Memórias, desejos, alegrias e aflições vividas ao longo dos 23 anos do artista Cássio Murilo


Quem passasse pelos arredores daquela concessionária da cidade de Birigui, interior de SP, naquela exata tarde de dezembro de 2009, veria um rapaz analisando cada um dos detalhes de um já surrado fusca da cor azul diamante, raríssimo nos dias de hoje, listado nos catálogos da fabricante Volkswagen durante apenas quatro anos — de 1969 a 1972.

O adolescente, a um mês de completar 18 anos, contemplava o painel que imitava madeira de jacarandá, o estofado — ainda que refeito — era preto liso como o do original e o motor impecável — e ele conhecia todas essas características. Ao abrir uma das portas, no entanto, o vidro despencou para dentro da lataria, mas nada que algumas reformas não resolvessem. Apenas por curiosidade:

- Quanto?

- Três mil.

Com R$900 poupados ao longo da adolescência, não seria difícil se sacrificar para conseguir mais um pouco e realizar o sonho do azul diamante. Acordos com os pais resultam em desentendimentos e, por consequência, nada de fusca. Meses depois, um anúncio online descrevia o mesmo carro desejado pelo garoto, comprado por outra pessoa, agora à venda por R$7.000.

Anos mais tarde, já em Ponta Grossa, Cássio Murilo lançaria o seu terceiro álbum; Meu Azul Diamante(2014). Gravado de forma totalmente independente e com alguns equipamentos emprestados, mas com um repertório de músicas que formam um emaranhado de memórias, desejos, alegrias e aflições vividas ao longo de seus 22 anos de idade. Se não pôde ter, quando mais novo, algo que tanto quis e que lhe era importante, decidiu emprestar o sentido da simbologia daquele carro em sua vida à arte que ele mesmo produz.


As freiras, as notas e os astros

Entrevista dada ao projeto Vitrine Vinil, em 2014

Além de Meu Azul Diamante, Cássio tem mais dois álbuns lançados; Sinastria Poligâmica (2012) e Café de Plástico (2013). O primeiro deles — gravado durante a greve da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), na qual Cássio cursa Engenharia Mecânica — traz canções inspiradas em oito mulheres diferentes, daí a poligamia. Já a “sinastria” revela um lado mais exotérico do jovem (sabe decifrar se o seu futuro será afortunado ou não através da leitura de mãos); quando dois mapas astrais se encontram, formam uma sinastria. O álbum carrega este título por considerar que de certa forma há uma ligação entre todas as musas inspiradoras e ele próprio. O segundo álbum foi gravado com um celular, considerando apenas o primeiro take de cada música, em meio a uma mudança de apartamento. Experimentalismos de um jovem artista.

O interesse pela música começou por incentivo da mãe, dona Magda, que matriculou Cássio em aulas de violão quando o filho ainda tinha sete anos. “A criança precisa de um escape”, dizia ela. A compreensão da música como ferramenta de expressão, no entanto, surgiu a partir dos 10 anos de idade.

- Minha mãe imaginava que aquilo me serviria um hobby. Hoje em dia eu uso a música muito mais como uma arma do que como um escape.

Renato Russo era o ídolo-mor, justamente por destoar do estereótipo até então conhecido por ele do que seriam astros do rock. Um professor universitário, de óculos, totalmente “deslocado” e “diferente” da cena em que estava inserido, com um violão pendurado no corpo, cantando letras que traduzem sentimentos. Na época, Cássio era a única criança negra na classe, o menor de todos os meninos e chegava à escola de fusca. Ali surgiram as primeiras identificações com o vocalista da Legião Urbana.

Já com gana de se expressar, mas sem saber ao certo como proceder para escrever uma canção, Cássio compôs aquela que considera sua primeira obra, em “parceria” com uma freira. Na saída da missa, a irmã Marilu vendia livros com poemas próprios aos cristãos que por ali passassem. Dona Magda não hesitou em comprar um deles e Cássio, ao chegar em casa, ficou intrigado com “Anoitecer”; quatro estrofes de quatro versos dispostas na contracapa da brochura. Uma progressão de acordes simples e uma melodia agradável aos ouvidos seriam o bastante para orgulhar o recém-autor. A gravação original, feita em fita K7, no ano de 2003, é uma das músicas que compõe o Sinastria Poligâmica. A irmã Marilu nunca mais foi vista pelo menino e muito menos informada sobre a inusitada parceria.


O antigo e o novo

Quem quer que conheça Cássio Murilo sabe que o antigo sempre o atraiu; desde os conhecimentos aprofundados sobre carros que já não são mais fabricados, passando pelo interesse visceral pela fotografia analógica — influência do pai que ainda trabalha como fotógrafo –, até os olhos brilhando ao falar de cinemas desativados tanto em Birigui, quanto em Ponta Grossa.

