Meu Clamor

Enquanto eu ouvia um vídeo sobre o Dia da Independência dos Estados Unidos, foi interessante saber de uma crítica sobre a degeneração de seu sentido. Mas, em determinado momento, o homem que falava no vídeo leu uma parte de um depoimento de uma pessoa que passou pela travessia do Reino Unido para América, naquela época. De como eles chegaram nesse continente, de como foi brutal, de como as pessoas sofreram e do que elas abriram mão, por um tempo, apenas para aproveitar dela novamente: a liberdade.

Depois, houve mais algumas críticas, dessa vez foi sobre a forma que os EUA têm sido governados — o cara é libertário -, mas alguns pontos são bem… Importantes, e eu concordo com eles.

Por exemplo, a afirmação de dependência no Estado para tudo. Isso é algo que já pensava antes. Não sou libertário, eu ainda acho que precisa haver um corpo governamental.

Mas ele, o cara do vídeo, falou da crise de valores que o mundo ocidental tem passado nos últimos anos. No niilismo. Na falta de esperança. O cara em questão não falou disso exatamente, mas é algo como a fé decadente no deus-Estado.

Eu acho curioso que a crítica de muitos contra a religião vêm de pessoas que se tornam dependentes de algo maior. É a mesma coisa, basicamente, só que com o Estado. Os maiores críticos da sociedade, atualmente, tem sido aqueles que mais demandam apoio e/ou recursos do Estado. Não chega a ser algo hipócrita, mas é como pedir recursos ao seu “Inimigo”, ou ao representante daquilo que defende. E então, na tentativa de corrompê-lo às suas necessidades, barra qualquer outro de assumir as posições de liderança no Estado.

Especialmente aqueles que alegam que a alternância de poder é necessária, o faz apenas com aqueles que são seus semelhantes. Querem controlar tudo — nós, o Estado, ou qualquer outro que aspirem ao seu poder, sua defesa -. A forma de falar, como gastamos nosso dinheiro que conquistamos, como devemos trabalhar, de que forma devemos seguir com nossos negócios e desígnios.

Eu entendo perfeitamente que deva haver certos limites. Eles devem ser impostos, questões como construções civis devem ter alguma regulamentação, por exemplo. Especialmente por conta da segurança, nem só dos seus proprietários, mas dos que vivem à volta, onde uma obra irresponsável daquele puxadinho, ou de uma cisterna pode afetar o terreno do vizinho. Um abalo no terreno pode afetar estruturas à volta.

Mas coisas fundamentais como a fala? A livre-expressão? Como pra onde o dinheiro deve ir e ser gasto para além das obrigações com o Estado?

Então eu criei paralelos com algo que ele disse e o Brasil:

“A Democracia só funciona enquanto as pessoas que não usam do poder do Estado em benefício próprio. Se isso passar a ocorrer, as pessoas só votarão em quem as beneficiar”

A Democracia nunca funcionou no Brasil.

As pessoas das mais pobres as mais ricas sempre demandaram/quiseram que alguma coisa fosse dada à eles a mais.

Eu mesmo espero isso. Não vou me isentar.

Quando eu faço um concurso público eu estou, de certa forma, esperando isso. Isso pela minha própria incompetência. Pela minha falta de conhecimento e/ou capacidade de tentar construir algo meu, algum negócio ou meio de prestação de serviços.

Ah… Tem também que o estado brasileiro não ajuda muito, mas sinceramente, não vou usar isso como desculpa. A informalidade está aí.

E, por mais que achasse que se você não seguir as “regulamentações governamentais” para tudo me fazia tão mal quanto os que estão no governo agindo de forma corrupta, isso é uma auto alienação sem tamanho!

Afinal, é pedir para os que gastam os recursos que eu posso vir a acumular os gastem bem, direitinho, mesmo sabendo que não vão!

Ah, a servidão desonesta.

A doce subserviência que o brasileiro tem com quem é “maior que ele” aliada à caça predatória de quem está ao seu lado.

Doce, doce moral brasileira.

É, eu percebi isso agora. É esse o motivo pelo qual os brasileiros não se unem. Falo dos mais ignorantes — do que ignoram as coisas à sua volta — mesmo.

Lindo…

E quanto está em uma turba, ele grita meia dúzia de xingamentos e se sente como se tivesse feito alguma diferença. Diz que “político/empresário é tudo corrupto”, enquanto apunhala pelas costelas, nem pelas costas, o seu semelhante. Tudo por um pouco mais de tutano. Desrespeita seu semelhante, olha tonto com inveja daquele que está um pouco melhor, mas ainda em nível semelhante. Enaltece aquele que nada busca, além da ruína dos outros e satisfação própria ou de uma agenda. Seja o pequeno bandido ou o grande político.

Mesmo quando fala contra um bandido, trata com tamanho respeito outro que parece estar alisando com tamanho carinho e cuidado, quase com uma voracidade para apalpar as partes íntimas com os lábios as genitálias alheias. Isso faria inveja ao mais submisso dos submissos em um círculo de BDSM.

