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Estamos caminhando para o caos.

Jornadas de Junho de 2013 , Importante Movimento de Politização no Brasil — Rio de Janeiro (Não encontrei o autor)

As vezes tenho vontade de cavar até o coração do Brasil, dar três tapas no núcleo para ver se volta a funcionar corretamente e quando retornar as coisas não estarem tão caóticas.

Sumir com a ameaça aos vermelhos, com o Brasil “Ame-o ou Deixe-o”, com a homofobia ou Escola Sem Partido.

Voltar a jogar videogames, escutar podcasts, assistir filmes ou animes e me enganar pensando que só a representatividade e o amor vão ser suficientes para enxergar um futuro melhor, em que usufrua de uma aposentadoria, um casamento feliz, filhos, um cachorro ou um gato quem sabe, enquanto jogue Bloodborne 8.

Mas aquela voz me dizia:

“O mundo que você se engana em acreditar é uma projeção, dê meia volta”

Alguns podem chamar de “saia da Matrix”, mas ainda vejo a realidade como mais cruel que um filme, que acaba no final sendo mais uma simulação sobre outra.

A cidade está quebrada, os jornaleiros vendendo notícias do dilúvio, os campos de concentração diários, os ataques terroristas institucionais. Isso não poderia desembocar num futuro de tranquilidade, paz e churros. É o chamado diário, a terra tremendo, as negras tormentas se formando.

Roberto Carlos e Nação Zumbi compartilharam músicas falando sobre Surdez, uma fala sobre esperança enquanto a outra é um prelúdio. Pese o peso que cada um dos casos tiveram politicamente. Elas estão lá, talvez para aprender que paz, violência ou dor não são entidades. São carne, sangue e espinhos.

Outra letra que apresenta de forma magistral um prenúncio do futuro, justamente por compreender presente que não se quer enxergar (ou escutar), é a música do Facção Central, que diz:

Hoje Deus anda de blindado, cercado e protegido por dez anjos armados.”

Essas letras nunca tiveram só valor simbólico como bem sabem, as coisas sempre foram assim. O pastor na figura de Deus e os anjos armados na figura dos fieis fazendo arminhas com a mão e só mais um retrato do apodrecimento. A consequência Brasil, a barbárie.

Do núcleo não voltaria.

A verdade é que como as máscaras caem, as pessoas parecem irreconhecíveis e irreconciliáveis, o que caiu também foram anos e anos de problemas para debaixo do tapete.

Contradições graves tratadas com palavras românticas e desconexas, algumas pitadas de institucionalidade e o desprezo total ao debate.

O monstro que se levanta pode ter seu coração próprio, mas seu corpo é constituído por maquiagens, remendos e um sentimento falso de “está tudo bem”, ainda que nunca se esqueçam, seus pés são de barro.

A cada dia se levanta um pouco mais, enquanto sua sombra forma um buraco no espaço tempo, tudo está cinzento, parece sim uma indigesta viagem ao passado, mas vocês sabem, nada foi colorido. É só o verniz desgastando, as estruturas terminando de enferrujar e o museu de grande novidades se levantando, renascido das chamas.

Temos conhecimento o suficiente para chamar de Cthulhu, Leviatã, Ragnarok, Juízo Final ou apenas o acerto de contas com a história, falando de forma materialista.

Ragnarok: Juízo Final da Mitologia Nórdica — Não Encontrei o Autor

Bom, ao contrário da ficção em que tudo é destruído e só resta a penumbra e desesperança até que os heróis surjam dos céus em dezenas e pensem por milhões de cérebros.

A realidade ainda é agridoce, porque os heróis são de carne e osso, são milhares e pensam juntos, agem juntos, lutam juntos.

Hollywood não pode salvar o planeta, nem no cinema, nem na vida real.

Os seres mitológicos, terror cósmico, profecias e nem mesmo botinas descerebradas podem derrotar a barreira que a realidade costuma formar para desatinar lutas, desembaraçar nós e apresentar um mundo que ainda vale a pena viver.

Para concluir, quando cheguei no núcleo, cavando bem fundo, o que estava lá era um Pau Brasil, intocável pelos portugueses, robusto o suficiente para aguentar chumbo.

Foi o suficiente para sair, voltar, não querer voltar no tempo, nem para 2003 e nem para 1964.

O azar deles é que a árvore que cresce e se saltará para o lado externo, se erguendo e crescendo sem parar nos próximos anos.

A árvore que carrega o nome deste país.

já é vermelha.

ibirapitanga em tupi-gurani — Ybirá(árvore) Pintanga (vermelho). Os colonizadores chamaram a árvore de Bersil (Brasa), para mais tarde também receber o nome de “Pau Vermelho”.