Mística cristã evangélica, qual o problema?

Leio o texto de meu colega Daniel Plácido do Grupo de Estudos de Filosofia Islâmica e Judaica sobre misticismo e encontro respostas sobre alguns questionamentos sobre certos fenômenos que já experimentei na fé cristã. Eles claramente se tornam para mim elementos de um tipo de mística. Aliás, isso me desperta o interesse de conhecer mais profundamente a visão da mística cristã tradicional. A fala muito precisa e clara de Daniel sobre o misticismo me ajuda a identificar em contextos evangélicos da atualidade uma certa concepção mística da fé:

“falaremos de mística ou misticismo como uma forma de união direta, de contemplação, de contato íntimo da alma (e/ou do espírito) com Deus ou o Divino, ultrapassando a mera crença e as mediações puramente institucionais entre o homem e o transcendente (ao menos em determinado aspecto, sem necessariamente prescindir delas). O místico não obtém contentamento em ter unicamente fé no Divino ou em falar Dele, não aceita que outro faça o papel de mediador ou delegado exclusivo entre seu ser e o reino transcendente, tampouco fica satisfeito em participar dos ritos e atos da religião formalista, ainda que nada o impeça de participar disso tudo. Na realidade, até mesmo nos ritos e prescrições da religião formal o místico percebe um aspecto interior, mais sutil e profundo”

Infelizmente a fé evangélica se tornou uma fé muito ignorante para compreender a sua própria religiosidade de uma perspectiva mais racional. Muitos praticam uma fé moralista que pratica os princípios da fé sem qualquer compreensão do que significam. É obvio, que uma religião da massa, sempre será mais seguida pela regra do que por uma compreensão intelectual coerente do que se crê, mas isto também não deveria ser um motivo para ignorarmos completamente aspectos que são evidentes na nossa fé e que de um ponto de vista intelectual são descritos com termos que foram condenados por ignorância no passado. É o caso do misticismo.

Para a maioria evangélica, ler a palavra Mística já é um absurdo! Pois, já nos remetemos a crença “mística” de que isso se relaciona com demônios, pactos, e que isso atrairá coisas terríveis sobre a nossa vida. Mas mal sabemos que nossa fé é mística! Por isso precisa ficar claro antes de tudo que misticismo é diferente de esoterismo e ocultismo (embora ambos também possuem características místicas).

Misticismo é ultrapassar as fronteiras da formalidade, da “tradição”. É não contentar-se com a letra, com a norma prática fixa e rígida, é ir além, ir ao “secreto”, é espiritualizar. Como descrito na citação acima: “ultrapassando a mera crença e as mediações puramente institucionais entre o homem e o transcendente”. Em outras palavras, de modo muito popular, o misticismo é a mudança da ótica em como compreendemos nosso relacionamento com Deus. Toda vez que vemos alguma prática da fé com um significado mais sobrenatural e espiritual estamos trabalhando dentro do âmbito místico. Um exemplo simples e claro, é que dizemos que a Igreja é o Corpo de Jesus, mas ela não é realmente o corpo de Jesus, ela o é por conta de uma união espiritual, uma visão de que a obra de Jesus, nos liga cada cristão um ao outro e a ele de um modo espiritual, quanto a sua relação com Deus. Isso é místico. Por isso, é comum que alguns teólogos escrevam que a Igreja é o Corpo místico de Jesus, pois, ela não é realmente o corpo, mas espiritualmente o corpo.

Quando alguém diz que está sentindo a presença de Deus. O que sente? Sente realmente a Deus? E o que é a presença de Deus? É como a fumaça na inauguração do Templo de Salomão descrito no livro dos Reis? É como o fogo que Moisés viu no topo do Sinai? Dizemos isso de uma perspectiva mística. Por que de uma perspectiva da fé prática, bíblica, nos basta saber que Deus existe, e que nos deixou Sua palavra através da qual nos ensina o que espera de nossa vida neste mundo. Quando falamos que Deus falou conosco, como falou se não o ouvimos? E acredite, outros já disseram ter ouvido nitidademente a voz de um Deus que não tem “cordas vocais”, isto é, experiências místicas. Nossa fé, é uma fé espiritual, e portanto, mística. Experimentar a fé de modo prático, menos especulativo, menos no nível da sensação, do sentimento, da espiritualidade, isso é não ser místico. A religião judaica em si não é mística. Ela é prática. Praticar as mitsvot (mandamentos), guardar o Shabbat, saber o que comer, fazer as orações e ponto. A cabala, de certo modo, é a espiritualização do judaismo.

Os cristãos são naturalmente místicos, mas há experiências que deixam isso ainda mais evidente. Que são as experiências pentecostais encontradas em outro nível de místicismo. É o nível do êxtase, do transe, da perca de consciência, de atingir um alto nível de experiência espiritual que o próprio corpo se torna um todo “espiritual”. Outros grupos mais tradicionais e menos místicos observam estes movimentos e interpretam como exageros. E isto, segundo Daniel acontece no misticismo de modo geral:

Essa experimentação, contato ou união mística com o Divino nem sempre é agradável (ou compreensível) aos olhos dos religiosos não-místicos, parecendo-lhes com frequência uma espécie de soberba e até mesmo megalomania;

E não é realmente isso o que acontece? Grupos tradicionais (que também possuem misticismos), que descordam e visualizam aspectos do misticismo de outros grupos evangélicos como absurdos e megalomaníacos. Mas deixando as visões tradicionais versus pentecostais, e a natureza mística de certos conceitos cristãos, não poderíamos dizer que de certa forma, assim como o sufismo é a mística do islamismo e a cabala, a mística do judaísmo, o pentecostalismo é a mística do cristianismo protestante? Assim como os católicos carismáticos são a mística do catolicismo tradicional.

Aliás, mystikos é “mistério”, e não é esse também o nome popular para os movimentos corporais que acontece em algumas reuniões de oração, vigílias e etc? Não são as línguas um “mistério”? A “intimidade com Deus”, é uma visão de uma união mística com Deus. O crescimento espiritual, não é uma evolução a “unção”, a adoração infindável não são todas formas de mística? As danças, o cair no Espírito, e muito mais expressões, não fazem parte de um todo místico do cristianismo protestante?

Onde pretendo chegar com isso? Que intelectualmente falando, os pentecostais, neo-pentecostais ou qualquer classificação carismática evangélica não deveria ser visto por tradicionais ou qualquer outro como uma maluquice sem sentido, mas como uma expressão mística da devoção, amor e relacionamento espiritual com Deus. Não critico mais qualquer tipo de movimento de natureza carismática, apenas reconheço isso como mística evangélica e que bom termos isso em nosso meio!

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