Where’s your mind

Um dos últimos

Um bater de porta violento estoura no corredor afora. O som foi tão alto que arrancou a Morsa de seu sono como um curativo velho e sujo da ferida cicatrizada, arrastado pelos lençóis sujos com meio corpo para fora, logo estava no chão esparramado. Uma coisa feia de se ver, jogado como veio ao mundo, com suas verrugas e estrias amostra para qualquer um que estivesse ali, isto é, se alguém arriscasse mais de dois segundos encarando o abismo que era a fenda que levava ao seu cu.

Gemia de dor, com seu braço torcido embaixo do peito gordo, tentou ficar de joelhos numa pose um tanto quanto frágil, de bolas e pinto pendurados, estava de quatro com meio lençol cobrindo suas costas e parte da cabeça. Antes que pudesse se apoiar direito ouvira três baques fortes na porta de seu apartamento. Vestiu aquele meio lençol, contornando-o pela cintura e segurando as duas pontas juntas abaixo do umbigo, com a outra mão coçava a bochecha esquerda, tirando a poeira que havia grudado do chão quando caiu.

Seus passos eram lentos, como de um pinguim de ressaca, mesmo assim não demorou muito para tocar a fechadura. Aposto que não se preocupava mais com qualquer coisa que estivesse do outro lado da porta, não depois de tudo que aconteceu, principalmente no Jardim Secreto. Podia ser quem quer que fosse, seja ele ou seu vizinho, ou a vadia do apartamento da frente. Não importa. Ia despachar quem quer que fosse, porque era sábado de manhã e ninguém faz nada num sábado de manhã.


Do outro lado da parede, no apartamento ao lado, havia um rapaz inquieto sem acreditar muito no que havia acontecido nos últimos meses. Já não conseguia distinguir realidade da fantasia, porra, não conseguia nem entender onde era o começo e fim daquele condomínio maldito mais. Sabia apenas de uma coisa, aquela porra de gordo era o culpado por tudo. E por mais que tenha se esforçado para ligar os pontos naquelas últimas duas noites, havia alguns Is sem pingos e paredes vazias em seu apartamento.

Seus quadros estavam em branco e o rádio já não ligava há horas. Não achou que fosse mais um dos seus ataques de ansiedade, sua respiração estava acelerada e seus pulsos cerrados, mas não importava mais, não era a um ataque de ansiedade, era outra coisa. Queria fazer algo bonito sangrar, nem que significasse arrancar um pedaço seu e jogar para os vermes brincarem. Queria que aquele pesadelo acabasse e tinha um gordo fodido no meio do caminho. Com um sorriso cínico e mimado de alguém que nunca sofreu o suficiente na vida. Nunca teve que tomar escolhas difíceis, que nunca se importou com um puto longe do próprio umbigo.

Sentia o gelado mórbido subindo pelas suas entranhas, quase como a barriga de um apaixonado, se esse apaixonado fosse um maníaco sexual com gosto culinário peculiar, só que ao invés de borboletas, eram mariposas do tamanho de bolas de golf. Sua mão estava pesada agora, e um pouco fria também, ouviu o mínimo som de clique da gaveta da cozinha e estava pronto para ir embora dessa merda de lugar.

Correu em direção a porta e não pensou duas vezes antes de batê-la com toda força contra o batente, apenas um pequeno ensaio do que faria com a cabeça daquele gordo se não calasse a boca e o deixasse falar. Tinha muito o que falar. Saiu em direção a porta vizinha, com uma das mãos fechadas em um punho severo e a outra atrás das costas segurando um cabo de sândalo que não estava lá alguns minutos atrás. A adrenalina estava bombeando tão forte em suas veias que quase não sentia a ponta gelada encostando no começo de sua bunda, teve que checar para ter certeza que não havia caído.

Bateu com força três vezes na porta, e antes de conseguir organizar os pensamentos a imagem grotesca de um homem-morto, se é que podia ser chamado de homem assim, infestou sua visão como se tivesse acabado de abrir um bueiro cheio de baratas. A sensação é parecida, acreditem em mim.

