GOTH STAR

Meus dias viraram extremamente sistemáticos. Pelo menos mais do que costumavam ser, mas isso não é necessariamente ruim. Dentre os motivos óbvios de se escolher uma vida sistemática, a estabilidade é algo que sempre salta aos olhos.

Só que não é por isso que eu estou assim. Fracamente, estabilidade nunca foi uma preocupação, enfim. Descobri que depois de uma grande perda, se erguer em cima de padrões e ritmos é sempre mais fácil. Acabei-me por encontrar, então, nessa rotina interessante onde eu faço tudo o que tenho que fazer — ou não — durante o dia, chego em casa, recolho minhas coisas, recolho-me,também, e vou para minha velha cadeira de escritório.

E lá, sentado de frente para essa grande tela de 32' que eu ouso chamar de monitor, concentro todas as minhas frustrações e preocupações e penso em coisas inteligentes para falar na Internet. E digo mais, isso é tanto insano quanto deprimente. Independente disso, comecei essa pequena listagem diária dos motivos de ainda estar aqui, assumi uma paixão muito forte pelas estrelas, e decidi desistir de tentar ser. Dessas três coisas, irei falar apenas de uma, a tal da listagem diária.

Não quero ficar aqui a noite toda escrevendo sobre os incontáveis motivos de se amar a vida. Se eu o fizesse, provavelmente começaria com como é incrível uma serie de eventos autônomos se envolverem, de maneira inconsciente, em eventos mais complexos, a medida que a vida se faça por existir a partir de algumas formas simples de estruturas moleculares e terminaria dizendo como é incessante essa busca pela divindade e em como ela é ignorante quando começamos a perceber a divindade em nós mesmos.

Assuntos que ninguém quer ler sobre e eu definitivamente não quero escrever sobre — pelo menos não ainda. Hoje eu quero escrever sobre a Estrela Gótica. E eu recomendo a todos os que estão lendo isso ouvirem o cover que a Health fez para a música GOTH STAR. Porque, afinal, todos nós perdemos tudo o que temos.

Penso que minha interpretação da música é completamente alheia ao objetivo do meu texto. Serve apenas como um Norte sensorial. Alguma forma de determinar o clima nostálgico que me apresento enquanto escrevo. Tendo isso dito:

Ultimamente minha vida se tornou quase que exclusivamente povoada por pessoas incríveis. Parece que quanto mais eu tento afastar as pessoas, mais elas aparecem, e com qualidades inversamente melhores. É quase como se minha tentativa constante de isolamento resultasse em um lembrete de tudo que eu estaria perdendo se parasse de tentar.

Bom, eu não parei e nunca vou parar de tentar. Quem me conhece sabe como ando cansado e completamente esgotado das pessoas. Dos poucos pingos que mantive perto, das poucas amizades que ainda me dou o trabalho de cuidar da manutenção, estas se tornaram esforço suficiente para me deixar cansado por dias após um grande evento. E a velha amiga frustração está sempre ali para me lembrar que eu não pertenço e nunca pertencerei, mas isso é história para ouro texto. Sempre há outro texto.

Se a profundidade havia me deixado, era o ordinário que buscaria então. O que deve ser mais fácil do que buscar pessoas on-line que a primeira vista só seriam boa distração? É a resposta simples: Não preciso me preocupar, não há a carga emocional nem a responsabilidade. Posso sempre ter a sensação de uma nova história e ainda sim, não me sentir completamente sozinho. E quando eu estiver cansado, é simplesmente sumir. Um crime sem vítimas.

Isso tem funcionado muito bem. Não, o ponto aqui não é reafirmar a importância de se manter um contato íntimo com as pessoas. Isso realmente tem funcionado bem. Conheço alguém, conversamos por algumas horas, depois não mais. Vou acumulando histórias pelo caminho e a sensação de viver atrás de um espelho acaba sumindo por alguns minutos — claro que só para voltar mais forte depois, mas eu ainda não arranjei uma solução para isso.

Dito e feito, onde estão as pessoas incríveis que eu comentei mais cedo? Em todo o lugar. Parece que elas se escondem — da mesma forma que eu o faço — atrás dessas respostas rápidas e quando nos encontramos, acabamos nos identificando nos buracos e esquecemos por alguns segundos qual era o objetivo final disso tudo. E são histórias atrás de histórias, cada uma mais interessante que a última. Pessoas reais com sentimentos reais buscando objetivos reais. Isso sim virou um lembrete de como a vida podia ser bela.

Isso é, honestamente e completamente livre de culpa, revigorante. É bom saber que sobre essa grama verde que todos vivemos há realmente pessoas que fazem valer a pena escrever sobre. Pessoas para quais eu quero fazer esse mundo melhor. Pode não se tornar melhor para mim, pessoalmente, mas melhor, de qualquer forma. E eu não achei título mais apropriado para essas pessoas do que Estrelas Góticas.

Sim, eu sei que é um título estúpido. Na terceira vez que isso veio a minha cabeça já começou a soar idiota, mas é dessa forma que eu quero redigir minha lógica, ok.

São exatamente como carbono bruto que sob pressão resultou em um diamante magnífico. A velha história de que de todo o mal do mundo pode resultar no bem maior e mais bonito. De que até nos piores lugares com as piores oportunidades pode nascer alguém que mereça tudo de bom que esse mundo pode oferecer.

Por essas pessoas vale a pena o esforço, eu acho. Vamos ver.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Leonardo Fuso’s story.