Tentativas de estabelecer a origem do PT-BR na Internet
nosso mundo tem milhoes de gente e nenhuma delas te perguntou nada
— rodrigo mlk top, Orkut
que papo feio em como apagar isso . cois feia quem colocou isso no meu computador ? faca o favor de apagar ; coisa horrivel nao aceito isso no meu computador ;
— Cida C., Facebook
Desconfio que não, mas não sei se o português zoado falado na Internet possui equivalência retórica a algum outro vernáculo; sei que dá pra dizer simplesmente que ele é: ótimo — e portanto pode ser pensado criticamente.
Tentativa 1ª
As particularidades orais específicas ao PT-BR não têm origem no português culto. Se nos comunicamos como pessoas, se não falamos com o hermetismo afetado das sentenças do judiciário, se queremos ser entendidos com alegria e um pouco de viés e jovialidade, permitidas não pela gramática mas pela língua, é porque o Brasil recebeu boa parte de sua beleza e especificidade, ou pelo menos das que tornam alegre o ato de falar, a partir de uma afronta declarada ao português culto (que será, nas tentativas seguintes, chamado de “centro” — ontologica e epistemologicamente, isto é, tanto como ponto de referência “em si” quanto “centro de emissão”)
As gírias, a cadência, o ritmo e a musicalidade com que se fala hoje na Internet emergiam nas escolas de classe média em que estudei com o reconhecimento tácito e um tanto envergonhado de que nós utilizávamos algo que não nos pertencia. Falava-se errado “por brincadeira”. E era brincando ilegitimamente que ocorria a verdadeira comunicação.
Não dá pra dizer que o português correto pertence a alguém. Ele nos é imposto, e com a violência de toda educação: tentativa, erro, punição. Do ponto de vista da oralidade vernacular, o de quem come exaltadamente um plural numa conversa, o português culto, depois de aprendido, depois de esquecida a violência, tornava-se uma besteira cujo propósito era só o de impressionar adultos.
Tentativa 2ª
O português culto é o normal, é o ortodoxo, é a branquitude, é a civilização ocidental, o a priori, é o centro.
Está claro, hoje, que todo “centro” que arrogantemente se quer oficial só sustenta sua oficialidade ao recalcar o fato de que toda adjacência deve, sem perda ontológica alguma, reclamar para si suas própria centralidade.
Apesar disso, a distinção centro versus periferia (urbana) continua operante — graças ao Estado e seus tentáculos midiáticos, que violentamente posicionam-nos no centro ou fora dele. E a distinção vai continuar fazendo sentindo enquanto acreditar-se, em escala territorial, que os canais oficiais de comunicação determinam os pontos de vista que importam. A crença é o que alimenta esse poder da doxa midiática, assim como alimentam (como ensina a antropologia) toda feitiçaria.
Um adolescente num colégio de classe média come um plural e, imediatamente, algo dentro dele lhe assegura que era só brincadeira, que sabe falar corretamente. O adolescente de classe média é como um soldado cuidando de uma fronteira, sentinela treinada para velar pela manutenção da cerca, cujo treino consiste, justamente, em educar-se à respeito do que é centro e do que não é. Na verdade, ele é transgressor e sentinela a um só tempo, se divertindo em botar um pézinho na zona proibida, rindo pois sabe a que lado pertence de verdade, meio culpado, meio livre.
No entanto, essa liberdade é institucionalmente celebrada por tiozões de esquerda como o feliz encontro entre o morro e o asfalto, o coração e a beleza da contradição brasileira. A celebração pura e ingênua não leva em conta a concessão (dita aqui reconhecendo-se o espírito burocrático do termo) que o moleque faz a si mesmo quando utiliza uma gíria:
Eu sou eu, eu sei falar do meu jeito, minha identidade está protegida.
Primeiro, apropria-se da alegria vernacular de outros; depois, legitimado pela própria centralidade, desdenha-na. .
Tentativa 3ª
No De vulgari eloquentia, Dante utiliza-se do mito da Torre de Babel para explicar como veio a ser que existam tantas línguas: são a punição de Deus por se tentar alcançar os céus. O gigante Nemrod, responsável pela construção da torre, recebe de Dante a pena de balbuciar para sempre numa língua sem sentido. E o mundo foi dividido entre infinitos vernáculos, e os povos não mais se entendem.
Ao contrário da Commédia, e assim como outros tratados de Dante, De vulgari eloquentia foi escrito em latim, segundo as regras da grammatica — projeto para reunir, estabelecer, e normatizar, o caos produzido pela torre de babel. A Grammatica, monumento imutável, foi feita para resistir às intempéries naturais com que as línguas se modificam ao longo do tempo e do uso.
Todo mito, como qualquer meio de compreensão, pode ser uma ferramenta de compressão, e dançam no visor de um microscópio ou ressoam no estetoscópio do ensaísta. Dá pra dizer que o mito da Torre de Babel é um mito de origem não da bagunça das línguas, mas da criação da Grammatica.
Dante conta a história de Nemrod, e muitas outras histórias, por assim dizer, em gíria. A Commedia é cantada numa mistura de elementos sintáticos, ritmicos e gramaticais de diversos dialetos locais, o estil nuovo, a língua vulgar, até então reservadas a canções e à comunicação oral. Com os instrumentos certos nos alinhando a perspectiva, ela é nada menos que rap — com todo o aparato político, os salves!, a raiva e a redenção pela música.
Tentativa 4ª
O hu3br (entendido como estilo deliberado de escrita e não em seu aspecto zoeirístico-reacionário) e seus predecessores e sucessores (tiopês, etc) não são só a mímesis da oralidade reproduzida em mídia material (como por exemplo a praticada por escritores).
Pois parte da força do português falado na internet só se efetiva na imaginação, numa mistura muito específica de oralidade e visualidade. Como certos poemas.
Essa força deriva justamente do reconhecimento dele ser escrito. O PT-BR não existiria sem o computador. Não é redundância dizer que esse estilo, que existe justamente na internet, não existiria sem a máquina que lhe permite o acesso a ela. Numa época em que se discute se cyberpunk e pós-apocalísmo brasileiro sequer fazem sentido, temos um exemplo claríssimo da vasta tecnologização material que determina a superfície engraçadinha da internet. O PT-BR é fruto de uma geração que, análoga à Alemanha letrada, unificada e alfabetizada do século dezenove e suas caligrafias, cresceu com um teclado de computador à frente e o vernáculo instalado no espírito. Passou-se um tempo espantadíssimo com o fato de o teclado da máquina de escrever conter toda a literatura esperando para ser catada (Mallarmé e suas vinte quatro letras, etc). Antes extrema mediação — a novidade da máquina de escrever, do computador — entre pensamento e escrita, a partir de certa geração a mediação se torna absolutamente imediato: escrever no computador hoje é tão fácil e prazeroso quanto era gozar nas curvas da caligrafia do dezenove. As gerações passam e deixam pontes que ligam alma e espírito, para que os séculos vindouros as incendeiem.
Aí um moleque come um plural, e nasce a cultura digital brasileira, e o centro não resiste.
É como se, caso só girássemos em torno do próprio centro, não conseguíssemos dizer nada de novo.
