A Jornada do Criador


Rick and Morty é uma das séries animadas mais interessantes e bem construídas recentemente. A série tem ganhado cada vez mais atenção da mídia, e os fãs já não aguentam mais esperar a terceira temporada. E não é por menos: cada episódio é tão único e diferente, cheio de detalhes que passam batido à primeira vista, mas nunca estão ali por coincidência. Ela também trata de temas existenciais e absurdos, utilizando um ritmo dinâmico e um modelo ficcional talvez conhecido por vocês, a Jornada do Herói.

Se você tem Netflix e ainda não assistiu, aproveita e assista.

A Jornada do Herói é bem anterior à série. Segundo Joseph Campbell, estudioso da mitologia nas diversas culturas humanas, existe um modelo de contar histórias, que torna todos os mitos e histórias criados pelo ser humano semelhantes, ainda que tenham diferenças culturais entre si. Desde que Campbell lançou a sua teoria, diversos cineastas e escritores têm utilizado-a. George Lucas com Star Wars e as Irmãs Wachowski com Matrix são exemplos disso.

Porém, até agora, o autor desse artigo nunca viu alguém tão apaixonado e aficionado pela Jornada do Herói quanto Dan Harmon, um dos criadores de Rick and Morty. Harmon leu diversas vezes o livro de Campbell “O Herói de Mil Faces”, adaptando a teoria da maneira que acreditava ser melhor, e criou um círculo que representasse visualmente esse modelo.

O modelo da Jornada do Herói adaptado por Harmon

Pra você ter uma ideia, ele é tão aficionado nisso, que há diversos círculos espalhados na sala dos roteiristas de Rick and Morty, e todos episódios são baseados nesse modelo. Se a trama se encaixar no círculo, ela é boa para um episódio. Se não se encaixar, a ideia é jogada no lixo e tudo é refeito.

Sala dos roteiristas de Rick and Morty

O que eu quero demonstrar a vocês nesse texto, é como a nossa bagagem pessoal influencia aquilo que criamos. Nesse caso, tento mostrar que a Jornada do Herói pode ser aplicada não somente à ficção, e sim à nossa vida, e aqui, temos o exemplo da jornada de Dan Harmon, desde sua adolescência até a criação de Community (outra série interessante, apesar de não ser muito conhecida no Brasil) e Rick and Morty.

É engraçado que nesse universo caótico e sem sentido, muitas vezes não temos respostas para algumas de nossas perguntas, e às vezes só as encontramos na ficção. Ainda que a Jornada tenha um visual de auto-ajuda, ela pode nos lembrar de que a nossa existência é cheia de desafios, e até obter aquilo que desejamos, devemos ultrapassar vários testes e acumular alguns fracassos.

ANTES DE TUDO, O CONCEITO DA JORNADA DO HERÓI

Modelo de Vogler para a Jornada do Herói

A Jornada do Herói foi adaptada por diversos autores, sendo dois deles o próprio Dan Harmon e o outro um ex-consultor de histórias da Disney, Christopher Vogler. Usei a adaptação de Vogler para “encaixar” a vida de Harmon.

De acordo com Christopher Vogler, existem 12 estágios da Jornada:

1) Mundo Comum

2) Chamado à ação

3) Recusa ao chamado

4) Busca por mentores

5) Travessia do 1º limiar

6) Testes, Aliados, Inimigos

7) Aproximação da Caverna Oculta

8) Provação

9) Recompensa (apanhando a espada)

10) Caminho de Volta

11) Ressurreição

12) Retorno com o elixir

Em cada estágio o protagonista da história está em uma situação específica diferente, que exige dele a tomada de ação, dependendo da complexidade da ação. A ideia aqui é explicar didaticamente os estágios e relacioná-los com fatos (dramatizados aqui) da vida de Dan Harmon. Juntemos uma aula com uma pseudo-biografia.

Então venha que a aventura já vai começar (ouça o som da vinheta da Sessão da Tarde).

Dan Harmon aqui preparando você para a jornada

1) Mundo Comum

Inicialmente, o herói-protagonista, vive sua vida comum diariamente. Isso é o começo da história. Ele está em uma espécie de zona de conforto, mas muitas vezes, os conflitos e empecilhos já estão ali, esperando serem trazidos à tona.

