dos Blade Runner como agentes mostra uma forte influência dos agentes de espionagem clássicos do cinema, personagens estes inspirados pelos conflitos da Guerra Fria, como James Bond (1967–2015), e os próprios filmes noir. Deckard é como estes personagens, um agente infalível e o único capaz de resolver o conflito, além de homem, alto, moreno, caucasiano; e também um ator ‘galã’, com idade entre 30 e 40 anos e intérprete dos ícones Han Solo (Guerra nas Estrelas, 1977) e Indiana Jones (Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, 1981).
Os personagens do filme são marcados por sua problemática moral, que não se trata sobre a sua humanidade — mas sim sua identidade. A identidade não é determinada pela sociedade, mas pelo indivíduo, fazendo então sua formação, em essência, problemática. Uma cena que representa esta questão é a visita de Deckard à mansão de Tyrell, o criador dos Replicantes. Deckard vai à Tyrell a pedido de Harry Bryant (M. Emmet Walsh), chefe do departamento, a fim de submeter uma NEXUS 6 ao Teste de Voight-Kampff e conhecer melhor este tipo de Replicante. O Teste de Voight-Kampff é realizado por meio de um aparato eletrônico no qual analisa reações emotivas apresentadas pela dilatação da pupila e pela respiração dos Replicantes. Sua metodologia é feita através de perguntas com relação à moralidade humana em função de associação livre. Este teste foi inspirado no Teste de Turing, criado por Alan Turing (1912–1954) para determinar se um computador é humano ou não por meio de características indistinguíveis ao próprio ser humano. Ao passo que Deckard chega à sala, a Replicante Rachael (Sean Young) emerge do escuro, em uma trilha sonora ‘mágica’. Ao longo do filme, Rachael é caracterizada como a personagem “femme fatale”, personagem feminina característica do filme noir na qual se relaciona com o protagonista mesmo representando um perigo. “Parece achar que nosso trabalho não traz benefícios ao público. […] Já aposentou um ser humano por engano?” (BLADE, 1982) — indaga Rachel. Surge então o Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel), e diferentemente do que se espera do “Deus da Biomecânica”, se mostra um homem fraco e frágil, mesmo que rico e poderoso. A ironia é que Tyrell é um ser humano deveras “imperfeito”, tanto psicologicamente quanto fisicamente, apresentando problemas de visão e sendo um sujeito extremamente excêntrico — residindo em um prédio que se assemelha a uma pirâmide faraônica futurista. Sua sala é decorada com bonsai em meio a um mundo onde a fauna e a flora foram extintas e com uma grande “janela” que mostra o nascer do sol no horizonte, uma projeção digital estética completamente diferente da Los Angeles apresentada, vivendo em uma realidade totalmente particular e artificial.
Deckard, então, aplica o Teste de Voight-Kampff em Rachael, na qual acha que é o humano submetido ao teste propositalmente. Porém, Tyrell afirma que Rachael começou a suspeitar sobre sua identidade. Impressionado, Deckard questiona: “Suspeitar? Como pode não saber o que é” (Blade Runner; SCOTT, 1982), impressionando-se sobre a alienação do indivíduo que não conhece sua própria identidade. Assim, Tyrell responde:
- A meta da Tyrell é o comércio. Nosso lema: “Mais humano que um humano”. Rachael não passa de um experimento. Começamos a identificar neles uma estranha obsessão. Afinal, não têm experiência emocional e só alguns anos para armazenar essas experiências que eu e você temos como certas. Se dermos o passado, temos um ambiente aconchegante para suas emoções e, consequentemente, podemos controlá-las melhor.
- Memórias. Está falando de memórias! (Blade Runner; SCOTT, 1982).
Rick Deckard é atormentado o filme inteiro com conflitos como estes, tal como o conflito de identidade entre si mesmo e os Replicantes ao relutar ao chamado para a missão, ao destruir a identidade de Rachael e ao descobrir que, na verdade, ele mesmo é um Replicante. A cena de romance entre Deckard e Rachael mostra uma tentativa do personagem compensar o que fez com Rachael ao revelar a ela que é uma Replicante, buscando uma nova identidade no amor de forma totalmente forçada e abusiva. Em um momento, Deckard para que Rachael diga que o ama, jogando-a contra a parede e forçando uma reciprocidade. Essa cena também demonstra que neste futuro os indivíduos não sabem lidar com as relações humanas. Tanto Deckard quanto Rachael transparecem dificuldades em relação a operar seus sentimentos e afetos, se confundindo com medo e até certa brutalidade. Assim, sempre que Deckard faz algo que julga errado, é interessante como o filme sempre o mostra fazendo algo para tentar compensar esta ação. Após matar a Replicante Zhora em uma perseguição (Joanna Cassidy), Deckard se encontra em um conflito sobre o que fez é certo ou errado, precisando de um lugar com regras sólidas, com conexões reais — Deckard vai beber, e o filme contempla estes momentos de reflexão para as reações emocionais do personagem.