Por cima disso tudo! Disso tudo!

Quando vem uma pessoa, sem nenhuma ligação ou preferência por político A, B ou C e fala “Eu gosto do meu País, quero vê-lo melhorar” é recebido com diversos olhares de desdém, dos reservados à aqueles que não tem um fio de sanidade restando em sua rede neural.

Desses, alguns dirão “o Brasil é uma merda mesmo, não tem jeito”. Outros cochicharão “não faz diferença mesmo, você não escolhe onde nasce, isso é algo completamente arbitrário”. Outros falam “devemos implantar uma ditadura para resolver tudo!”.

Tolos, tolos… Tolos!

Todos eles!

Não veem que o que carregamos, o que levamos ao futuro, criamos aqui no presente… Nada mais é do que a continua de tantos outros que SOFRERAM para viver uma vida um pouco melhor. Por suas famílias, por seus amigos. E acima de tudo isso, houve aqueles que sofreram para além deles mesmos e de seus próximos, para o ideal da Nação. Por algo que seria herdado por todos os brasileiros.

Hoje em dia… Ouvimos falar deles? De alguns deles?

Alguns poucos, sim. Dom Pedro, Dom Pedro II, princesa Isabel, Deodoro da Fonseca, os Pracinhas, Getúlio Vargas…

E ainda são mal falados! Alguns de forma justa, outros nem tanto.

Dom Pedro era um adúltero canalha. Mas que sacrificou a si mesmo, sua saúde e sua família para manter tanto a sua nação natal estável e independente após a Independência do Brasil.

Dom Pedro II era visto como um encostado que vivia dormindo em seu tempo. Hoje em dia é um dos que a melhor integridade histórica e popular, afinal, este viveu literalmente pelo Brasil. Acabou exilado… Apunhalado nas costelas.

Princesa Isabel, por mais que tenha libertado os escravos negros, é vista como uma segregacionista. Mesmo havendo provas de sua preocupação com a população de libertos e o abandono que sofreram.

Marechal Deodoro apunhalou, sim, foi um militar, sim. Mas foi traído, também, usado. Infelizmente a gênese da Democracia brasileira já era manchada.

Os Pracinhas foram mandados à guerra e esquecidos, praticamente. Tomam as vidas que foram perdidas em uma guerra que sequer era nossa como se fosse nada. E ainda assim, voltaram em sua maioria vivos e vitoriosos. As relíquias de guerra apresentadas em praça pública são depredadas dia e noite.

Getúlio Vargas, curiosamente, um ditador, é visto com bons olhos. Como o melhor líder que o país já teve. Tanto que foi reeleito.

Essa sanha por controle existe até no coronelismo, que assola a nação até os dias de hoje. Os Coronéis ainda existem, ainda conseguem chegar ao poder, inclusive com um na presidência! Foi condenado, perdeu seu cargo, direitos políticos e mais tarde voltou ao poder como Senador… E outro Coronel ainda anseia pelo poder, mais uma vez.

É muito difícil gostar de nossa Nação, vendo as coisas ocorrendo como estão. Claro, Nação difere de Estado, mas o entendimento do homem comum e o que é ensinado a nós dificulta muito ver essa nuance.

Com isso, com grande tristeza, vemos o homem comum — como eu — não sabendo o que fazer. Se tenta se eleger na política — e consegue — tem que se submeter a muitos dos joguinhos de interesse e corrupção, só tendo três escolhas:

1- Submeter-se à corrupção

2- Viver à sua margem, falando dela ou não, sendo relegado a um ostracismo

3- Ser morto, o que nem sempre é uma escolha em si, mas uma consequência de querer lutar ou de ter o poder para tal

E enquanto vemos tantas coisas que só nos tiram a fé de uma melhoria, para além da esfera de poder estatal, no nosso dia a dia mesmo. Mortes se tornam um fator corriqueiro, sequer pensamos ou refletimos muito.

Não dá para concluir outra coisa se não que tudo está em ruínas. Tanto no sentido literal quanto em nossa moral. E sofremos com pragas antigas, como o messianismo, aspirações a um poder total que tudo controla ou a destruição total do sistema e tudo que está ligado a isso, inclusive a Nação.

Nisso, eu sinto que sequer falar direito eu posso… Sequer me expressar, sem medo, eu posso.

“Medo de que? De ser mal visto? De ser ignorado?”

Medo de ser odiado. E sim, de ser ignorado. Repudiado.

Mas…

Eu olho, então, para o passado e para mim mesmo. E vejo exatamente como eu estou agindo. Agindo da mesma forma que as pessoas que tanto critico estão. Ou melhor, que não agem. Só repetindo o mesmo. Enquanto me embebedo em diversões fúteis. Em uma apertação de botões frenética que só me dá um pouco de “hormônios felizes” e tudo fica bem. Bem miserável.

Drogado por mim mesmo.

Eu que vivo criticando o uso de drogas lícitas ou não que tentem nos deixar em torpor.

