Imersão

Muitos anos no futuro a raça humana teve que abandonar seu planeta natal, o planeta Terra - nome escolhido pelos humanos sem nem consultar as outras formas de vida do planeta (algumas muito mais antigas e com idéias muito melhores) pra ver se concordavam com tal nome. Mas enfim, não cabe a mim julgar, já tenho muitas tarefas pra me preocupar. Continuando, após milhares de anos de existência os seres humanos deixaram seu agora infértil planeta natal para se tornar uma raça-nômade, como será posteriormente catalogada. Com seu planeta totalmente devastado, quase não sendo mais capaz de suportar a vida humana e a maioria das outras formas de vida, e ainda não sabendo da existência de vida inteligente fora de seu sistema, os humanos tiveram um surpreendente sucesso em seu último ato para salvar a espécie. Os tempos áureos da Terra tinham terminado há muito tempo, e mesmo que breve, foi memorável, difícil mas memorável. Talvez apenas por um lapso de razão/quebra de padrão momentâneo a raça humana tenha obtido sucesso em se salvar, como um ato de redenção pelo que os velhos tempos trouxeram, ou talvez tenha sido pura sorte mesmo, apesar de ter o privilégio de ter visto tudo de muito perto (mais do que qualquer um, aliás), eu ainda sou um simples ser de minha raça, cumprindo minha simples função como cidadão de meu povo, que verei em breve.

Creio ter estudado as espécies da Terra da melhor maneira, e principalmente a cultura humana. Acho que quando estou imerso em uma cultura acabo ficando um pouco apegado, mas nunca demais, afinal minha função é de suma importância para o equilíbrio do cosmos. Apesar disso, confesso que me diverti um bocado, afinal não teria escolhido tal função se não fosse me entreter.

Acho que uma das maiores qualidades do ser humano é a capacidade de criar, claro que não são todos que criam, acho que a maioria dos humanos serviam apenas para existir em função de seus inúmeros sistemas sociais, mas não é culpa deles que infelizmente não pudessem exercer sua capacidade total. Talvez a pior qualidade dos humanos é a de subjulgar qualquer um que não seja si mesmo, e uma grande falta de capacidade de se julgar individualmente, é claro que não são todos, ainda bem, e talvez isso seja parte do condicionamento a que eram submetidos. No fim das contas o que me fez tomar a decisão que tomei foi que, ao que tudo indica, o ser humano é uma espécie mentalmente adaptável e moldável, caso contrário eu não teria dado sinal verde para que a Grande Ordem não interferisse de um jeito ruim. Antes da minha imersão talvez minha escolha teria sido outra, mas é muito imprudente tomar decisões científico-sociais apenas com observações, pois só consegui entender realmente o mundo humano quando minha consciência emergiu naquele corpo, o primeiro de todos os outros. Foi minha estreia no trabalho de campo, eu não acreditava quando os outros da minha área diziam que o primeiro corpo é o ponto chave, o mais memorável e também o mais perigoso de todos. Quando minha consciência emergiu e fui transposto para a minha primeira missão na Terra, mais especificamente na sociedade humana, como um ser humano genuíno, foi quando tudo ficou claro, pude acompanhar de perto (mais perto impossível) cada ato e cada símbolo presente nessa sociedade. Foi um baque enorme, a dor de nascer em outro corpo com a mesma consciência anterior é enorme, pior ainda é nascer pra valer, sair de dentro de outro ser para poder então começar meu trabalho de campo, foi uma mistura de dor com euforia, pois estava ansioso pra estrear.

Os primeiros momentos serviram para minha consciência se adaptar ao funcionamento do cérebro humano, entender os sentidos, como a mecânica corporal funciona e etc, algo que demorou em torno de alguns anos humanos. Obviamente no processo eu iria perdendo as memórias da minha consciência original, e talvez isso fosse o mais perigoso do trabalho em campo — ouvi histórias de que alguns colegas se perderam em seus corpos novos e fracassaram com todo o estudo, o que condenou as espécies estudadas a extinção, afinal a Grande Ordem não poderia arriscar permitir que uma raça nova se desprendesse de seu planeta sem muita informação sobre ela, seria muita irresponsabilidade. Enfim, felizmente esse não foi o caso, me preparei muito pra este trabalho e consegui concluir a primeira fase, ou primeiro corpo, com sucesso (apesar quase ter falhado em alguns momentos).

Os primeiros anos, como eu disse, serviram para eu me acostumar com meu novo contexto biólogo e aos poucos também com meu novo contexto social. A medida que ia perdendo memórias originais, ficava cada vez mais imerso nessa nova vida, afinal não ha como compreender uma espécie por completo sem vivenciar cada ato de sua existência, existir como tal. E foi assim que aconteceu, perdi totalmente minhas memorias, incluindo aquela sobre o estudo que estava fazendo, tudo em prol do próprio. Vivenciei uma vida humana genuinamente pela primeira vez, e fiz muito bem meu trabalho, senti cada emoção, cada sensação, sentido e sentimento humano, pensei como tal, criei como tal, sofri e vivi como tal, memorável, memorável! Consegui entender muitas questões da sociedade e do comportamento humano logo nesse primeiro corpo, não passaria por nada disso de novo mas não me arrependo nem um momento de tudo que fiz (ainda bem que as imersões em corpos seguintes são mais tranquilas. de se passar, se não este trabalho seria impossível), certeza que só aumentou quando meu cérebro humano começou a diminuir suas funções devido a oxidação pela idade, ou como chamamos: O regresso.