Essa falta de sensibilidade entre os seres humanos também se apresenta em outros personagens além de Deckard, como no engenheiro geneticista J.F. Sebastian (William Sanderson), que ao entrar em contato com a Pris (Daryl Hannah) fica totalmente embaraçado — mesmo antes de ter conhecimento da natureza dela como Replicante — sem saber como se comportar diante da personagem e seus gracejos. Além disso, mesmo sendo um gênio desenvolvedor da Tyrell Corporation, sofre com a Síndrome de Matusalém — o que causa rápido envelhecimento e deterioração de suas glândulas. Ao revelar isto, Pris questiona se é este o motivo de ainda estar na Terra e ele confirma dizendo que não passou nos exames médicos. Ou seja, a ascensão social deste futuro não depende apenas da classe, mas também de uma plena condição fisiológica. Desta forma, é irônico pensar que um dos responsáveis pela criação de seres a partir de um aperfeiçoamento fisionomia humana possua uma fisionomia “imperfeita”. Não seria possível neste futuro usar a tecnologia para melhoria das condições humanas e/ou cura de doenças? Esse é um reflexo da pós-modernidade, onde a ciência e o desenvolvimento tecnológico são usados como ferramentas para sustentar o capitalismo e não mais com o intuito de benefício humano (DINUCCI, 2013, p. 14).
Na cena seguinte em que Roy (Rutger Hauer) e Pris se apresentam como replicantes para Sebastian, percebe-se uma grande admiração do humano para com os seres biogeneticamente criados — processo no qual ele teve participação Por outro lado, os Replicantes transparecem não gostar quando Sebastian pede para que demonstrem suas habilidades, como se associasse ambos a meras máquinas. Roy então rebate: “Não somos computadores, Sebastian. Somos de carne o osso” (Blade Runner; SCOTT, 1982). Pris complementa com a famosa frase de René Descartes, fundador da filosofia moderna, “Penso, logo existo”, na forma de reforçar sua autonomia e reafirmar-se como ser pensante e individual.
Um elemento emblemático do filme é a importância que é dada aos olhos como uma metáfora. Em uma das cenas iniciais, a câmera dá um close em um olho, no qual reflete o cenário futurista e industrial com explosões advindas das fábricas, dando a impressão de que este olho contempla o mundo inteiro. No decorrer do filme, é expressado que olhos possuem um significado ligado à ‘essência de vida’, como por exemplo quando Leon tenta matar Deckard enfiando seus dedos nos olhos do Blade Runner; da mesma maneira que Roy assassina o Tyrell — seu criador. Os olhos também representam uma dicotomia entre humanidade e artificialidade, mostrando em diversas cenas onde os Replicantes apresentam um brilho “estranho” — quase que para diferenciá-los -, que se intensifica quando eles se identificam como Replicantes ou quando cometem atos desumanos — como é sugerido nos olhos de Roy durante eliminação de seu criador. Portanto, estes olhos não apenas vêem, mas revelam.
O fato de que se chegou a um nível tecnológico tão avançado a ponto de o desenvolvimento de seres como os Replicantes se tornar algo banalizado no ambiente do filme, fazendo com que mesmo que esses humanóides desenvolvam emoções cada vez mais próximas às humanas, ainda serão tratados como apenas mais um objeto a ser comercializado. Isto fica ainda mais claro na cena logo após a morte de Zhora, em que o detetive Bryant faz uma piada com o corpo da Replicante caído no chão, como se fosse apenas um objeto qualquer: “Sua aparência está tão ruim quanto a da Replicante que deixou na calçada.” (Blade Runner; SCOTT, 1984) — ignorando o fato de que aquele ser possuía uma consciência.
Nas cenas finais onde o filme chega ao seu climax — e após Roy passar pela descoberta de que sua vida não poderia ser prolongada, Deckard e Roy se encontram em confronto no terraço do apartamento de J. F. Sebastian, enquanto chove. O Blade Runner, em uma tentativa de fuga — sendo esta a única coisa que pode fazer estando desarmado -, salta em direção ao terraço de um prédio ao lado. Entretanto, Deckard quase despenca ao fazer isso, conseguindo apenas segurar-se em uma viga exposta do prédio; logo em seguida Roy salta com sucesso para o prédio. Eis que no momento crucial quando Deckard está prestes a se soltar e cair, Roy repentinamente o salva, segurando-o pelo braço e o deixando em segurança no terraço. Deckard não compreende a ação do Replicante, e olha-o ainda muito confuso e amedrontado. A partir disso Roy, senta-se, olha com simplicidade e condolência para o Blade Runner — que fora encarregado de eliminá-lo — e começa a falar sobre a sua breve experiência de vida:
“Vi coisas nas quais vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol… cintilar no escuro no Portal de Tannhaüser. Todos esses… momentos se perderão… no tempo… como… lágrimas… na chuva. […] Hora de morrer” (Blade Runner; SCOTT, 1982).
