Marcella Alves, a malandra da bandeira

Marcella Alves, porta-bandeira do Salgueiro

Meus amigos, posso estar indo na contramão do senso comum. Na maré contrária do que dizem por aí. Divergindo de cabeças brilhantes. Até magoando pessoas próximas. Mas é preciso fazer um alerta: o samba do Salgueiro deste ano (tão decantado antes e durante o carnaval) tinha um erro grave. Imperdoável. Que macula as tradições da vermelho e branco! Dito isto, assino, subscrevo e dou fé, e vamos às explicações de praxe.

Ao reverenciar aos brados o “malandro batuqueiro, cria lá do morro do Salgueiro”, o samba-enredo deixou de valorizar a estrela maior de seu desfile. Não, ela não é batuqueira, sua arte é outra. Muito menos cria do morro tijucano. Mas vestiu a camisa salgueirense como ninguém: Marcella, a “malandra da bandeira” (só pra manter a rima), brilhou no palco sob as estrelas.

Uma verdade precisa ser dita: nenhuma escola fez entrada na Avenida em 2016 tão forte quanto o Salgueiro. Eles pisaram firme, vestindo a camisa de favoritos, anunciando quase um novo “Explode, coração”. E quem mais encarnava essa garra era Marcella. O vermelho do pavilhão e da fantasia parecia lhe dar mais energia; era sangue, suor, sem lágrimas. Rodava como se não houvesse Quarta-Feira de Cinzas; a bandeira voava como numa roda de pernada, dando rasteira no vento. A porta-estandarte era a malandragem pura, alternando a ginga do rei da noite com a doçura que se exige das condutoras do pavilhão. Afinal, todo malandro faz a gente acreditar no que ele quer — e, agora sabemos, as malandras também.

Marcella grita a plenos pulmões que o couro vai comer, que quem dá as cartas é ela, que seu santo é forte e, especialmente, que o vento sopra a seu favor — e da bandeira vermelho e branco, é claro. Às vezes eu tinha certeza de que, por baixo da bela saia rodada, ela calçava um sapato bicolor. Mas não: era seu tradicional sapatinho (de cristal?), que transformou a menina do Lins na Cinderela desse carnaval.

Muita gente me perguntou por que o Salgueiro entrou forte na Avenida, mas esfriou na metade final. Eu, cansado das análises técnicas e assombrado pela poesia que a dança dos casais inspira, respondi, sem pestanejar: “Claro! A Marcella só ficou na pista até os 45 minutos!”.

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