
Cores que só eu vejo
Domingo de manhã, dia bonito, e eu ainda cansado de
não viver. Mas, para minha cada vez mais rara sorte,
captei ela na minha câmera verbal:
na varanda, ali na casa-prédio, aquela da janela azul
e paredes cor de pele, mas sem vida.
Biquíni também cor de pele, camufla-se nas paredes
e nos meus entremeios. Sentou-se num pallet, agora.
Esfrega uma toalha, que coloca e tira de um balde.
Parece cantarolar algo animado,
mexe a cabeça no ritmo da canção e fecha os olhos para cantar.
Imagino, vendo daqui, que ela tem graça, sentimento e beleza
e que já passou dos 30.
Talvez ela seja triste, mas, pela forma como pendura as toalhas,
com certeza é delicada.
Ela, ali sentada na varanda, com seu jeito imperfeitamente imbatível,
deve adorar viajar lugares e pessoas e
viver com total urgência. Sinto sua liberdade daqui.
Sinto também uma pontada de inveja.
Acende um cigarro, filtro branco.
Ela brinca com a fumaça que solta pela boca. Bolinhas brancas dançam no ar.
Encosta no parapeito, respira fundo, olha para o céu como quem faz um desejo
ou uma oração. Posso ver os lábios se mexerem e os olhos contemplarem.
Qual será sua religião? Seu livro preferido? Será que gosta de filosofia?
Qual música a faz fechar os olhos para cantar?
Observo ela soltar a última nuvem de fumaça antes se livrar do cigarro e
os movimentos dançantes ao pendurar os lençóis molhados.
Suponho que ela é daquelas pessoas espiritualizadas e que acreditam na intuição.
Vira de costas e canta observando seu reflexo no vidro da janela.
Então, como se fosse uma despedida,
mexe o corpo na velocidade da música que ouço sem ouvir,
espalhando uma sinfonia de cores
que só eu vejo.
