O poder paralelo e a Porto Alegre que perdemos

A esperança não é a última que morre. Nós somos. E não fisicamente, os estágios da vida passam por sentimentos pautados na liberdade. Esperançar é a maneira de conquistá-los. Conservar, cuidar e proteger um ideal, sendo ele individual ou não, é o altar solene da realização social.

Jamais confunda esperança com espera. Um erro de significado capaz de eliminar qualquer razão ansiosa. Quando esperamos, apenas aguardamos certo objetivo passivamente. Quando esperançamos, movemos bravamente forças e instintos buscando resultado. Ser passivo é entregar os remos ao mar. Ser esperançoso é remar em plena tempestade. Do momento, no qual desligamos esse conceito das raízes decisórias, até sermos absorvidos pelo oceano, tudo o que resta, num passar fotográfico a vinte e quatro quadros por segundo, são os sonhos, as vidas, os instantes e os sorrisos que afogamos em lágrimas, entregues para tantas Cristines por aí. Deixamos escapar, pelos dedos cansados da rotina, mães, filhos, sobrinhos, vós e vôs, pais, tias, amigos, genros, noras, primos, irmãos de todos os níveis, deixamos o sangue bombear para fora do corpo, muito antes de permitir que fervesse figurativamente pelas veias. Você, eu, eles e nós esperamos. Apenas esperamos. Há muito tempo.

Existe polarização quanto a solução da problemática. Dois padrões advindos da filosofia que pautam escolhas políticas. O primeiro, e não por isso o melhor, é o Estado de Punição. Nele, os culpados da inexistência da segurança pública, são os sistemas de leis, o código penal, a alta condição de inocência à criminalidade e o nada efetivo sistema penitenciário. Sendo assim, o conflito se resolveria no suporte aos pontos citados. Ou seja, um Estado mais rigoroso concretizaria-se em um Estado mais pacífico. Do outro lado, e não por isso o melhor, está o Estado de Oportunidade. Onde a culpa do avanço criminal configura-se na ausência de caminhos positivos para os indivíduos. Pessoas que não conseguem, socialmente, vislumbrar condição de vida, buscam no poder paralelo o líquido assassino da sede de conquista. E portanto, a solução consiste no investimento em desenvolvimento econômico e educacional para permitir igualdade geral. Ambos possuem certezas, ambos disputam campeonato que deveriam jogar juntos. Não defender o criminoso é abdicar da humanidade como determinante mais puro do que somos. Apenas defender o criminoso é esquecer impulsivamente dos conceitos soberanos de um viver social.

O poder paralelo, ou o universo do crime, é a exemplificação descarada da aplicação dos dois Estados. A oportunidade é onipresente, a meritocracia é ampla e configura resultado, o desenvolvimento pessoal é acompanhado, os ensinamentos são passados livremente, a ética sobre o lado humano para dentro da instituição é dominante, a punição é severa e de acordo com responsabilidade e culpa. A atividade criminosa construiu uma sociedade mais próspera do que qualquer outra. Porque eles esperançam. Enquanto nós esperamos. A sabedoria estrutural é tão abrangente que reconhece nas crianças um futuro e as motiva com tal mérito. Enquanto nós seivamos raízes criativas dentro das escolas. São essencialmente mais elaborados, porque aprenderam o valor da coexistência, porque descobriram a força gregária. Enquanto nós esquecemos, essas mesmas coisas, em troca das televisões, celulares e computadores. E, ironicamente, objetos que levam das nossas mãos, casas e bolsos.

A vida é um bem comum, não individual. Perdemos uma guerra que nos fez perder liberdade. Mas ainda temos os remos. O barco navega em tempestade transponível. Não batalhemos mais por direitos, batalhemos por vida. Esqueça sua direita ou esquerda. Lembre do seu vizinho, que a cada saída pode estar se despedindo da família. Somos vizinhos de mundo. Somos pais, mães e filhos. Somos culpados. Responsáveis por toda morte oriunda do crime. E para as outras vidas que ainda perderemos, peço desculpas aos seus familiares. Erramos tanto que fizemos vocês pagarem.