O sádico prazer pré-olímpico

Chama a atenção o prazer sádico de parte dos cariocas ao compartilhar aqui as notícias negativas sobre a preparação do Rio para as Olimpíadas. Dia após dia, vemos publicações que mostram o despreparo da cidade em alguns aspectos virem seguidas de frases como “vergonha olímpica”, “a máscara caiu”, “e agora, prefeito?”, “o pior ainda vai aparecer”, “mico mundial”, etc. Dá pra imaginar a cara de alguns por trás do computador, babando de satisfação, ao “desmascarar” a incompetência alheia. Existe um prazer em se mostrar crítico, olhar afiado, atento ao que acontece ao redor. Mas o dedo apontado para o outro parece ser a única ação que lhes cabe nessa joça (a outra é batê-lo no computador, esculhambando o último vazamento encontrado na Vila dos Atletas). O que esses ombudsmen olímpicos têm feito pela cidade, além de textões facebookianos? Ou alguém acha que a poluição da Baía é culpa apenas do governo estadual (e que a população não tem seu quinhão de responsabilidade nesse e em outros cocozais)?

Aqui não há uma condenação das críticas a pontos negativos da organização dos Jogos. Elas são importantes, ajudam a reparar equívocos. Uma visão realista e engajada da cidade nos ajuda a andar pra frente, a correr atrás do que é bom, a não se acomodar com falhas de outros carnavais. O que me causa espanto é a quantidade de gente que apenas vê as desgraças – e as amplifica.

A vida nas redes sociais favorece os “críticos de ofício”, já que porradas virtuais rendem muitos cliques e polêmica (talvez menos apenas que os gatinhos fofos). Viramos um exército de Barbaras Heliodoras apontando nossas penas rabugentas contra tudo e contra todos – e esquecendo que, mesmo a temível Barbara, muitas vezes elogiava os belos espetáculos teatrais a que assistia.

Mas muitos cariocas, não. Vão à nova Praça Mauá, claro. Mas só elogiam a si mesmos, nas fotos que tiram por lá para usar de perfil no Instagram. Não respeitam o sinal, mas reclamam do trânsito. Criticam a desorganização dos eventos, mas furam a fila. Depois, do conforto do ar condicionado, vomitam nas redes sua amargura cidadã.

Algumas timelines são um exercício de mau humor diário. Essa prática cotidiana deve trazer mais prejuízos ao fígado do que uma garrafa de 51. E, no momento em que o mundo todo está olhando pra gente, a posição mais confortável é mesmo a de ajudar a sentar a pua. Ali, assistindo de camarote, não tem erro. Se a Olimpíada for ruim, “você avisou”… E se der certo, você vai pra Copacabana tomar uma cerveja com os gringos. Afinal, ninguém é de ferro, não é mesmo?

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