A Corda

Leo Fazio
Leo Fazio
Jul 24, 2017 · 2 min read

Apago a luz e sinto o veneno
Afago o fogo em óleo e vejo
A corda chama, ao sonho chego
Pra me provar ao que fui pego
Não há mais nada que eu possa sentir

Pinos caem, a chuva seca
A rua grita e se vê quieta
Alguém morreu com a porta aberta
Ao meu nariz o cheiro entrega
Que ninguém está realmente aí

A cada passo a fila para
A sorte custa o olho da cara
O choro surge e a sirene cala
Embasbacada você fala
Sem saber se vão ouvir

O princípio volta
A certeza solta
Solidão nos lota
E não há como fugir

Se faz o vidro em ilusão
Entregam ouro na palma da mão
Era de tolo, tudo em vão
Mas segue o jogo logo então
Por mais claro que possa ser

A dita cuja ainda é clara
A morte é dura mas não cala
A ordem surra mas só tarda
A voz que é muda logo fala
Mas a pose a deixa cega ao se ver

Da glote ao solo a queda é curta
A haste envolve e a corda puxa
A forca cai, mas não se iluda
A próxima é ainda mais pura
Judas mal começou a nascer

Voltas fazem logo
Soltas pelos poros
Nós tampam os olhos
E o que mais podemos fazer?

Ouço a porta a arrombar
Janelas fechando ao novo luar
Não há mais saída, abortar
Me disparo pra continuar
Se não foi tudo em vão
Agora é

Nos colocam a síntese sobre a mesa
Estragos que trazem agradável tristeza
Alarmes disparam, vá e Veja
Se encoste e meia clareza
A sugestão nos acolheu cegada pela fé

Não há entendimento no que se refere ao sentido
Apenas vacas como pontos vazios
Se há espaço, vaga ao filho
Como recompensa ao seu castigo
E a nova corda então fica de pé

Mais nada sob a mesa
Além de poeira,
Nuvens de incerteza
E o que mais couber na colher

Engula a morte aveludada
O gosto é fino, mas não falha
A cada dose você morre, a cada morte você mata
Veja, então não há mais nada
Entre o fim e a nossa razão

Fecha-se a cortina, segue o ato
Alguns deduzem, mas já é fato
Ter a certeza é desejo inato
“Então venha”, dizem os sábios
Com suas verdades embalsamadas no porão

Padres pecam por socorro
Lambendo a boca do cachorro
Entregam tudo aos apavoros
A vida e todo seu peso em ouro
Eles nem ligam mais pro amassado do pão

Pare e veja tudo
Neste inferno bruto
De casualidade
Sublime é o final

Ao fim de tudo o algoz amigo
Oferece a mão, o pé e o perigo
Em cada face, em cada sorriso
Pode-se ler, mas não arrisco
Pois é tudo feito à nossa imagem

Mas a minha culpa em ninguém cabe,
Cada um foi traído bem como a paisagem
Agora nos resta só o fim ou o bem
E a escolha, bem
Vocês já sabem

Leo Fazio

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Leo Fazio

Tentando sobreviver.