Em seu último momento de vida, Roy, o Replicante, tem sua redenção cometendo o ato mais humano — e empático — visto durante todo o longa-metragem: ele salva a vida de seu próprio caçador. Durante toda essa cena, Roy carrega em sua mão esquerda uma pomba branca, uma representação da paz, e após sua morte, a pomba voa em direção ao céu, destoando-se por entre os prédios escuros, sendo esta pomba possivelmente o único animal não-artificial do filme. Então, Gaff (Edward James Olmos) — braço direito do detetive Bryant, encarregado de supervisionar Deckard — repentinamente surge parabenizando o Blade Runner por “aposentar” todos os replicantes, até que antes de retirar, diz: “É uma pena que ela não vá viver. Mas na verdade, quem vai?” (Blade Runner; SCOTT, 1982) referindo-se a Rachael e à condição humana mais assertiva, que é a morte. Deckard então volta ao seu apartamento, temendo que a Replicante não esteja mais viva. Após confirmar que ela está bem, ambos se aprontam rapidamente com o intuito de fugir antes que outro Blade Runner venha caçar Rachael. Ao saírem pela porta, Deckard se depara com um pequeno origami de um unicórnio, animal que constante de Deckard sonhava, levantando ao questionamento sobre qual a verdadeira natureza do personagem, fazendo com que Deckard, o caçador de andróides, seja possivelmente um Replicante. Este é um símbolo carregado desde o início do filme que apenas revela-se o questionamento em seu final. Anos depois, o diretor Ridley Scott confirmou em uma entrevista que sim, Deckard é um Replicante. E esta amarração, portanto, é a maior contradição que este enredo aborda — o caçador, na verdade, sempre foi a caça. As contradições que Deckard buscava nos Replicantes estavam, na verdade, dentro de si mesmo, dentro de sua própria vulnerabilidade na condição de ser humano.
“Blade Runner, o caçador de andróides” é um filme que foi capaz, mesmo em pleno ano de 1982 onde a retórica da Guerra Fria direcionava o pensamento humano entre discussões entre dois projetos ideológicos opostos, visualizar um futuro onde o projeto capitalista se saiu vencedor, quebrando a concepção utópica de sociedade para aqueles que ainda vivem na Terra nesta distopia: os pobres e ‘incapazes’. Pois, na perspectiva da burguesia que está nas colônias extraterrestres, o futuro proposto por “Blade Runner” é, na verdade, a mais bela utopia.
Assim, por trás de toda a evolução tecnológica e todas as conquistas da exploração humana, há uma mão de obra que a sustenta, há sempre um conflito de interesses. Durante a Guerra Fria, a evolução tecnológica foi extremamente acentuada, assim como nas duas Guerras Mundiais. Portanto, a sociedade da época imaginava que esta curva evolutiva aumentaria ainda mais no século XXI, concretizando anseios como o “carro voador” e o andróide “mais humano que o próprio humano”. Contudo, esta expectativa é frustrada no momento que o século XXI não é marcado por conflitos como no século XX, pois com o dito “Fim da História”, nossa sociedade é caracterizada pelo acúmulo de capital e sofisticação das ferramentas de controle e alienação social que mantêm esta ordem — aspectos estes que são os elementos principais que compõem a obra em sua essência.
O filme, portanto, recria o filme noir em pleno anos 80, adicionando sua camada de ficção científica distópica, mas também sendo o primeiro filme noir colorido, o que é atualmente denominado como tech-noir. Esta capacidade de reinvenção de seu próprio gênero foi o que fez “Blade Runner” influenciar novas obras de ficção científica e novas reflexões sobre o futuro da humanidade, como visto no movimento cyberpunk. Além disso, o filme abre diversas possibilidades para abordagens sobre o contemporâneo, como abordagens tecnológicas, sociais, psicológicas, e também feministas e racistas.
As abordagens em relação à pós-modernidade apresentadas mostram que o filme utilizou o desenvolvimento emotivo dos personagens como uma metáfora daquele presente, na época de sua produção, e seus anseios e expectativas futuras, que sendo uma obra distópica, são essencialmente pessimistas. Assim, acerta ao prever os efeitos da pós-modernidade em nossa sociedade contemporânea: um mundo com um alto desenvolvimento tecnológico voltado ao mercado corporativista, a desvalorização e desengate da razão e da ciência como meios de visualização e interpretação da realidade, a criação e massificação de meios de controle social, o consumismo como uma ferramenta de alienação, o financiamento corporativista da exploração de colônias espaciais para a burguesia, como a SpaceX — diferentemente das agências estatais da corrida espacial, como a NASA e a Roscosmos.
O que aprendemos, enfim, com personagens como Deckard, Rachael, Roy e Tyrell, são como o modo que visualizamos nossa condição na sociedade em que vivemos afeta a nossa condição psicológica, que afeta o curso da sociedade e, consequentemente, da História. Afinal, a História é feita pela humanidade, pois ela é um meio de se analisar seus efeitos em relação ao tempo. Portanto, a missão do historiador é não deixar que esta História se perca no tempo, como lágrimas na chuva.
Artigo completo: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/Missoes/article/view/3487
- Fontes primárias:
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