O Estorvo da Esquina, música presente no álbum Meu Azul Diamante, apresenta a decadência de um cinema sendo narrada em 1ª pessoa pelo próprio prédio. Uma referência ao caso de 2014 do Cine Império, e ao Cine São Nicolau, na cidade-berço de Cássio. As respostas dos porquês do encantamento pela concepção dos cinemas de rua, uma vez que não se interessa tanto pela 7ª arte em si, ainda são muito vagas, mas sempre associadas a memórias de infância com ou do próprio pai.

Em 1996, aos quatro anos de idade, Cássio foi com o pai a Araçatuba, cidade vizinha de Birigui, para ver O Corcunda de Notre Dame, no Cine Peduti. Dias depois, no caminho de volta para casa, ao passar por um muro baixo, com uma pichação azul clara, o pai ao volante do fusca aponta e comenta:

- Filho, aqui era um cinema!

Tratava-se do Cine Pérola, mais um para a “coleção” de cinemas que Cássio guarda na memória. Anos depois, o SESC de Penápolis iria fazer uma série de apresentações teatrais em Birigui e o local escolhido foi o Cine São Nicolau, uma das inspirações para O Estorvo da Esquina. Ao longo de uma semana, diversas pessoas responsáveis pela mostra tentaram “revitalizar” o lugar à medida do possível até que finalmente, a casa foi aberta. Três da tarde, domingo de sol. A fila que dobrava a esquina estava repleta de crianças com seus pais, mas muitos dos mais velhos estavam ali pela nostalgia, e isto inclui Seu Dalcídio.

Já no saguão, os olhos de Cássio visitavam cada canto do lugar. Na sala, acomodados em seus lugares, Seu Dalcídio transborda emoção. Theme from a Summer Place, música “tema” de vários cinemas do Brasil na década de 60 durante os momentos que precedem a projeção, ecoa pelo ambiente. A nostalgia invade o pai e o filho fica intrigado. Da peça, pouco ficou preso à memória. A atenção do mais novo, então com 11 anos, estava voltada às paredes, à iluminação, a cada uma das poltronas. Lembranças guardadas até hoje, ainda que distorcidas pelo tempo.


Ponta Grossa e as experiências princesinas

Astrid no palco do projeto Sexta às Seis, apresentando a autoral Fernanda is Such a Dangerous Name

Primeiro dia, quatro da manhã, 2011. Com o corpo cansado das quase dez horas de viagem de Birigui até Ponta Grossa, Cássio deita no colchão sem lençol, ainda vestindo as roupas com as quais viajou, dividindo um quarto com duas pessoas que não conhecia, em uma pensão na qual nunca tinha pisado. Depois de apenas três horas dormidas, foi acordado por um dos rapazes que já dormiam no momento em que ele chegara:

- Cara, tem aula às 8h20.

A recepção foi amigável, justamente pela diversidade de pensamentos, personalidades e pessoas presentes na cidade, por conta das duas universidades públicas. Por sorte, um dos rapazes com quem dividia o quarto naquela pensão, era da sua sala — já habituado com o cronograma de horários, ao contrário de Cássio, que foi convocado em 4ª chamada.

Aqui, o artista encontrou a possibilidade e a liberdade de ser, de fato, um artista. Já no segundo dia de aula, conheceu aquele que viria a ser um dos parceiros na música, Glauco Manoel, com quem formou sua primeira banda na cidade, a Smoke Cigarettes. Depois tocou como baixista substituto em uma banda de reggae, a Hakuna. E posteriormente, sua banda atual, na qual é vocalista, baixista e letrista das canções autorais, a Astrid.

Alexandre Cosati, atual guitarrista da Astrid, assistia a um show da Hakunna ao lado de seu amigo, Kawe Kallai, no extinto Cine Citá, em 2011. A figura de Cássio no baixo chamou a atenção do segundo, que não hesitou em sugerir:

- Tá vendo aquele cara ali? É com ele que você tem que formar uma banda.

Formam-se os laços entre os três e mais outros através de amigos em comum. Em 2014, Kawe vem a falecer e meses após seu falecimento, sua mãe distribui alguns de seus pertences entre os amigos. Dentre eles, sua guitarra dourada, apelidada de Astrid, que foi confiada a Cosati. Não muito tempo depois, surge a banda, como forma de manter viva a memória do aglutinador daquele grupo.

No início, havia certo desconforto de Cássio em tocar o projeto, pelos acontecimentos ruins ainda estarem muito recentes. Mas aos poucos o então vocalista percebeu que era algo que, em certa medida, tinha de ser feito. Convidou o baterista Alan Vaz Mainardes e estava formado o power trio. Atualmente, a banda se apresenta com frequência pelos bares e casas da cidade. Tocaram recentemente no projeto Sexta às Seis e conquistaram o público logo na primeira música, a autoral Fernanda Is Such a Dangerous Name. O nome da Astrid vem conquistando espaços cada vez maiores em Ponta Grossa e é evidente que Cássio Murilo Gomes, 23 anos, cristão assumido, católico apostólico romano, praticante ainda hoje, anos depois de ter sido coroinha, deve tudo a Deus.

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