Um Domingo de Cinema e História

Foto: Miron Neto/Divulgação

Quando cheguei a Gramado, já tinha certeza da primeira coisa que faria. Visitar o novo Museu do Festival de Cinema de Gramado. Aguardado há muito tempo, ao lado do Palácio dos Festivais, o museu é um edifício antigo, grandioso, realmente lembrando um cinema. Ao pagar as entradas e rolar a catraca, deparo-me com um tapete vermelho que nos conduz até o acervo. As paredes na volta estão repletas de cartazes dos mais diversos filmes, mas a maioria era da década de 1980 e 1990 — todos brasileiros e, em vários, há a figura de Guilherme Fontes no seu tempo de galã. Assim que acabo de subir, vejo uma cafeteria, uma loja de souvenires e a própria exposição.

Sentei em uma poltrona na cafeteria e observei a bela vista da área central de Gramado. Logo à frente, havia a Rua Coberta e seu reluzente tapete vermelho, especial para a cerimônia do Festival de Cinema. Vários turistas passavam pela rua, bares, restaurantes e as diversas lojas ao redor e na própria Rua Coberta, a avenida estava lotada de carros. Do lado esquerdo havia a igreja de São Pedro, com esculturas dos doze apóstolos junto a uma fonte. Do lado direito o Palácio dos Festivais, sendo limpo para a noite de cerimônias daquele domingo. Cercado pelos mais icônicos pontos da cidade, resolvi entrar na exposição principal.

Assim que passei uma cortina preta que separava a entrada da exposição, vi um ambiente escuro, quase que uma sala de cinema. Havia uma grande tela, ela explicava a história do festival, seu surgimento e os grandes marcos do cinema brasileiro desde que surgiu. Na parede inferior à tela havia quadros de alguns dos maiores cineastas brasileiros, como Glauber Rocha, e também alguns equipamentos do cinema antigo. O projetor encerra a breve introdução ao acervo após cinco minutos, permaneço mais alguns instantes admirando os poucos quadros e objetos que estavam naquela sala extremamente escura, e como era bela a fraca iluminação que incidia nos quadros.

Passo mais uma cortina, essa vermelha e de veludo, e finalmente me deparei com a exposição principal. Havia cerca de vinte metros de um painel com a linha do tempo do festival. Todas as letras dos cartazes em branco criam contraste com o ambiente escuro de cinema no local e tornam a leitura fácil. A linha do tempo tinha seu começo junto com o próprio festival. Nela havia o filme que mais venceu do respectivo ano, também havia o melhor filme brasileiro e, a partir da década de 1980, o vencedor do prêmio internacional. Assim aparecem filmes argentinos, uruguaios, colombianos e cubanos em diferentes momentos. Também mostrava o cartaz do festival do respectivo ano, assim tinha várias informações, pôsteres pouco chamativos dos festivais e também as cores fortes dos posters de filmes com ressalto no meio do preto que tomava conta do local. Vermelho e verde, cores tropicais, em uma tonalidade de gritante que realçava aqueles pequenos pôsteres no meio do grande painel preto da linha do tempo.

Depois de passar cerca de trinta minutos lendo os painéis, avanço até o centro do salão. Lá havia um grandioso retroprojetor, da década de 1960, e suas instruções em italiano. Também havia algumas peças usadas em filmes brasileiros e rolos originais de alguns filmes em um espaço reservado atrás do projetor. A frente dele havia mais um painel com outras informações do festival. Prosseguindo pelo corredor, vi uma catraca antiga, num tom vermelho desbotado, algumas partes já estavam cobertas por ferrugem que o tempo a deu, mas havia certo charme naquele objeto. Logo ao lado da catraca, duas cortinas levavam a outra sala. As cortinas beges não tinham muita sintonia com o espaço de cinema que todo o ambiente tentava remeter, mas assim que passei, entendi o porquê daquelas cores.

A pequena sala do outro lado das cortinas era composta por uma tela, um projetor e algumas poltronas — todas iguais, exceto a ação que o tempo exerceu sob cada uma delas. As poltronas de mesma cor da cortina estavam em um bom estado de conservação. Elas eram da década de 1930, do primeiro cinema de Gramado, o piso e as cortinas eram do mesmo cinema. O projetor passava um documentário sobre Glauber Rocha e assim que saí da pequena sala me deparei com um painel sobre o mesmo cineasta e uma pequena televisão que passava o mesmo documentário, em sincronia com o projetor que havia no interior da miniatura de sala de cinema.

Ao final do trajeto, havia uma simulação de estúdio de filmagem, com cadeiras de diretor, algumas câmeras e uma forte luz. O cenário era um forte contraste com tudo que havia na exposição. O branco da forte luz predominava o local, enquanto tudo que víamos era principalmente preto e vermelho. Não entrava em sintonia alguma com o local, mas individualmente era uma parte interessante da exposição.

Cheguei ao fim e voltei tudo, observando por uma segunda e mais rápida vez o que havia exposto. Dirigi-me à saída que nos conduzia diretamente à loja de souvenires, pensei em comprar algo, mas os preços exorbitantes me repeliram rapidamente. Assim, refiz o trajeto que me levou ao museu, pelo tapete vermelho e os inúmeros quadros nas paredes e saí de frente com a Rua Coberta. Depois de tanto tempo dentro do ambiente escuro do museu, a luz do sol agredia meus olhos, uma dor de cabeça me afetava, mas continuei meu dia como turista em Gramado, e ainda estava maravilhado pelos artefatos que havia dentro do museu, principalmente, o grande projetor que havia no centro.