Marlene Sativa, a rainha do barzinho

Marlene Sativa era a rainha do barzinho. Cantava na noite há anos, com relativo sucesso. Nunca havia gravado um disco, não aparecia nos programas de TV nem tocava nas rádios. Mas a noite do Rio de Janeiro inteiro a conhecia. Ganhava dinheiro soltando a voz em mais de uma casa por noite. E era tratada como estrela pelos donos dos estabelecimentos. Sativa era sinônimo de bom faturamento, de clientela satisfeita, de uma jornada inesquecível. Era a voz da noite carioca.

Mas havia um problema. Marlene Sativa amalgamou sua carreira da forma como pedem os barzinhos: num estilo cool, cantando doce, suave, quase daquele jeito “não quero incomodar o seu jantar”. Canções melodiosas, letras inocentes, a ideia era ser o pano de fundo da noite dos casais, nunca o prato principal. Era a Marisa Monte da noitada, a Maria Gadú dos botequins, a Adriana Calcanhotto do happy hour, a Zizi Possi das baladas. Voz fina, quase sussurrada, aquela que quando chega aos tímpanos pede desculpas e entra bem de-va-gar-zi-nho. Terminava os shows sem derramar uma gota de suor, sem forçar as cordas vocais, novinha em folha, pronta pra outra.

Mas esse não era seu desejo artístico. Se pudesse, sua persona no palco seria outra. O que ela queria mesmo era incorporar a loba, feito Alcione. Dar a risada da Fafá de Belém. Mexer os quadris como a Ângela Ro Ro. Coçar o saco, mostrar os peitos e cuspir no chão tipo a Cássia Eller. Gritar barbaridades pro “ex-my-love”, que nem a Gaby Amarantos. Sativa, no fundo, era uma artista visceral. Aquele fio de voz estilo Nara Leão na verdade escondia um trovão à la Clementina de Jesus.

E foi aí que chegou a fatídica noite. Marlene Sativa não era de beber. Fazia de tudo para poupar a voz. Durante o show, só água mineral, temperatura ambiente. Mas naquela segunda-feira, sabe-se lá porquê, pediu um copo de uísque. E outro. E depois mais um. Sempre caubói. E a máscara caiu. Ela foi se soltando no palco. O repertório ganhou outros contornos. Saíram o “Amor I love you”, o “Devolva-me”, o “Boa sorte”. E, aos poucos, foram chegando “Faz uma loucura por mim”, “Balada da arrasada”, “Abandonada por você”. A cada tom que subia, os olhares do bar se voltavam pra ela. E mais. E cada vez mais. O público deixou de prestar atenção na caipirinha, na bolinha de queijo. Sativa foi hipnotizando um a um. Até os garçons pararam de servir. De repente, ela já não estava mais sentada em seu tradicional banquinho. Pela primeira vez na vida, levantou, cantou de braços abertos, chorou, gritou, tirou a voz do fundo da garganta, num rasga-peito memorável.

No gran finale daquela noite histórica, sob olhares mezzo-incrédulos/mezzo-inebriados, com a plateia já de pé, a rainha deu o tiro de misericórdia. Seu último número foi um pot-pourri, em que ela emendou “Coração na boca / Peito aberto / Vou sangrando” com “Nascendo, rompendo, tomando / Rasgando, meu corpo e então eu / Chorando e sorrindo, sofrendo, adorando, gritando”… O público já estava com a respiração suspensa, o clima era de delírio, os aplausos ficaram ensurdecedores, até que ela arrematou: “Explode, coração!”. E saiu correndo entre os presentes, pela porta do bar, em disparada.

E desde aquela madrugada fria, Marlene Sativa nunca mais foi vista na noite do Rio de Janeiro.

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