Mudou o Queen ou mudamos nós?

O show de Queen e Adam Lambert no Rock in Rio colocou de um lado os que adoraram a chance de rever a banda inglesa e de outro os que criticaram a performance de Lambert, que “não chega nem aos pés de Freddie Mercury”. Por trás das reações sempre exageradas das redes sociais, está a necessidade contemporânea de reviver momentos marcantes, tentando colocar experiências únicas numa linha de montagem fordista, o que não deixa de ser uma contradição semântica.

O show do Queen com Mercury entrou para a história como um dos grandes momentos do showbizz brasileiro, eternizado na memória da primeira edição do festival. Como evento único, por definição, não pode ser repetido. Mas muita gente que foi à Cidade do Rock sexta-feira ou assistiu pela TV queria reviver as mesmas emoções sentidas naquele 11 de janeiro de 1985. O filósofo já nos ensinava, 500 anos antes de Cristo, que ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio — quando entramos pela segunda vez, não é o mesmo rio, e nós também não somos os mesmos.

Algo idêntico pode ser dito do show do Rock in Rio. Mudou o Queen — e a ausência de Mercury é a maior prova. Mas também mudamos nós. De 1985 para cá, ficamos muito diferentes. Temos 30 anos à frente, 30 quilos a mais, 30 vezes mais rugas e um salário multiplicado por 30. Algumas coisas melhoraram, outras pioraram — mas nada está no mesmo lugar. Isso significa que não podemos ir a esse show querendo experimentar as mesmas sensações. Abra a mente, saia da pasmaceira, pra que viver novamente algo já vivido?, receba o novo e faça dele um outro capítulo em sua vida.

A pós-modernidade hedonista é movida por arroubos emocionais. Fico imaginando uma pessoa comum do século 17 ou 18: provavelmente ela teve uns quatro ou cinco grandes momentos de emoção em sua vida inteira. Hoje em dia, queremos ter isso num mês. No mínimo.

Como saciar essa demanda, se não é tão fácil assim criar sobressaltos em quantidade? Foi aí que apareceram os “remakes”, uma forma simples e fácil de gerar prazer no público. Mira certeira. Com a necessidade cada vez maior de proporcionar experiências avassaladoras e inesquecíveis, a indústria cultural apelou para a memória afetiva das pessoas, transportando-as no tempo e entregando uma espécie de prazer engarrafado: volte 30 anos e sinta a mesma euforia de outrora. É adrenalina na veia, droga não-sintética à prova de overdose.

E aí vêm as séries de filmes (“Sexta-feira 13” teve 7 continuações, James Bond gerou 23 sequências), os remakes de novelas (“Guerra dos sexos” voltou 30 anos depois, mas esqueceram que a briga entre homens e mulheres mudou muito nesse período), as reedições de enredos no carnaval (a “Aquarela brasileira” do Império Serrano foi um sucesso de público e detonada pelos jurados), os revivals de discos clássicos (os Titãs fizeram um show tocando na íntegra o álbum “Cabeça dinossauro”), entre outras tentativas de se voltar no tempo — e o que foi a febre das festas Ploc, a volta aos anos 80 que transformou adultos em adolescentes por algumas horas? Isso sem falar nos shows com hologramas de Michael Jackson, Renato Russo, Cazuza e tantos outros.

Essa reprodução de clássicos não chega a ser uma novidade. Walter Benjamin já escrevia em meados do século passado sobre a reprodutibilidade da obra de arte, que perde sua aura ao ser copiada e deslocada no tempo e no espaço. O show do Queen, claro, perdeu essa aura ao ser tirado de 1985, colocado numa máquina de teletransporte e desembarcado em 2015. Mas só para quem tentou assisti-lo com aqueles olhos. O olhar agora é outro. Nossa íris hoje tem um brilho diferente daquela época, nossa pupila pode estar mais ou menos dilatada. Cada um à sua maneira. Só sei que igual não está. Quem se abriu para curtir um novo show, um novo Queen e um novo vocalista pôde ter mais uma grande experiência de vida — e descobriu até que Adam Lambert é ótimo, acredite. Felizes são aqueles que puderam ver o arrasa-quarteirão Freddie Mercury em 1985 e, 30 anos depois, se deliciaram com uma outra emoção, trazida por Lambert, Brian May e Roger Taylor. Todos os que se reinventaram e conseguiram manter o olhar infantil, aquele que não rejeita o novo e está sempre aberto ao diferente: you are the champions!

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