Ah, hipocrisia, te bebo como uma gelada! Faz a mim sorver a ti como se fosses um de seus amantes mais lascivos.

Não mais.

Não.

Mais.

Essa é a minha voz.

Esse é o meu grito.

Meu clamor.

Não por liberdade, apenas. Não por redenção. Não por revolta.

Mas por sanidade. Por mim. Pelo meu futuro.

Passa-se tempo demais e não damos valor ao que somos. Ao que outros foram. Não vivemos nosso potencial.

Ficamos confinados a limites burros que nos são impostos. Tanto por aqueles incapazes de sair para além de sua mediocridade auto imposta — ou imposta a eles -, quanto por pessoas que nos querem assim.

Fáceis de manipular. Fáceis de prever. Não dóceis como carneirinhos, mas como cães.

Cães confinados a um espaço e que, se possível, reagem com um imenso prazer em estraçalhar seus rivais indicados por seus donos, com um simples comando. Mal vendo que são outros cães, como nós.

Mas em meio à tantos cães é difícil saber quem é o lobo que nos manipula, que nos leva a uma direção que só eles sabem. Quem nos comanda.

É fácil dizer quem é quando estão em posição que demandem liderança. Novamente pensamos na política. Mas e em meio à matilha de cães confinados às suas gaiolas, no canil comunal? Os lobos que nos rodam, dentro e fora de nós, lembrando a Hobbes?

Não mais.

Eu não sou um cachorro.

Eu sou um homem. Tanto no sentido de ser humano como de sexo.

E não devo ter vergonha disso. Não devo submeter por ser o que sou. Assim como ninguém deve. Submeta-se, se quiser, por escolha própria. Mas não espere e nem demande que eu o faça.

Eu não vou mais submeter a minha voz ao silêncio. Pois sinto que ao prender a minha voz, prendo meu fôlego. E ao prender meu fôlego prendo minha vida.

Enquanto ela se esvai e escorre por entre minhas mãos.

Chega de me entorpecer.

Chega de ser comandado de forma burra.

Eu sou eu. Não sou um grupo.

Eu sou as minhas ideias, que com outros posso aprender e compartilhar. Não sou um grupo de ideias o qual fui assimilado.

Chega de culpar o passado pelos meus ou seus erros, reais ou não.

Eu escolho carregar uma tocha que contém o fogo da vida de outros que viveram antes de mim e passaram por mim. Que sopraram em mim a vida de suas ideias, e eu escolhi quais carregar comigo.

Posso dizer que eu sou eu, mas eu não sou só.

Até aqui muitos se sacrificaram. Poucos conhecidos e inomináveis, incontáveis desconhecidos. E por eles, também, eu quero uma vida melhor. Para poder passar a frente o fôlego de minhas ideias a fim de dar vida a algo novo e belo.

Não é algo gratuito que deixo à frente, assim como não foi para mim.

Mas isso não vai ocorrer nem enquanto cuspirmos no passado ou querermos viver nele.

Olhamos em uma direção, demos no nome dessa direção de “frente”. E é para lá que andamos. Para lá que vivemos.

Enquanto nossos pés pisam onde estamos. Sentindo a cada momento o chão onde pisamos, fruto da escolha que fizemos, em busca de um novo futuro.

Tudo isso enquanto ouvimos os ecos do passado que nos inspiram ou assombram e relembram de onde nós viemos.

Essa dupla fita em formato de hélice que carregamos em cada uma dos bilhares de células que foram nosso corpo é a prova viva disso.

Dos erros e dos acertos. E é minha responsabilidade os carregar em frente. Não amaldiçoando meu passado, ou me bendizendo exclusivamente dele. Mas me responsabilizando pelo que carrego, ainda assim vivendo como Eu, hoje.

E pelo sangue que tantos outros que aqui passaram, eu sigo com os olhos virados para frente, enquanto sinto onde piso, ouvindo por onde passei.

Com isso, retomando à questão da Nação, eu só penso em como o povo tem sido ignorante de parte de sua herança. Como o indivíduo é feito ignorante em suas heranças, lembrando apenas o que é maldito, reforçando a vontade e a ideia de apagar o passado e viver uma vida dupla de penitente e inquisidor.

Ou então reforçando heranças que só estimulem o “jeitinho”, ser “malandro”.

Não é difícil entender porque todos os que torcem o nariz para a ideia de Nação ou de identidade o façam… De certo modo a realidade ajuda, assim como os recortes que nos são apresentados.

Enquanto outros ainda permanecerem como cães, rasgando a carne de um e de outro, não vendo que todos são homens e mulheres participando de um banho de sangue que fornece carniça às hienas e espetáculo aos lobos, não há como dizer que haverá um Brasil. Há apenas um Governo brasileiro.

Assim, o Brasil será um eterno brasil. Nunca uma chama formada, nunca cinzas.

Um eterno estado de embriaguez. E todo o sangue e sofrimento passados só serão pó coagulado e lamúrias ao vento.

Não mais para mim.

Essa é a minha voz. Esse é meu fôlego. Esse é meu clamor.

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