Um show para ver de olhos fechados

Paulinho da Viola e Marisa Monte cantando juntos no mesmo palco não é um show, é uma experiência sensorial particular. Ali o público não se mexe na cadeira, mas se transporta para vários outros lugares. Não tem “tira o pé do chão” nem dança frenética. Tudo é minimalista, no palco e fora dele. Os gestos são lentos, tímidos. A respiração é pausada. O tempo passa em outra rotação para quem está na bolha. Os segundos duram horas. As horas passam num piscar de olhos. O relógio gira em sentido anti-horário. O ponteiro se move em zigue-zague.

A plateia em nada se parece com o que se vê nos outros shows. Há respeito. Solenidade. Cerimônia. Mas é uma reverência íntima, sem não-me-toques, rapapés ou mesuras. Afetação zero. É aquele silêncio tipo “deixa o Picasso terminar o quadro dele” ou “peraí que Beethoven tá escrevendo o último movimento da sinfonia, beleza”? Não cabe nem o “Fora, Temer” comum a nove em dez shows hoje em dia. Ali dentro não tem Temer, Gilmar ou Joesley. É outra dimensão, mermão. Nada me aborrece.

Até para cantar junto tem uma certa inibição. É uma forma de, educadamente, não competir com a emissão quase sussurrada de Paulinho. São os próprios ouvidos que pedem para deixar o caminho livre pra voz que vem do palco. Marisa faz soar seu canto de sereia, hipnotizando um a um, como marinheiros em alto-mar, fisgados pelo som e atraídos por aquele contra-canto. É como se Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Inaê, Janaína, Iemanjá e todas as demais rainhas do mar estivessem à nossa frente, espalhando melodia pelo ar. E a multidão entra em transe, deslizando pelas águas daquele rio que passou em sua vida.

A cada canção, uma nova viagem. Com “Esta melodia”, Paulinho relembra a quadra da Portela entoando os versos de Bubu, e lá vamos nós, rompendo o dia e encontrando a felicidade em Madureira. Revivemos o sofrimento de Argemiro, as lágrimas de Manacea, as páginas belas de Monarco, o riso choroso de Candeia. O clima bucólico presente nestas obras, com gorjeios da passarada, águas dos rios, rouxinóis e céus resplandecentes, alimentadas no clima rural de Oswaldo Cruz, contamina a plateia. É momento de contemplação. Hora de encostar na cadeira como se estivesse deitando numa rede, admirando as estrelas, conectado à natureza.

Nessa hora meu pensamento vagueia, na dança da solidão em que se encontra cada um de nós. Ninguém assiste a um show de Paulinho e Marisa acompanhado. É experiência solitária, introspectiva, de olhar pra dentro, sem comentários laterais, reflexiva. Ali não sou eu quem me navega. E o coração se deixa levar por cada dó maior que vem do palco. É show pra ver com os olhos fechados.