Dan Harmon vive aqui a sua rotina de adolescente na década de 80, assistindo em casa inúmeros filmes e seriados que moldariam seu repertório, como a sitcom Cheers, e Duro de Matar. Seu maior contato com o mundo externo eram os elementos nerds da cultura pop. Embora fosse o engraçadinho da turma, conseguia se relacionar melhor com o entretenimento do que com o contato físico das pessoas.

Cheers: uma sitcom que você provavelmente não conhece.

2) Chamado à ação

O herói nessa fase, se depara com uma situação, problema ou desafio, e deve resolver. Ele deve sair do Mundo Comum, e ir para o dito Mundo Especial, onde enfrentará futuramente muitos testes e provações. No geral, é uma escolha e ao mesmo tempo uma obrigação do herói, já que forças maiores a ele o obrigam a sair do Mundo Comum.

Aqui, nosso querido Harmon percebe que a única maneira de conseguir se conectar com as pessoas seria pela carreira de artista, criando seriados, filmes ou peças que cativassem tanto o seu público quanto ele foi cativado na sua adolescência. Mudou-se para Milwaukee, no estado de Wisconsin, onde utilizou suas habilidades de humor em apresentações de stand-up comedy. Lá conheceu Rob Schrab, frequente parceiro de escrita.

3) Recusa ao chamado

Em muitas histórias, o herói nem sempre está disposto a resolver o problema que o assola. Ele tenta ignorar a situação, mas algum evento o obriga a encarar a jornada.

Nessa história, podemos dizer que Dan não foi relutante quanto a sua jornada pessoal. Na visão dele, essa foi sua única opção.

4) Busca por Mentores

Nesse estágio, o herói busca ajuda a um(a) mentor(a), que o prepara para enfrentar o desconhecido. O mentor pode ser físico, espiritual ou simbólico, auxiliando o protagonista com ensinamentos, presentes ou algo que faça a história avançar.

Em Milwaukee, Dan sentia que havia um padrão nas histórias, contudo não sabia exatamente como era esse padrão. Então descobriu o “Herói de Mil Faces” de Campbell, e começou a se aprofundar na Jornada do Herói, analisando filmes e livros que seguiam esse modelo.

5) Travessia do 1º Limiar

Na Travessia do 1º Limiar, o herói finalmente se compromete a entrar no Mundo Especial. É o momento que ele toma o “trem para o destino final”, ciente e disposto das consequências que virão sobre ele.

Dan Harmon e Rob Schrab, seu parceiro de escrita, se mudam para Los Angeles, e de lá, são contratados pela rede de televisão ABC, para desenvolver um projeto de série, e conseguem vender um longa de animação para o diretor Robert Zemeckis, responsável por “De Volta para o Futuro”. A série só tem um episódio gravado, e é cancelada e o longa fica na geladeira por alguns anos. O longa foi lançado em 2006, e era “A Casa Monstro”.

6) Testes, Aliados, Inimigos

Assim que o protagonista encara a jornada, alguns testes, aliados e inimigos surgem. O herói aprende algumas regras do Mundo Especial, passa por algumas provações e conhece alguns dos seus aliados e inimigos. Muitas vezes são testes que preparam o herói para o seu maior desafio no futuro.

Desempregados, Harmon e Schrab criam um festival de curtas online, o Channel 101, uma oportunidade para que Harmon construísse o seu portfólio e ganhasse visibilidade. Os dois são notados pela comediante Sarah Silvermann, que os contratam como roteiristas da sua Sitcom. Harmon, pelo seu temperamento e diferenças criativas, é demitido do programa. Por outro lado, Schrab decide permanecer como roteirista, o que causa um breve rompimento na amizade de Dan e Rob. Silverman e Rob não se tornaram inimigos de fato de Harmon (talvez por um curto período), mas houve conflito.

7) Aproximação da Caverna Secreta

Aqui, o herói se aproxima do seu maior desafio, mas ainda não o enfrenta. Sentimos que o perigo está próximo, junto à recompensa que o herói busca.

Nosso herói, Dan Harmon, percebe a oportunidade de vender uma série à rede NBC. Baseada em algumas experiências que teve em uma faculdade comunitária, Harmon cria Community, e se torna showrunner da série. Embora a série não tivesse muita audiência, produziu um grupo de fãs muito fiel ao programa.