Quando firmou os pensamentos e percebeu a expressão vazia da Morsa na sua frente, com suas duas sobrancelhas arqueadas para cima como quem quer dizer que porra você tá fazendo na minha porta nada importou mais.

— Foda-se — foi todo o som que saiu da boca do rapaz antes do estouro seco ecoar pelo corredor branco amarelado do quarto andar do edifício Não tenho mais para onde ir. E então o silêncio. Quase que alinhado perfeitamente ao cano do revólver existia um buraco indo do começo da testa até o topo do maxilar de seu vizinho escroto. Que por sinal, agora estava espalhado pelos quatro cantos do corredor de entrada de seu apartamento. A mão que estava segurando o lençol continuou ali, até o corpo inteiro daquela coisa se espalhar de volta pro chão — de onde tinha saído momentos atrás.

Se olhasse bem para o fundo de sua cabeça conseguia ver o buraco no chão por onde os vermes entravam, e se procurasse direito com certeza iria achar o olho direito grudado no vidro da sala. Uma sensação de alívio profundo baixou no rapaz e exatamente como tudo começou, havia terminado. Não estava mais tremendo e seu coração não parecia mais explodir para fora. Levou alguns momentos para baixar o pesado cano prateado do revólver, mas quando o fez, reparou a poça de sangue sendo absorvida pela madeira podre.

Sabia, porém, que nada daquilo havia realmente acontecido, e que nunca tinha comprado uma arma, muito menos atirado com uma, nenhuma vez se quer durante toda a sua vida. Salve a época em que costumava pegar a espingarda de chumbinho de seu pai e atirar em garrafas pet fazias, mas isso não podia contar, podia? A arma parecia bem real e pesada em suas mãos, mas se pensasse com força suficiente não conseguiria lembrar de onde ela havia saído e muito menos quem colocara munição no tambor para ele. Se quer tinha certeza de que estava carregada, com certeza não lembra de ter verificado antes de fechar a gaveta da cozinha. Isso não importa, nada disso importa. Agora somente o silêncio.

Sentia-se como 160 kg mais leve. E três vezes menos idiota.


Precisava encontrar a Nicolly. Só que ela não estava mais em seu apartamento, o mesmo estava repleto de faixas vermelhas, daquelas que proíbem o acesso, no lugar onde era a porta de sua casa. Não sabia onde ela estava, e nem sabia mais se ela estava. Só queria sair dali, não aguentava mais ver aquele monte de carne podre se dissolvendo entre as fendas no chão. A falta de naturalidade dessa situação estava mais do que evidente, já não se preocupara com o que parecia fazer sentido ou não.

E agora com a Morsa fora do caminho ele finalmente entendeu o porquê dela estar ali, no começo de tudo. Era a única coisa que estava na frente de uma conclusão muito mais sinistra. Você sabe, quando um livro acaba, ele tem de acabar. E não importa quão ruim uma história seja ou quanta dor ela manifeste, não há dor pior do que a de se estar no espaço entre histórias. Em tudo e em nada. No espaço vazio que é não querer morrer, mas também não entender direito o que é viver. A Morsa era a única coisa que separava ele da realização de que estava vazio, e sem coisas para odiar ou colocar a culpa em, ele estava perdido, sempre esteve. Desde a primeira noite que ouvira o vizinho se masturbando para a apresentadora do show de culinária.

Ele finalmente entendeu o que a Morsa representava. Porque no fim, quando você não tem mais o que sofrer ou odiar, só resta você, e tem sido ele desde o começo dessa história e não estávamos prontos para voltar ao ponto inicial, estávamos? Com uma arma sem balas na mão, o cheiro de sangue podre e a realização de que estava vazio, sem saber o que fazer, como continuar.

Agora a floresta queimou até o chão. Suas chamas tornaram a terra infértil e junto a isso, seu coração ruiu, levando consigo todas as suas assombrações. Não restava mais chuva fria nem café. O ar estava seco. E todos os quartos vazios. Não há mais vizinhos. Nunca houve Morsa. Só seu companheiro de todos os anos, seu companheiro e ele. 41 6E 6A 6F 20 64 59 20 4C 61 74 61.

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