Os sonhos de Kleber Mendonça Filho
Em Aquarius, artefatos imobiliários armazenam e projetam afetos contra a tela de cinema. Apartamentos guardam lembranças e pesadelos, encenados nos sonhos de proprietários que dormem, que dormiram por séculos.
Os crimes do presente vem na forma de criadas, negros, moleques e escravos perambulando pelos apartamentos em meio às memórias sensuais armazenadas nas mobílias. O suspense nos filmes de Kleber é a expectativa da retaliação, da reparação que não virá sem banho de sangue — exceto que nunca vem. Lembre-se dos bandidos pulando o muro e se amontoando como enxames de baratas no sonho da menininha em O som ao redor — expectativa, desejo e pesadelo ao mesmo tempo; ou o câncer de Clara que se torna o “câncer da escravidão”, quando Clara sonha com a esquecida empregada que roubava jóias, agora ao pé da cama apontando-lhe o seio removido que sangra; ou a cena em que a empregada atual, de resto dócil, irrompe com violência antidiegética e alucinatória ao mostrar uma foto do seu filho, de quem ninguém quis saber — um insert em que a criadagem do presente reclama a História do apartamento para si, e se impõe ao realismo familiar naturalizado da cena familiar que lhe exclui, constrangendo até mesmo Clara, a calejada.
Mas se por um lado a reencenação da senzala invadindo a casa grande acontece sempre durante o sono ou a alucinação, na vigília temos a encenação do capital financeiro e artístico (discos, mídias antigas, arte, sofisticação, coisas de que Clara tanto se orgulha). E é fácil ver na vigília de Clara, em simbiose com seu apartamento-sobrado, um pesadelo.
Kleber já afirmou em entrevista que nunca passou por nenhum episódio de violência. Assim, para adentrar na discussão, arma-se com o tema do medo, do pesadelo, imagem e forma da História. E mesmo que passássemos sem essa certificação biográfica, ainda resta o fato de que o virtuosismo estilístico de Kleber é toda uma estética do medo, de uma História que pode levantar e reclamar a qualquer momento.
Por mais que Aquarius seja, basicamente, Clara, não são os personagens que sentem medo, mas sim o espectador, encontrado na fronteira entre sono e vigília, entre os crimes do passado e os crimes do presente. O espectador está implicado na rede de violência e história, um intruso a quem foi concedido observar camadas históricas e pontos de vista se desenrolando na superfície do filme ao mesmo tempo, inacessíveis aos personagens.
Mas o medo é de qual ponto de vista? Ou é o medo de um ponto de vista?
Kleber é Kleber e seria arrogante da parte dele querer partir de qualquer outra perspectiva que não a sua própria. OK.
Só que nas discussões sobre o filme, a questão das perspectiva não é nunca mencionada. (Não ajuda que, quando calha de ser, é nos piores termos possíveis).
Tudo que quero dizer é: gente, olha ali, uma perspectiva.
O que é uma perspectiva, principalmente no cinema? Uma engenharia que distribui vetores, linhas, traçados e cálculos, que por sua vez desenham memórias e afetos específicos, resultando numa moldura que faz ver alguma coisa. É uma máquina que sonha.
A celebração em torno de Aquárius me pareceu a celebração de uma máquina que tem a intenção de insinuar outras máquinas, mas continua sendo uma única máquina.
Não faz sentido “culpar o filme por causa do fandom”. Mas, quando os sonhos da máquina promovem catarse em todo um grupo de gente, que então se vêem representadas e sentem-se expiadas, ao invés de ignorar a recepção, podemos tratar a laudatória como sinal de fumaça da máquina.
