O que acontece quando a vida não é um pedaço de texto descolado do mundo? Nós somos constantemente anestesiados por histórias maravilhosas que nunca aconteceram sobre pessoas incríveis e seus atos heroicos, mas o que acontece quando você deixa de ser protagonista para ser personagem secundário?

Quem me conhece sabe: Eu sou um grande fã de Stephen King, eu amo as histórias dele, amo o seu jeito de escrever. E tem esse livro, essa novela, Torre Negra. Creio que você já deve ter ouvido falar, bom, você sou eu, lembra? Você já ouviu falar. É sua novela favorita.

Bom, nessa novela, os personagens são constantemente lembrados do quanto eles são importantes e centrais, de como eles juntos representam um peso maior do que o mundo todo. Eles são as pessoas mais importantes daquele mundo, e o seu objetivo é o mais nobre. Roland mesmo disse que faria qualquer coisa pela Torre, mas isso é outra história.

Geralmente uma boa história é acompanhada de um bom protagonista, ou protagonistas. Nunca há boas histórias com pessoas ordinárias. Há boas histórias com pessoas más, mas ainda sim, boas o suficiente para serem escritas ou descritas sobre. Eu posso estar errado, mas nunca vi escritor nenhum com livros inteiros sobre a poeira em cima do guarda roupa dele ou o cachorro do vizinho que nunca latia. Aliás, um cachorro que nunca late pode até ser mais interessante que a totalidade de pessoas que passam através do meu dia.

Minha pergunta é: O que acontece quando você é apenas um personagem secundário? Ou se quando na sua história você não é um Y, mas uma vírgula. Ou você deixa de ser o Mark Zuckerberg para ser o João taxista número três? Você existe, você leva pessoas do ponto A para o ponto B, você tem medos, traumas, mas você, cara. Você é um tédio. Ninguém quer contar uma história sobre você, certo? A menos que você se envolva em algum tipo de drama existencial ou amigo imaginário maluco do escritor.

— Esse é João, João assassinou seu escritório inteiro.

O que acontece com o resto do mundo? Com nós? Eu ou você, que estamos lendo isso, não. Calma. Eu estou lendo porque eu estou escrevendo, você está lendo, você sou eu, ninguém está lendo. Ok.

Continuando.

O que acontece comigo? Eu não tenho história. Eu sou tão medíocre quanto posso ser. Sou apenas um cara normal de nome normal que vive numa parte normal da cidade. Eu tenho problemas? Sim. Todo mundo tem problemas! Qual é o ponto onde o seu problema se torna suficientemente interessante para virar uma história? Existem histórias reais que valem a pena serem contadas?

Todo mundo conhece a história de Star Wars, mas será que todo mundo quer saber a história da própria avó? Às vezes sua avó foi uma militante no regime militar brasileiro, mas, ainda sim, nem todas as avós foram, certo?

O que acontece com o 90% de pessoas que não tem absolutamente nada de interessante para falar? Elas apenas somem com o tempo? Vão embora? Passam pela vida sem deixar nada significantemente grandioso para contar?

Eu sei que nas grandes areias do tempo nós somos insignificantes como espécie, até como planeta, mas isso não deixa de ser cruel. O que um bilionário prepotente tem que eu não tenho?

É, eu sei, a resposta é óbvia.

1. Ele é interessante — pelo menos mais que eu.

2. Ele tem um bilhão de dólares.

Ok, eu não estou conseguindo chegar no meu ponto. Tá difícil.

Suponho que algumas pessoas simplesmente não valem a pena terem seu nome escrito na história do mundo, eu acho. Algumas pessoas só são e vão ser até não poderem ser mais, e francamente, ninguém vai sentir falta.

No final, as chances de você ser meio a toa e tanto faz é bem grande e você tem que viver com isso, sabe? Tem que… calçar seus sapatos de aceitação e seguir em frente. O mundo é sim muito grande para eu e você e nós acabamos de levar um chute da verdade bem no meio das costas, naquele lugar específico onde a madeira da cama insiste em pegar enquanto você dorme.

Acho que já chegou a hora de nós pararmos de nos ajoelhar para deuses e aceitar a mediocridade dentro de todos nós.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Leonardo Fuso’s story.