Nega do cabelo lindo


“Nega, vou te fazer um apelo
Quer ser dona do meu lar?
Cuide mais do teu cabelo”
Esses versos são da música “Cabelo danado” e foram gravados no ano passado por Casquinha da Portela em seu DVD, que contou com as participações de Zeca Pagodinho, Monarco e Beth Carvalho, entre outros. Tocou no meu Ipod e minhas sobrancelhas levantaram. Que raio de letra é essa que diz que “Se quiser ser dona do meu lar / E não ser tratada de lelé da cuca / Ou penteia com pente de ferro / Ou então tem que andar de peruca”?!? É a tal da obra datada, que deslocada no tempo perde o sentido e causa estranheza. Quando foi lançada, em 1975, no álbum “Partido em 5”, podia ser bem recebida nas rodas; hoje, 40 anos depois, não combina mais com o tipo de sociedade que construímos.
Casquinha, para quem não conhece, é um dos mais importantes compositores da história da Portela. Já merecia uma estátua na quadra só por ter sido o primeiro parceiro de Paulinho da Viola em sua chegada à azul e branco, com o samba “Recado”. Mas sua obra é muito maior que isso, com clássicos como “Falsas juras”, “Gorjear da passarada” e “Outro recado”. Ou seja: merece duas estátuas.
Ele não é o único sambista a ter em sua discografia músicas de gosto duvidoso, que denotam o preconceito vigente em uma época. Há diversos exemplos de sambas com uma abordagem grosseira em relação às mulheres, aos negros, aos nordestinos, às minorias em geral. Sinhô cantava nos anos 20: “Se essa mulher fosse minha / Apanhava uma surra já já / Eu lhe pisava todinha / Até mesmo eu lhe dizê ‘chega’”. Nos anos 30, Noel Rosa escreveu que “mulher indigesta merece um tijolo na testa”. Germano Mathias, nos anos 70, gravou: “Êta nega tu é feia / Que parece macaquinha / Olhei pra ela e disse / Vai já pra cozinha / Dei um murro nela / E joguei ela dentro da pia”. E Zeca Pagodinho, já no fim do século passado, cantou em “Faixa amarela”: “Mas se ela vacilar / Vou dar um castigo nela / Dar uma banda de frente / Quebrar cinco dentes e quatro costelas”.
Mas é isso: foi no século passado. Ficou lá. Nosso admirável mundo novo não comporta mais versos assim. E aqui não cabe qualquer tipo de revisionismo. As músicas refletiam o pensamento daqueles dias, e crucificar os autores é incompreender seu contexto histórico — assim como é descabido chamar Machado de Assis de racista, como aconteceu recentemente.
O importante é refletir sobre o impacto que canções assim têm nas minorias que são atingidas. Voltando à música de Casquinha, imagine o desconforto que as meninas negras da Portela sentiam ao ouvir esses versos cantados no terreiro. Pense de que forma isso atingia a autoestima delas. Pensou? Pois bem, provavelmente sua imaginação não chegou nem perto do sentimento real. Dói. Machuca.
Felizmente os tempos evoluíram, e hoje a sociedade já rejeita esse tipo de expressão. É a era do politicamente correto. O mundo ficou mais careta, dizem. É verdade, ficou mesmo. Não se pode mais falar tudo que vem à mente. Mas isso não é incompatível com a liberdade. Ao contrário. A proteção às minorias esmagadas em outros tempos as libertou de uma opressão silenciosa, mas ensurdecedora. Que estava por toda parte, mas era invisível. Só quem via isso cotidianamente eram as vítimas. Tirar essas pessoas da posição de inferioridade é a maior das liberdades que se pode querer.
É claro que o politicamente correto é chato. Que o exagero na patrulha tira um pouco de sal do dia a dia. É preciso ter bom senso e jogo de cintura para que tudo não acabe numa camisa de força. Mas se esse é o preço a se pagar para livrar tantas pessoas de um sofrimento mudo, vale a pena.