Community, um seriado de Dan Harmon não muito conhecido no Brasil

8) Provação

Esse é o estágio que o herói enfrenta seu maior medo, estando a morte próxima dele. A audiência sente que as esperanças acabam, parecendo o fim da jornada para o herói. Forças maiores estão contra ele, e somente ele pode encontrar suas forças internas para vencê-las.

Mais uma vez, Harmon é demitido. Dessa vez, do programa que ele próprio criou. Depois de três temporadas, devido aos atritos com os executivos da Sony, tiram-no do posto de showrunner para consultor.

9) Recompensa + Caminho de Volta

Na recompensa, o herói sobreviveu ao confronto com seu maior medo, e é o momento de alívio para a audiência. Ele “toma posse daquilo que veio buscar”, mas não se engane: a jornada ainda não acabou. O protagonista ainda está no Mundo Especial, e deve tomar o caminho de volta ao Mundo Comum, com a sua recompensa.

Um ano depois da sua demissão, Harmon é readmitido como showrunner para a 5ª temporada de Community. Enquanto estava fora do projeto, ele e Justin Roiland um animador experiente, formulam o universo de Rick and Morty, e vendem-na para o canal Adult Swim. A série tem uma temporada produzida.

10) Ressurreição

Antes de voltar para o Mundo Comum, o herói enfrenta mais um teste, envolvendo uma situação de vida ou morte. É uma situação com menos intensidade que a Provação. São as últimas tentativas das forças maiores que o herói, de derrotá-lo.

Após a 5ª temporada, Community é finalmente cancelada. Os esforços dos produtores e dos fãs não foram suficientes contra os fracos níveis de audiência. Em contrapartida, Rick and Morty tem uma segunda temporada produzida.

11) Retorno com o Elixir

Esse é o último estágio da jornada. O herói volta para o Mundo Comum, tendo algo em mãos, o que Campbell e Vogler chamam de “Elixir”. Esse Elixir não necessariamente é algum objeto físico, como pode ser também uma lição de vida, ou sensação (de vitória, por exemplo). Essa vitória pode ser também uma transformação. Um exemplo: no início da história, o protagonista pode ser covarde, e no fim, o que ele consegue é ser corajoso.

Depois da segunda temporada de Rick and Morty produzida, a terceira foi confirmada pelo Adult Swim. Rick and Morty tem ganhado cada vez mais prestígio, e é vista como uma série original e inteligente. É dessa forma que Harmon tem conseguido se conectar com as pessoas.

“Look Morty, we’re a success!”- Rick Sanchez

O QUE VEM DEPOIS DA AVENTURA?

Bem, existem muitos outros criativos e storytellers que poderiam servir de exemplo na Jornada do Herói. O mundo do entretenimento não é nada fácil de se adentrar, seja em Hollywood ou mesmo aqui no Brasil, e muitos outros roteiristas poderiam entrar aqui. O que faz de Harmon um exemplo excelente como protagonista dessa jornada é a sua própria fascinação com o modelo, tendo o rigor de sempre utilizá-lo, além dos fracassos que teve na vida até chegar ao sucesso. Em uma entrevista, ele até comenta a importância dos fracassos que acontecem na vida de um criador.

A Jornada do Herói com certeza não é a única forma de se contar uma história, e muitos clichês podem vir dela se ela não for “utilizada” corretamente. Mesmo Harmon, adaptou o modelo da sua forma, que acredita ser “melhor”. No fim o exemplo de Dan Harmon na Jornada tenta apresentar uma mensagem principal: muitas das respostas da vida estão na ficção e muitas das respostas da ficção estão na vida.

FONTES E LINKS INTERESSANTES:

Aqui estão algumas das fontes que utilizei para escrever esse artigo.

  1. “How Dan Harmon Drives Himself Crazy Making Community”- Wired → Essa é uma matéria da Wired onde pude coletar parte das informações da biografia de Harmon. Mostra parte do processo que Harmon utilizava na época que era showrunner de Community.
  2. “Story Structure 101: Super Basic Shit”- Channel 101 → Esse é um dos textos de Dan Harmon explicando a Jornada do Herói. Há outro texto em que ele analisa Duro de Matar, através desse modelo.
  3. O livro de Christopher Vogler — A Jornada do Escritor.
  4. “Rick and Morty’s writer’s room”- Ray Alez → Um texto no Medium sobre o processo criativo da sala de roteiristas de Rick and Morty.
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