Não sei dizer muito bem qual parte é pior na questão de dor, se é a imersão ou o regresso, talvez os dois sejam equivalentemente diferentes, como gosto de pontuar. Mas talvez prefira o regresso pelo fato de que as memórias e a minha consciência humana começa a entrar em conflito com as minhas memorias e consciência original, se por um lado estava certo de que estava beirando a loucura, por outro tinha total convicção de que estava recuperando minha sanidade e a mim mesmo. Após esta fase fica tudo quase muito claro, eu ja havia entendido boa parte do que é ser um humano e, apesar de ainda estar em tal condição e por consequência ainda ter uma certa dúvida sobre a minha sanidade, eu já lembrava quase totalmente do meu objetivo e do que eu tinha que fazer dali pra frente (que era concluir aquela os estudos naquela vida é seguir para o próximo corpo, afim de entender mais ainda, pois obviamente nao da pra entender tudo numa primeira imersão).

As vidas que seguiram a primeira foram muito esclarecedoras em milhares de aspectos, mas creio que sua função seja complementar o que foi passado no primeiro corpo, talvez por isso eu já conseguia manter minha consciência e memórias originais (não tudo) durante todas as vidas seguintes, desde o começo até o fim de cada uma, algo que vai aumentando gradualmente até o ponto em que o corpo é apenas um casco que abriga minha consciência original e todas minha experiências nos corpos passados, creio que seja a parte mais amena do estudo, e talvez um pouco entediante, mas necessária. Demorou um total de 42 corpos para que esta etapa chegasse, e permaneci emergindo por cerca de 12 após isso, pois sou cuidadoso. Nos corpos finais eu ja estava totalmente adaptado e entendia quase todos os contextos bio-sociais da espécie humana, conseguia lidar bem e sem causar suspeitas aos seres que se relacionavam com estes corpos — e não queria cometer o mesmo erro da 10a imersão onde quase pus todo o estudo a perder quando deixei as emoções humanas tomarem conta dos meu próprio objetivo: Avaliar a espécie humana em sua totalidade biológica e social para ver se estavam aptos a viverem, integrarem e interagirem com o resto do cosmos, caso conseguissem migrar de seu planeta natal com esforço e tecnologia próprios.

Confesso que foi triste ver um planeta tão rico definhar, mas compreendi totalmente que isso aconteceu apenas por culpa de alguns indivíduos humanos específicos, e que isso não fazia toda uma espécie levar a culpa, algo que se comprovou no final de tudo quando os humanos mais sensatos tomaram o controle e salvaram sua espécie, junto com milhares de outras espécies do planeta em uma grande “Arca” (como insistiam em chamar, foi um grande ato de redenção e me fez ter certeza de que eu havia tomado a decisão certa, no fim das contas decidi que eles tem total capacidade de conviver em equilíbrio com o todo, fora de seu planeta.

Outra espécie que se destacou nesse caminho foi a dos Golfinhos (denominação humana), talvez tão inteligentes quanto os humanos, em minha opinião até mais, pois não haviam criado para si sistemas e toda uma complexidade para viverem, eram livres, sabiam disso muito bem e apenas aproveitavam isso, não estavam muito interessados em sair de seu planeta (pelo menos até as coisas ficarem difíceis, foi triste ver seu desespero e impossível de não interferir). Talvez minha maior interferência no desenrolar da Terra foi ter ajudado com a sobrevivência dos Golfinhos, apesar de sua natureza caótica e total consciência sobre si e sobre o todo, eles não estavam muito interessados em nada que não fosse aproveitar a existência, por isso achei que valesse a pena serem poupados e enviei algumas centenas junto com uma pequena e controlada cadeia alimentar (todos vivos) para uma vida totalmente nova em um grande planeta cheio de água e com condições idênticas as dos mares terrestres para suportar vida, creio que na ponta do braço de uma galaxia-estável, longe o bastante para não causarem problemas caso mudem de ideia sobre não se interessarem por passeios pelo cosmos, o que seria muito perigoso devido sua natureza um pouco caótica.

Enfim, sem mais delongas deixo salvo neste dispositivo meu primeiro relato pessoal e minha constatação sobre meus estudos, enviarei mais dados e análises sobre a espécie humana e as formas de vida que eles, já há alguns anos, carregam para fora de seu planeta, em busca de um novo lar. Declaro que está espécie está totalmente apta para viver e conviver sob os cuidados da Grande Ordem, pelo poder que a mim foi concedido, solicito uma equipe de primeiros-contatos o quanto antes para, com cautela, fazermos a conexão.

Feito isso solicito meu retorno à meu corpo original e a meu planeta natal.